VnVintage: Manifesto Viajandão

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Viaje na Viagem, 1998

Já que eu não consegui arranjar uma brecha para escrever posts novos, deixo com vocês textos vintage do Viaje na Viagem derivado de árvores, de 1998. Este é o capítulo inicial do livro (o título original do capítulo é “Viajando na viagem”, mas depois que eu me tornei o paladino antigerúndio — também há um tempão, em 2001 — achei melhor mudar para evitar ironias). Modéstia às favas, é um dos meus textos mais redondinhos. Se eu fosse cantor, ia ter que cantar sempre :shock:

Curiosidade: todo mundo diz que a coisa mais difícil de um livro, sobretudo de um primeiro livro, é a primeira frase. Eu não tive essa dificuldade. Mas não por mérito meu. Conversando sobre o livro com a Pinky Wainer, que foi minha editora nesse trabalho, eu falei em algum momento “toda viagem é uma extravagância”. Ela parou tudo e disse: ESSA é a primeira frase do livro!

O resto então ficou fácil :mrgreen:

Toda viagem é uma extravagância.

Seja você pobre, remediado ou rico, viajar sempre significa viver temporariamente muito além de suas posses. Esse é o barato — e o caro — de qualquer viagem. Multiplicando a diária do seu hotel por 30 você vai ver que na vida real nunca poderia pagar isso tudo de aluguel. Basta computar seus gastos diários com refeições para ter um treco imaginando quantos supermercados a mais daria para fazer no mês. Você pode até já ter se acostumado com o preço das passagens aéreas, mas se calcular quanto custa a hora afivelado naquela poltrona, você vai querer que uma máscara de oxigênio caia automaticamente do compartimento acima de sua cabeça. E isso vale para todo mundo. Metade da primeira classe deveria viajar na executiva, grande parte da executiva deveria estar na econômica, e a econômica inteira deveria ter ficado em casa.

Mesmo assim, viajamos.

Viajamos para fugir de tudo. E para ter saudade de casa. Viajamos para descansar. E para voltar mais cansados do que fomos. Viajamos para nos livrar das obrigações de todo dia. E para ter a obrigação de visitar dois museus e três monumentos todo dia. Viajamos para experimentar coisas diferentes, e para ter dor de barriga. Para comprar o que não precisamos e pagar com o que não temos. Para entrar em igreja e andar de metrô. Para não entender os outdoors, para desobedecer alto-falantes e para nos equivocar com cardápios. Para gentilmente pedir a desconhecidos que tirem fotos que depois vamos obrigar os conhecidos a ver. Para investigar se os McDonald’s que lá gorjeiam não gorjeiam como cá. Para fazer extensos tratados sociológicos sobre povos estranhos já no primeiro dia de estada. Para na volta ter quilos de histórias para contar e toneladas de quilos para perder.

Nada é tão motivador como a possibilidade de viajar. Na expectativa de uma viagem, pedidos de demissão são engavetados, casamentos são prorrogados, filhos são adiados. Em casos mais extremos, casas próprias deixam de ser compradas, carros escapam de ser trocados, videocassetes se conformam com menos cabeças que o do vizinho. Tanto sacrifício tem uma recompensa garantida: pouco a pouco você vai se tornando um sujeito “viajado”. E não existe nenhum adjetivo mais charmoso, nenhuma qualidade tão sem contra-indicações quanto ser “viajado”. Ser viajado é mais simpático do que ser “culto”, mais interessante do que ser “inteligente” — e quase tão bacana quanto ser “rico”.

Mas ninguém viaja por interesse. Até porque, depois do sexo, viajar é a diversão interativa mais antiga de que se tem notícia. Além de serem as duas coisas mais prazerosas da vida — e funcionarem esplendidamente em conjunto — sexo e viagem compartilham inúmeras outras semelhanças. Não importa o que digam os interneteiros, o certo é que ambos só se realizam plenamente ao vivo. Um costuma durar pelo menos 30 minutos, a outra pode durar até 30 dias, mas a sensação é que tudo passa depressa demais, não foi? É bom quando é inesperado, tem seu valor quando é rapidinho, há quem goste quando não existe compromisso. Porém, assim como no sexo, nada faz tão bem a uma viagem como a combinação de três fatores:
• desejo;
• envolvimento;
• preparação.

A viagem acalentada, cortejada, paquerada (quanto mais difícil, melhor), carinhosamente pesquisada (uma espécie assim de namoro), com uma preparação dedicada e minuciosa (o equivalente das preliminares), sem dúvida dá muito mais satisfação — e uma satisfação mais duradoura — do que aquela viagem que você mal conheceu e já quer levar para o aeroporto.

A idéia deste livro site é fazer sua viagem começar muito, mas muito antes do check-in. É trazer a “viagem” da viagem para os trezentos e tantos dias do ano em que você não está viajando. Como? Mostrando como você pode acalentar, paquerar, pesquisar e preparar sua viagem, e tirando o máximo proveito de tudo isso. Rentabilizando sua extravagância. Evitando micos. Recompensando seu sacrifício. Ajudando você a ser mais “viajado”. E, principalmente, aumentando seu prazer em viajar.

Bem-vindo a bordo.

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66 comentários para “VnVintage: Manifesto Viajandão”

  1. Já li esse texto pra um sem-número de amigos. E o (acho) segundo capítulo também, o que fala sobre os mal-humorados. Que fiquem em casa! :-)

    1. Adri, eu amo o dos mau-humorados! Sempre que eu vejo alguém comprando/ construindo casa na praia, me lembro do Riq, hehe…

      1. :-)

        1. Ricardo Freire,

          Depois dessas mensagens fiquei louco para ler esse capítulo dos mal humorados. Não dá para dar uma palhinha dele aqui no VnVintage?

          Passei o texto publicado acima para todos os meus amigos viajeiros. E todos gostaram muito.

          “Mesmo assim viajamos” conclui com chave de ouro. Adorei.

          1. Um dia eu ponho. É como eu ando de TPM ultimamente, o teor do texto ia se voltar contra mim :shock:
            :mrgreen:

            1. Ah mas você não comprou casa de praia não né? É que naquela época não existia abusadores de blogueiros…

  2. E quando você embarca numa viagem sabendo que ela vai ter um quê de roubada, mas mesmo assim não resiste e vai? Eu já fiz isso algumas vezes, reclamei das roubadas, mas não teria deixado de ir nunca. É mais intenso que sexo, é um vício.

  3. Caro Ric, sou absolutamente apaixonada por este livro…já comprei varios, mas acabava emprestando a amigos para incentivar suas viagens…resultado…ninguem me devolvia e acabava comprando outro…so que ja faz tempo que não acho outro para comprar…reli-o novamente na Pousada do Toque….vc/sua editora ainda tem algum disponivel para comprar? Ou, melhor ainda, não rola mais uma edição?

    1. Helo, Reforço o apelo! Onde é que eu estava nessa época?

      1. Acho que hoje em dia só se encontra o VnV em sebos… Dei uma olhadinha agora na Estante Virtual ( http://www.estantevirtual.com.br ) e tem de todos os preços – de R$10,00 a R$56,00…

        1. Um classico, Carla!!!

        2. Obrigada, Carla, pela dica!

  4. que texto!! Viajar é sem dúvida uma grande extravagância, mas a melhor delas!! E poder viajar o ano todo neste site, com estes companheiros tão divertidos, é o máximo! :)

    1. Verdadeiríssimo! É aqui que a gente toma as injeções de ânimo para aguentar os outros 300 e tantos dias sem férias e sem viagem…

  5. ACho que nem voce pensou que esta iria ser a viagem da sua vida!

    Psd…riq preciso falar com voce! Me mande um mail!

  6. Está tudo aí!
    Sou viajandona até na LUA!Ufa!Precisava falar!

  7. Eu também já li esse texto, talvez na revista Viaje na Viagem !!! ??? Ele é genial mesmo! E acho que também foi lá que li uma entrevista sua que vc dizia ( me corrija se eu estiver errada) que a grande sacada pra guardar dinheiro e viajar, era resistir e não comprar aquela camisa bacana que tava na vitrina da loja :)

  8. Excelente!!!

    Riq você é D+ !!

  9. Nossa Riq vc é mtooo bom….depois que te conheci, minhas viagens só melhoraram…..sem palavras !!!

  10. Riq, você é fan-tás-ti-co!!!

  11. Ainda guardo o meu precioso livro ganho em janeiro de 1999 como presente de formatura, por um colega bem querido. Foi esse livro meu companheiro durante 1 ano que morei fora. Foi com ele que ri, chorei, sonhei e realizei grandes aventuras. Esse é um daqueles livros, que não importa o tempo, jamais nos desfazemos! Pode parecer piegas tudo que escrevi, mas é a mais pura verdade! Viajar é um amor antigo, platônico as vezes, infantil ao pensar que poderá tudo, maduro quando necessário, mas é um amor de uma vida inteira!

  12. Legal é que até hoje a gente ainda usa o vocabulário do Riq pra descrever viagens-buffet, viagens à la carte…
    Eu acho até que decorei váaarias passagens do meu VnV derivado de árvores, de tanto que já reli. Aviso aos navegantes: o negócio é viciante, então não comece a ler com algum compromisso na frente, que você, no mínimo, vai chegar atrasado.

  13. Ameeeei!

  14. Adorei o texto e as comparações. Eu sempre digo que se tem coisa que eu gasto dinheiro sem reclamar é com viagens.
    E sim, filhos adiados por conta de viagem, assino embaixo. Era pra vir mais um, mas fizemos as contas dos paises da listinha e vamos parar em dois mesmo! :)

    1. e eu, que adiei o 1º filho – e continuo!!!! A primeira viagem da lista está em curso (Peru), mas a segunda ainda aguarda (Itália e Grécia)!

  15. Eu tb AMO esse texto, mas se o Riq fosse cantor o texto que eu sempre pediria pra ele “cantar” é aquele sobre o Rio de Janeiro…

  16. Sensacional esse texto!!!

  17. Esse texto é tudo de bom!!!!
    Repassei pros amigos pra ver se alguém se anima pra próxima viagem!

  18. Adoro a fluidez e graça de seus textos.
    Sempre que me perguntam por que eu não compro uma casa de praia ou montanha respondo,imediatamente, já tenho: é o Aeroporto Tom Jobim. É bom demais e vicia.
    Trocando de assunto, cadê a Majô?

  19. Post perfeito!

  20. Vida sem abusos e desperdícios não vale a pena.

  21. O texto é ótimo e não diz nada além da verdade: fazemos um monte de coisas que não faríamos se ficassemos em casa… por isso mesmo é que a gente acaba viajando de novo!

  22. Além deste ótimo texto, outro material vintage do qual me recordo sempre são as “tiradas” autorais no Freire’s Praias.

    Foi lendo o tal livreto que tomei consciência da campanha anti-cadeira de plástico, e de coisas como (posso estar ligeiramente enganado no ipsis literis:

    - “pousada com síndrome do quarto de empregada”
    - dos balneários “semi-urbanizados ou semi-abandonados, dependendo da sua perspesctiva”
    - do “depois de descobrir que nem toda praia deveria virar um Guarujá, começam a aprender que nem toda praia precisa se tornar como Porto Seguro”-
    - as praias que são sua praia “se você frequenta a Rua Amauri” mas que não são sua praia “se você não quer encontrar as pessoas que frequentam a Rua Amauri”

    A lista é grande hehe.

  23. “…,videocassetes se conformam com menos cabeças que o do vizinho,…”

    Gente, em que ano o DVD foi inventado? :-)

    Excelente livro, nem tem muito que falar.

    1. Ri litros nessa parte!! Sensacional o post! Daqueles para colocar na parede e ler toda hora!!

  24. P e r f e i t o !

  25. obrigado pelos momentos de alegria e de frouxos incontroláveis de riso enquanto corri meus olhos por estas lindas palavras. bjos.

  26. Eu nunca tinha lido esse texto (não tenho esse primeiro livro…) e fico extremamente feliz q vc o tenha resgatado aqui. É MUITO bacana. Perfeito mesmo. Estou adorando esse momento VnVintage. :)

    Beijão.

  27. Todo o VnV em celulose é ótimo. O nosso está bem surradinho, de tanto ser lido e relido, e cada vez parece ser a primeira.

  28. Uau!! eu me sinto realmente “bem-vinda a bordo”! e digo com muito carinho que, apesar do desejo incontrolável de sair por aí viajando estar nas minhas veias desde sempre, foi aqui que tudo começou a tomar mais corpo!! obrigada Riq e todos os queridos trips :mrgreen:

  29. hahahaha…. ótimo!!!! momento VnVintage delicioso, verdadeiro e engraçado…

  30. Riq, foi ótimo você fazer a gente voltar no tempo com o VnV. Foi com ele que eu aprendi a arrumar calça comprida na mala. E me identifiquei com tantos trechos… especialmente aquele sobre a mala que a gente compra no desespero da arrumaçao da véspera da volta :-)

  31. Esse livro simplesmente mudou minha perspectiva sobre viagens, digo a todo mundo que ao lê-lo aprendi a viajar. Comprei logo que foi lançado, enquanto ainda estava em catálogo dei alguns de presente. Considero o oráculo que tem todas as respostas… Ah! também adoro o postais por escrito…

  32. Adorei o texto! Muito bom mesmo, Riq você escreve muito bem!!! Acabei de ler para o meu marido e ele vendo o meu entusiasmo ficou convencido que devemos viajar em setembro, aproveitando um recesso do trabalho! Valeu mesmo!

  33. Nossa, que texto lindo! Emocionante!
    Todos os viajados, viajantes, e aspirantes a ambos se indentificam imediatamente!

    Não pude deixar de divulgar o texto aos amigos, divulgando o site também, claro!

    Realmente, se fosse cantor, tinha que cantar em todo show mesmo! :P
    (Adorei a analogia)

  34. Espetacular esse seu texto. Foi através do VnV que me tornei discípula da arte de viajar. Voce inspira a todos nós e nos remete sempre ao próximo destino ou pelo menos na intenção dele.
    Parabéns!

  35. Genial!! Agora fiquei louca pra ler o livro todo, mandar pros amigos…Realmente voce e insubstituivel!!

  36. Riq, que texto fantastico!!! Adorei…

  37. E eu, que só descobri o VnV este ano, estou encantada.
    Obrigada por compartilhar os textos antigos!

  38. Bonito mesmo, toca na alma, traz lembranças.

  39. Muito bom! A Minha cara!

  40. Riq, que momento Tommy!!! Acabei de receber a revista da “Le Lis Blanc” e fiquei super orgulhosa por vc estar lá como entrevistado. Não há quem não leia e não fique, como nesse texto do Viaje na Viagem, morrendo de vontade de viajar.
    Sucesso total!!!! clap clap clap

  41. Nossa Riq, esse texto representa exatamente a forma que penso e sinto qto a viajar!!!
    Até hj, brinco com o maridão dizendo: se tiver que escolher entre um carro e uma viagem, vou sempre escolher a viagem, pode ter certeza!!! E assim tem sido, desde que nos casamos!!! E só tenho alegrias acumuladas e muito o que agradecer!!!

  42. Esse texto e mto bom! O comeco de uma viagem incrivel q foi o Vnv e q influenciou tanta gente (eu me incluo nessa! Rsrs)

  43. Ótimo texto, ótimo blog. Já está nos meus favoritos!

  44. Saludos desde México. Estou em a ilha de Holbox. No sei se saldré viva daqui….os “mosquitos” e “tábanos” me están devorando… Esto é o paraíso das aves, dos peixos, da rusticidade e ….dos insectos!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Beijos

  45. Amei o texto! Na boa, Riq, achava que eu era a única a multiplicar o valor da diária do hotel por 30 para ter certeza de que não pagaria o aluguel mensal do que o que gasto em diárias de hotel! srrsrs Tô vendo que não sou a única!
    Ab,
    Ciça.

  46. Perdi esta na época certa, mas acabei de comprar o meu na estante virtual.
    Obrigada Carla pela dica.

  47. QUERO COMPRAR ESSE LIVRO!!!!! ONDE???? AJUDEM!!! NAO TEM NEM NO MERCADOLIVRE…. ABRAÇOS!!!

  48. ADOREI A DICA DO SITE ESTANTEVIRTUAL ACHEI O LIVRO… AI DELICIAA!!!!! E QUE TEXTO MARAVILHOSO!!!!

  49. [...] “toda viagem é uma extravagância”, o que dizer de uma viagem com o único propósito de assistir a um show de algum artista ou [...]

  50. Que lindo texto, Riq! Como também sou fã nova, vou ali na Estante Virtual comprar o meu!

    Beijo grande e muito sucesso!

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