Garrancho (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Quatro pênaltis perdidos? Faxina nos Transportes? Doença de Chávez? Nada disso. Para mim a notícia mais interessante da semana foi a que saiu no Estadão de segunda-feira: nos Estados Unidos o ensino da escrita cursiva está prestes a ser banido das escolas.
Já há algum tempo é dispensável ter letra bonita, de agora em diante vai ser ocioso simplesmente ter letra. Compreende-se: letra de mão é uma coisa que a gente usa sobre papel em branco. E papel em branco hoje em dia é algo que só se vê em gaveta de impressora.
Pena. Mais uma habilidade humana que vai ser extinta, feito pregar botão e fazer pipoca na panela. Escrever a mão vai ser uma atividade tão exótica quanto é hoje desenhar letras góticas. Não demora e até os médicos vão parar de garranchar suas receitas – basta inventarem uma família de tipos chamada Zgryftsblufx, que só possa ser descriptografada pelo scanner do farmacêutico.
As novas gerações não sentirão o prazer de usar o seu primeiro caderno universitário. Que, como o próprio nome não indica, aparecia na sua vida na estréia do ginásio (titio traduz: ensino médio), mais ou menos junto com o seu primeiro pelo pubiano. (Sim, dava um comercial da Valisère para garotos.)
Atire a primeira espiral quem não passou por aquela fase constrangedora de botar bolinha no lugar do pingo do “i”. Ops – tem gente que ainda não superou essa fase, perdão.
O que mais intriga nesse fim da letra cursiva é o fato de isso levar inevitavelmente ao fim da assinatura. Quem não escreve não assina. Estou errado?
O que virá por aí? Assinaturas eletrônicas, leitores de digitais e de íris não são a mesma coisa. Tudo isso pode até identificar você, mas não expressa quem você é.
Talvez a assinatura do futuro seja esse avatar fuleirinho que criamos para botar a nossa cara na internet. Um avatar é mais do que uma assinatura: é um logotipo pessoal. O meu é uma bóia amarela (desculpe).
De repente um dia a escrita a mão volte a ser valorizada. Pelo sim, pelo não, continuar escrevendo uma ou outra coisa a mão para não perder a letra. E não vou jogar fora minha pipoqueira.
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Eu sempre faço pipoca na panela. É muito, muito mais gostoso. Mas realmente escrevou muito pouco a mão. E da-lhe colecionar Moleskines de viagem para não perder a mão de escrever.
Informo a quem interessar possa: faço pipoca na panela, escrevo cartas, cartões de aniversário e cartões postais. Sim, sou antiquada.
E sim, quase tive um troço quando fui a um médico aqui e o cara me deu uma receita impressa: quer dizer, nem aquela brincadeira de tentar desvendar os garranchos…
Acho que o fato de sermos saudosistas significa que estamos ficando melhores. (sim, eu acredito firmemente que, a exemplo do vinho, eu não fico mais velha, fico melhor).
Eu tenho que confirmar essa informação: a Marcie manda sim cartões de aniversário e Natal e (pasmem!) escritos a mão. São lindos e estão super bem guardados, junto com minhas lembranças mais importantes.
Muito bacana, Marcie. Se eu pudesse escreveria aqui no blog com uma caneta. Também adoro pipoca feita na panela, toda vez que passo por um pipoqueiro em alguma praça ou porta de escola, faço questão de comprar a minha, tão simples e tão gostoso!
Nada se compara a uma carta escrita a mão! Que bom que esse hábito ainda não foi extinto!
E eu, que ainda uso caneta tinteiro!
A gente vai perdendo a habilidade e nem percebe.
Vai escrever uma página inteira a mão, ela dói… A minha, pelo menos!
Também adoro colecionar Moleskines de viagem, mas eles estão voltando cada vez menos preenchidos!
Crônica de uma morte anunciada!
Agradeço minha mãe (quase) todos os dias por ter me feito fazer toda semana, quando era pequena, CADERNO DE CALIGRAFIA! Lembram né?! Todo pautado com espaçamento maior para letras maiúsculas e menor para letras minúsculas. Ainda existe isso?! Pois bem, sou elogiada até hoje pela minha letra e me orgulho muito dela, redonda, legível, ainda que pra minha mãe não seja redonda o suficiente (mas isso fica pra terapia)… rss
Enfim, em relação aos médicos, não acho ruim de maneira alguma que imprimam as receitas. Conheço uma mãe que quase perdeu o filho por dar o remédio na dosagem errada por causa da letra do médico que era um garrancho!
Mas ainda tenho esperança! A prima da minha melhor amiga tem 17 anos e mora em Salvador e mandou para a tia aqui em Brasília uma carta, à mão, dizendo o quanto gostava dela. Podia ter pegado o telefone ou mandado uma SMS e ainda sim preferiu escrever!
Ricardo falasse da íris, tem um primo meu que o notebook dele só liga pelo scaneador de retina, aí um dia desses ele bebeu um pouco a mais do que o tolerável, que nem o computador conseguiu identificá-lo… Não ligava de jeito nenhum por causa da vesgueira alcoólica… hehehe
Tentando resumir em poucas palavras ,minha reflexão após ler a noticia no jornal foi sb como se compotariam os homens da idade da pedra ao serem informados que seus descentes não aprenderiam a caçar e não precisariam construir armas ,que arco e flecha seria artigo de museu
Tem uma cronica do Galeano , que é uma
ótima reflexão sb as difíceis mudanças no comportamento.
http://migre.me/5k3kx
Tem a ver com esse texto aqui, ó http://olivreiro.com.br/blog/2009-09-25-umberto-eco-preve-fim-da-escrita-a-mao
Outro dia em Paris (chique, né), pude ver os mais lindos papéis de carta !!! Muito legal esta critica a este estilo de vida que a mim não convence.Em casa não tenho microondas há alguns anos, nada como uma comida viva!!!!Adoro estourar pipoca no fogão!! Escrever … sou daquelas médicas que faz questão de que o paciente entenda a receita, não é preciso fazer muito esforço para isto
É tão dificil se relacionar com o outro ? E para quê??? Cada um no seu casulo, vai ser assim ….
Rindo muito!
Da crônica e dos comentários!!
Arrumando gavetas esta semana, encontrei uma caixa linda de papéis de carta, que não uso há séculos!(Mas cartões ainda escrevo também
) E meu oftalmo digita receitas há séculos!
Sobre a pipoca, morro de saudades de ver minha mãe estourando pipoca na panela e cantando: “estoura pipoca, maria sororoca!” E fazendo saquinhos com papel-manteiga pra gente
Sinto saudades e ponto, porque na hora de estourar, coloco o saquinho no microondas
Corrigindo: antes do advento do computador, meu oftalmo datilografava recitas! Esqueci de reparar se ele já se livrou da Olivetti
:~(
que triste…
outro dia fui escrever um cartão à mão e percebi como estava destreinada. me deu uma saudade do meu caderno de caligrafia!
As vezes me pego fazendo bolinha em cima do “i” até mesmo quando escrevo em letra de forma.
Meu costrangimento agora foi enorme, mas foi um constrangimento legal!
Aqui em casa pipoca é só no fogão. E sempre é aquela festa quando alguém tem a feliz idéia e vai pra cozinha. De escrever à mão não abro mão. Apesar de também utilizar meios eletrônicos não dispenso minha agendinha de papel que uso diariamente.Se vai cair em total desuso, não sei,enquanto isso continuo com os bilhetinhos pra mãe, marido, filho, empregada, listinha de supermercado,…
Um dia eu já achei que fazer um f era a coisa mais difícil do mundo. Era o maior desafio da minha vida. Fazer um f. Aquele f bonito, quase na forma de um laçarote na vertical.
Achava que nunca ia aprender.
Aprendi.
Mudei de escola, e um dia o Frei João foi lá na sala, viu os livros de caligrafia um a um. Eu tinha uma das letras mais bonitas da turma. E todo mundo tinha medo do Frei João.
Pois o Frei João elogiou a minha caligrafia. Com uma ressalva – a perninha inferior do meu f não chegava até a linha de baixo.
Sempre soube que era difícil.
Hoje o meu f é assim, quase que nem o que a gente digita. Minha letra ainda é bonita, quando quero caprichar. Mas onde fica o charme?
Fica perdido, lá na escola, nos cadernos de caligrafia inspecionados pelo Frei João.
que linda crônica da escrita!
Há semanas, deixei um recado para minha faxineira (a gente raramente se vê, por isso é só por escrito) com minha letra cursiva e ela me ligou perguntando o que eu tinha escrito – “Dona Cristina, por favor escreve com letra GRANDE que eu não estudei tanto como a senhora e não entendi”. Eu fazia da minha agenda, meu diário, e hoje ela ainda atende ao propósito de caderno de anotações. Para que carregar 2 coisas se posso usar 1 só? Minha letra é muito ruim, mas é muito mais rápido para anotar. Eu tenho blackberry no máximo e para anotar, ter o prazer de ticar a tarefa cumprida não tem preço! Estou chocada com a notícia do post. Obrigada, Riq.
Há semanas, deixei um recado para minha faxineira (a gente raramente se vê, por isso é só por escrito) com minha letra cursiva e ela me ligou perguntando o que eu tinha escrito – “Dona Cristina, por favor escreve com letra GRANDE que eu não estudei tanto como a senhora e não entendi”. Eu fazia da minha agenda, meu diário, e hoje ela ainda atende ao propósito de caderno de anotações. Para que carregar 2 coisas se posso usar 1 só? Minha letra é muito ruim, mas é muito mais rápido para anotar. Eu tenho blackberry no máximo e para anotar, ter o prazer de ticar a tarefa cumprida não tem preço! Estou chocada com a notícia do post. Obrigada, Riq. X
Arrepiei, Merél…saudades da menina que eu era, aquela que escrevia com letra cursiva…
Espero que a família não descubra que eu li antes! Que belo exemplar de Xongas!!
Pior que não escrever (ou igual) é não precisar usar a memória pra mais nada!! Tá tudo no Google e derivados.
Boa Ricardo! Curiosidade: como fica os estudiosos da nossa personalidade através da grafologia? Isso dá mais que uma crônica, hehe.
provavelmente no mesmo lugar obtuso onde sempre estiveram…
http://www.skepdic.com/graphol.html
Também fiquei horrorizada com essa notícia. Sou das que acredita que um tipo de aprendizado ensina uma maneira de pensar. Aprender química pode ser inútil se você quer ser advogado, mas te ensina um tipo de raciocínio diferente do que aprender história ou matemática. Por isso acredito que deixar de aprender a escrever em letra cursiva vem junto com deixar de adquirir uma certa destreza com as mãos, uma habilidade que pode influenciar muitas outras… Uma pena! Sem falar que eu acho que é meio natural. Minha filha vai fazer 3 anos e ela garrancha uma letra cursiva fictícia que eu nunca ensinei e diz que está escrevendo o seu nome. E olha que ela me vê muito mais no computador do que escrevendo à mão.
Outra notícia que li dia desses que me deixou chocada foi a de que algumas escolas em SP iam incluir o iPad na lista de material. Socorro!
Beijos a todos.
Nunca tive letra “bonita”! Mas to achando que já sou exòtica com o que tenho, mesmo sendo tortinha. rsrrss Agora meu objeto do desejo é um caderno de caligrafia! Imagina!!!?? Se eu voltar no tempo e contar pra mim mesma na 2 série, eu ia rir de mim do Futuro!” Caderno de caligrafia? Tá doida!!!”
PS: Se alguém souber onde encontrar os tais objetos de tortura da infancia, atuais objeto de desejo, avisar aqui! =)
Eu li um artigo na internet, salvo engano na The Economist (que é óbvio que não mais consigo encontrar, o grande mal da net), falando justamente o contrário: que apesar de haver muita gente falando do final da necessidade de ensinar letra cursiva, isso era uma impossibilidade. Isto porque as pessoas obrigatoriamente fazem as suas próprias anotações e observações, personalizam os livros que lêem, querem adicionar suas notas. E a letra cursiva nada mais é que uma forma estandartizada de escrever rápido. A conclusão é que os alunos iam continuar a escrever e, se não lhes fosse ensinado o padrão de fazê-lo com rapidez, iriam fazer adaptações do alfabeto de “letra de forma”, juntando as letras de qualquer jeito, e o resultado final seria uma coisa ininteligível possivelmente até para quem escreveu. Obviamente que a escrita pessoal é imprescindível ao menos por enquanto – ou como se vão fazer provas e concursos?
Eu só sei que tenho um orgulho danado da minha letra bonitinha, e faço questão de ensinar pro meu filho a desenhar suas letrinhas…
“médicos vão parar de garranchar suas receitas – basta inventarem uma família de tipos chamada Zgryftsblufx, que só possa ser descriptografada pelo scanner do farmacêutico.”….mtooo bom isso!!! rsrs
E por mais que a minha letra seja um horror, é mmuito bom escrever, riscar, rabiscar. E por mais que eu ame e-mail,sms, etc, etc todos esses programas, fontes, nada supera uma algo escrito a mao!
Muitoooo boa a crônica!
Infelizmente tenho escrito tão pouco à mão que quando faço sinto cãimbras…É mole?
Interessante… Como um “early adopter” de tecnologias modernas, acho o máximo o caso da letra escrita à mão. Por ora, me satisfaço com o abandono das letras cursivas!
Nao abandono minha caneta por nada nesse mundo!
Riq, nem todo medico faz so’ garranchos, hehe…
Aqui na Alemanha já aconteceram também discussões para eliminar o ensino da letra cursiva.
Mas, enquanto isso nao acontece, os alunos ainda aprendem a desenhar suas letras, e de um tipo diferente das existentes no Brasil.
Meu filho, quando tinha 8 anos, aprendeu a usar inclusive caneta-tinteiro, para desenhar as bonitas letras alemãs!
Pra mim o ginásio começava na antiga 5a. série (hoje, 6º ano), que foi quando ganhei meu primeiro caderno universitário (também chamado caderno “de matérias”). Que emoção, lembro até da capa dele, era a foto de um picolé. Já o ensino médio eu conhecia como “colegial”.
Se tinha algo em que eu era um desastre, era caligrafia… corrigir prova minha era algo quase assustador, pq minha letra sempre foi tenebrosa.
Mas depois de tanto tempo digitando, quando vou escreve algo a mão constato: consegui escrever ainda pior!!!
Ao menos, até hoje ainda escrevo meus relatos de viagens em caderninhos, colocando o que fiz, fatos engraçados, valores… mas mesmo isto creio que vai acabar assim que arrumar um tablet hehe
E depois de pesquisas constatarem que o google emburrece, agora temos que nem em escola se escreve mais. Tá feio o negócio pro futuro, viu !
Postei no lugar errado, pq achei linda a Cronica da Merel, as discussões intelectuais dessa trip cultíssima e me emocionei. Achei que não tinha aparecido, e repeti o comentário. Me desculpem.