Ushuaia: a porta de entrada para o fim do mundo, no relato da Miriam

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por Viaje na Viagem

Ushuaia

Ushuaia

Ushuaia foi o ponto de partida da linda viagem pela Patagônia que a Miriam K acaba de fazer, combinando Argentina e Chile a bordo do cruzeiro Australis. A primeira etapa do roteiro foi muito bem aproveitada; em Ushuaia, a Miriam conheceu um pouco da história da Terra do Fogo, experimentou a culinária típica e dormiu em um hotel com vistas espetaculares para o Canal de Beagle. Siga as dicas:

Texto e fotos | Miriam K

Ushuaia é a capital da província da Terra do Fogo, Antártida e das Ilhas do Atlântico Sul na Argentina. É considerada a cidade mais ao sul do mundo, com pouco mais de 56 mil habitantes, de acordo com o censo de 2010.

Atrações

Museu Marítimo de Ushuaia

Museu Marítimo de Ushuaia

Na virada do século 20, duas prisões militares foram estabelecidas no local e ao longo dos anos uma comunidade se formou ao seu redor, garantindo a soberania da Argentina na Terra do Fogo. Em 1947, já unificadas, elas foram fechadas, sendo transformadas na Base Naval de Ushuaia, que depois serviria como presídio militar até 1971 e, mais tarde, convertida em um conjunto de museus.

A visita ao complexo do Museu Marítimo de Ushuaia (Yaganes y Gobernador Paz, tel. 2901/437-481) é um programa de 1 ou 2 horas para conhecer um pouco do dia-a-dia dos presos e das suas histórias, mas também mostra um pouco da história da ocupação de Ushuaia pelos povos que chegaram lá a partir do século 17.

Presídio

Presídio

Há uma parte que foi conservada como era quando prisão e aí podemos perceber as condições extremas em que os presos viviam. Pode-se alugar um audioguia com explicações em português sobre as principais atrações e curiosidades.

A construção do museu foi iniciada em 1902 pelos próprios presidiários, que podiam ser de presos políticos até condenados à prisão perpétua. Em 1920 o prédio tinha 5 pavilhões de 76 celas cada, que deveriam ser individuais, mas a prisão chegou a ter mais de 600 presos. Os que tinham bom comportamento podiam trabalhar num dos 30 setores existentes. Alguns podiam sair durante do dia e trabalhavam na construção de ruas, pontes, edifícios, na retirada de lenha da floresta e na construção da ferrovia que os levaria até lá. Em 1910 foi inaugurado o Trem do Fim do Mundo, que chegou a ter uma extensão de 25 km desde a Avenida Maipú no atual centro, com a finalidade de trazer a lenha cortada, pedras e areia. Esta linha funcionou até 1952, quando foi encerrada por falta da mão de obra dos prisioneiros (o presídio foi desativado alguns anos antes) e por causa de um terremoto ocorrido em 1949.

Trem do Fim do Mundo

Trem do Fim do Mundo

O Trem do Fim do Mundo (Ruta 3 km. 3065, tel. 2901/431-600) acabou sendo reativado em 1994 pela iniciativa privada, e é uma atração muito procurada. É uma Maria Fumaça movida a diesel que conta somente com os 7 últimos quilômetros do traçado original, com finalidade essencialmente turística.

Trem do Fim do Mundo

Trem do Fim do Mundo

Durante o percurso ouve-se a história da região e há várias paradas, entre elas uma na cachoeira La Macarena, onde há uma réplica de um assentamento yámana, que é o povo ancestral que habitou a região, mas que estava fechado quando fomos. O ponto final é no Parque Nacional da Terra do Fogo. Nós optamos por fazer o mesmo percurso de carro com um guia para podermos ver todo o parque em menos tempo.

Parque Nacional da Terra do Fogo

Parque Nacional da Terra do Fogo

Parque Nacional da Terra do Fogo

O Parque Nacional da Terra do Fogo fica a cerca de 11 quilômetros do centro de Ushuaia e foi criado em 1960. A região era habitada pelo povo yámana, que foi dizimado pelos colonizadores. O parque fica na fronteira com o Chile e a vegetação é composta basicamente por lengas, ñirres e coihues, que são todas da mesma família e que conseguem sobreviver neste clima inóspito. A fauna é basicamente de raposas, guanacos (que são parentes dos camelos) e aves, mas o principal problema atual é a presença de castores. Foram 25 casais de castores canadenses introduzidos em 1946 visando a produção de peles e que, sem predadores naturais e adaptados ao ambiente, são uma população de mais de 200.000 animais hoje. Ao fazerem seus diques, provocam danos ao ambiente e a devastação de grandes áreas de matas nativas.

Área dos castores

Área devastada por castores

Por todo lugar vemos centenas de arvores secas e um lago no centro indicando que há castores no local. Eles conseguem até nadar na água salgada e aos poucos estão invadindo todas as ilhas da região. Uma outra característica constante são as turfeiras que são acúmulos de restos de plantas que, pela presença de águas ácidas, não são decompostos por microrganismos e vão se acumulando nas partes mais baixas, formando grandes clareiras sem vegetação.

Correios

Puerto Guaraní

Dentro do Parque Nacional há uma agência dos Correios Argentinos no Puerto Guaraní para envio de cartas e de postais. Infelizmente havia tanta gente lá dentro, todos tentando ser atendidos, que perdi minha chance de mandar um postal a partir da agência do Fim do Mundo e carimbar meu passaporte.

Galeria Temática da História Fueguina

Galeria Temática da História Fueguina

Um lugar interessante para se visitar é a Galeria Temática da História Fueguina (San Martín 152, tel. 422-245). Fomos logo depois do almoço e entramos praticamente por acaso, pois era o único local aberto no horário da siesta. (Em Ushuaia a maioria das lojas fecha para o almoço e só reabre após as 16h.) A galeria conta a história dos povos que habitaram a região até a chegada dos europeus, principalmente dos yámanas, também chamados de yaghan. Eles estiveram na região por 10.000 anos e foram praticamente dizimados em 10 anos. Há um audioguia já incluso no preço da entrada que dá todas as explicações das cenas, e é só seguir o caminho sugerido. Há cenas recriando a vida dos yámanas e sua forma de viver e seus objetos. Os personagens têm tamanho natural e estão dentro de seu contexto. Uma outra parte da galeria conta a história do HSM Beagle, que foi o navio inglês em que o comandante Robert FitzRoy trouxe um jovem cientista chamado Charles Darwin que faria observações e estudos na região a partir de 1832. Há também recriações de cenas do Presídio de Ushuaia e da história de Ernest Shackleton que foi um dos exploradores dos mares da Antártida.

Plaza Malvinas

Plaza Malvinas

Plaza Islas Malvinas

Um lugar para se dar uma passada rápida é a Plaza Malvinas, com o monumento vazado no formato das ilhas. Fica num dos extremos da cidade, já fora do centrinho.

Paseo de Los Artesanos

Paseo de los Artesanos

O Paseo de los Artesanos (Plaza 25 de Mayo) foi uma decepção, somente metade das lojas estava ocupada, o resto sem nada. A única vantagem é que tem aquecimento, então ficamos um pouco lá até chegar a hora de ir para o Porto pegar o Cruzeiro Stella Australis para Punta Arenas.

Hospedagem

Hotel Los Cauquenes

Hotel Los Cauquenes

Ficamos no hotel Los Cauquenes, a 4 km do centro da cidade. É um hotel muito confortável, com decoração acolhedora e grandes vidraças que permitem a visão do Canal de Beagle degustando um chocolate quente ou um chá num ambiente confortável.

Quarto no hotel Los Cauquenes

Vista do hotel Los Cauquenes

Quarto e vista do Canal de Beagle

Todos os quartos estão voltados para o canal, que pode ser acessado por escadas até que se chegue a uma praia pedregosa. A água é fria como aquela que a gente deixa a cerveja gelando dentro do isopor, e dizem que nunca passa de 3°C. O hotel conta ainda com um restaurante, spa com massagens e terapias pagas à parte, piscina aquecida e jacuzzis, uma coberta e outra ao ar livre, e as duas com vista para o Canal de Beagle. Se você já tiver contratado os trânsfers e os passeios, não vai precisar dos serviços de transporte do hotel, que ocorrem em horários predeterminados. Em uma ocasião, como o horário do trânsfer estava muito longe, acabamos pegando um táxi de volta ao hotel que custou 140 pesos, o equivalente a dois sorvetes de bola. O café da manhã é caprichado e tem opções para todos os gostos. O restaurante do hotel, o La Reina, tem bom atendimento, mas os frutos do mar foram melhores do que as carnes, embora estejamos na Argentina, ainda que seja na última cidade.

Restaurantes

Cantina Fueguina de Freddy

Cantina Fueguina de Freddy

Fomos almoçar um dia na Cantina Fueguina de Freddy (Av. San Martín 318, tel. 2901/421-887), recomendada pelas centollas (caranguejos) e peixes frescos.

Centolla

Centolla

Experimentamos uma centolla natural só com limão, que estava divina, sem nenhum esforço porque já vem fora da casca, tem carne de montão, então não tem nenhuma lambuzeira. A merluza negra, só grelhada, desmancha na boca e é super delicada. Experimentamos também um sorvete de calafate que é uma frutinha de região que parece um blueberry, mas tem gosto mais suave, menos marcante.

Casimiro Biguá

Casimiro Biguá e o cordeiro

No outro dia experimentamos um cordeiro patagônico no Casimiro Biguá (Av. Maipú 395, tel. 2901/431-214). O restaurante é bem aconchegante, tem wifi que é muito útil quando já se fez o checkout do hotel, e é lindo ver as carnes assando logo na entrada do restaurante. A carne é um pouco seca porque mesmo antes de colocar no assador já tem pouca gordura, e menos ainda depois de ficar 5 horas na brasa.

Assim, Ushuaia pode ser a porta de entrada da Patagônia e duas noites são suficientes para começar a explorar a região. No nosso caso, de Ushuaia pegamos um cruzeiro do Stella Australis até Punta Arenas, para de lá irmos para Torres del Paine e depois para El Calafate antes de voltarmos para o Brasil.

Muito obrigado, Miriam! Mal podemos esperar pela continuação dessa aventura!

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6 comentários

Ken
KenPermalinkResponder

Belo texto que deu vontade de conhecer e até água na boca com o cordeiro, a merluza e o sorvete de calafate. As fotos do hotel deram a perfeita sensação de estar hospedados tendo aquela visão do canal de Beague. Como descrito no final pelo site, "Mal podemos esperar pela continuação dessa aventura!". Parabéns

Geraldo Zacarias bana

Muito bom o relato, pretendo conhecer a região em breve

Valeu....

Adele
AdelePermalinkResponder

Fiz o passeio de trem no Parque Tierra Del Fuego e me arrependi. Caríssimo, absurdo, para dar uma volta em uma planície e não ver nada interessante. É uma grande pegadinha das empresas locais porque a outra opção que é dada, durante o percurso dos turistas que optam pelo trem, é somente ir ao ponto final e ficar aguardando os demais passageiros voltarem.
O passeio pelo Canal de Beagle até a pinguinera também é demasiado longo. Para quem fizer, opte pelo trajeto curto (somente com o farol e ilha dos lobos).

Filipe Morato Gomes

Ando há muito tempo para conhecer Ushuaia e toda a região da Patagónia. Enquanto isso não acontece, vou lendo relatos como este da Miriam. Valeu! Obrigado pela inspiração.

Gleice Kelli Barzan

Muito boa a matéria, iremos conhecer agora no começo de março, ansiosa por essa viagem.

KATIA
KATIAPermalinkResponder

Voltei agora da Patagônia argentina e, na minha opinião, não vale a pena ir até Ushuaia. A cidade não é bonita nem bem cuidada, venta muito e o sol raramente aparece (literalmente: el culo del mundo). Além do mais, os preços são exorbitantes, os passeios não compensam em termos de beleza. Fiz o canal de Beagle com pinguinera e me arrependi muito; apesar de os pinguins serem uma gracinha, são cinco longas horas de navegação e na volta ventava muito, muitas pessoas passaram mal, inclusive eu. Uma verdadeira tortura. Ainda bem que depois seguimos para El Calafate. A cidade é uma gracinha, toda arrumadinha, limpa e florida; muito alto astral. E os passeios, apesar de não serem baratos, compensam pelas belezas que oferecem.

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