Abaixo a aeronave!

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

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Acabei de postar na filial deste blog no portal Viaje Aqui a minha contribuição para o caos aéreo: por que comissários, pilotos, funcionários de terra e, ultimamente, até passageiros (!) insistem em chamar avião de... aeronave?

Como os posts lá do site não têm mais permalink, transcrevo aqui o original na íntegra:

Não, não quero derrubar nenhum vôo, nem aumentar o caos reinante no tráfego aéreo. Mas aproveito este momento de, digamos, questionamento da aviação brasileira para propor uma medida simples, indolor, que não custa nada e vai melhorar a vida de todos os passageiros, tripulantes e funcionários de terra.

Vamos parar de chamar avião de aeronave, por favor?

Não tenho certeza de onde veio essa mania, mas provavelmente se instalou em nossos alto-falantes por conta de uma tradução demasiadamente ao pé da letra de algum manual em inglês. Só porque os anglos preferem usar "aircraft" no lugar de "airplane" não significa que a gente precise imitar.

Porque "aircraft" é uma palavra corrente em inglês, enquanto "aeronave" não passa de um ruído na comunicação em português do Brasil.

E avião – avião é uma palavra deliciosa, como todas as que terminam em ão. Por que trocaríamos uma palavra tão perfeita, jeitosinha e familiar quanto "avião" por esse termo frio e francamente alienígena – "aeronave"?

Toda vez que eu ouço no saguão de embarque que "a aeronave já está em solo", a primeira coisa que me vem à mente é um OVNI taxiando em direção ao meu finger.

Nas escalas, entro em pânico sempre que a aeromoça informa que "haverá troca de aeronave". Ai meu Deus, é dessa vez que eu vou pro espaço!

Segundo o Aurélio da minha estante, "aeronave" é a "designação genérica dos aparelhos por meio dos quais se navega no ar". Eu pergunto: porque usar a designação genérica – portanto, pobre – quando podemos usar a específica?

Mas o Aurélio continua: diz que as aeronaves podem ser de dois tipos: aeródinas ou aeróstatas. Socorro! Onde é que as companhias aéreas brasileiras querem me meter?

E o pior de tudo é que a palavrinha pedante já começou a contagiar os passageiros. Já ouvi amigos próximos, pessoas de quem gosto e a quem admiro, dizer que precisaram "trocar de aeronave" ou que ficaram esperando horas na sala de embarque mesmo que a "aeronave" já estivesse "em solo".

Isso é lavagem cerebral!

Alô TAM, Gol e Varig: chega de aeronave. QUEREMOS O NOSSO AVIÃO DE VOLTA!

P.S.: Qualquer dia desses eu volto à baila dizendo o que eu desejo do fundo do meu coração para as pessoas que escrevem "monastério" no lugar de "mosteiro".

9 comentários

Carla
CarlaPermalinkResponder

Humm... Posso tentar uma explicação psicológica? Será que, no fundo, no fundo, todo piloto não tem uma frustraçãozinha por não ser astronauta?!?

Ricardo Freire

Ha ha ha wink

Arthur
ArthurPermalinkResponder

Ricardo, a mania é bem velha. O saudoso Paulo Francis já escrevia em 1976: "PEDANTISMO - O dia em que o pessoal de bordo num avião brasileiro chamar o avião de avião em vez de aeronave (...) jorrará petróleo em todas as calçadas do Brasil, serão descobertas minas de ouro em todo o território nacional e a dívida externa será perdoada por intervenção divina".

Renata
RenataPermalinkResponder

Vai ver eh porque para transportar os alienigenas...que eh como a Policia Federal chama tecnicamente os estrangeiros....soh mesmo de aeronave.

Marco Antonio
Marco AntonioPermalinkResponder

É que técnica e legalmente, aeronave é gênero do qual avião é espécie. Todo avião é aeronave, mas nem toda aeronave é avião.
Por exemplo, balão e helicópteros são aeronaves, mas, por óbvio, não são aviões.

Gilberto
GilbertoPermalinkResponder

Falando do que você comenta no outro blog: monastério é um horror! E concordo com o comentário da Cássia: Quem escreve ( e fala) planta em vez da fábrica, usina, ou o que for, devem ir p/ o mesmo lugar que quem fala e escreve "monastério". Vade retro!

Ricardo Freire

Caramba, Arthur! 1976, é? E que saudade do Paulo Francis... mas o que me levou a escrever um artigo cri-cri sobre o assunto é menos o fato de as companhias aéreas falarem "aeronave" -- mas o fato de amigos e amigas minhas já usarem a maledetta...

Gustavo Vasconcellos

Neologismo ou não o fato é que o uso se tornou constante, principalmente por parte da imprensa, o que deprecia a nossa língua. Acho que Santos Dumont não inventaria uma aeronave com o mesmo prazer com que inventou o avião e nem Tom teria orgulho de cantar o Samba da Aeronave. Mas como todo modismo um dia acaba, ou não, aguardemos o resultado. E por falar nisso, outro dia li uma entrevista com a jornalista Leda Nagle, em que ela afirmava que o famoso bordão “Com certeza” – me lembrei da sua crônica na hora – se espalhou por causa dela e alguns colegas de imprensa que resolveram copiar de Maria Bethânia e outros baianos. Seria o caso de aproveitar a confissão para punir os culpados?! Ou deixar como está e seguir a vida em frente.

Lena
LenaPermalinkResponder

Eu não sou gaúcha, mas tb tenho carinho e respeito pela Varig. Vai entender... Por outro lado, não tenho nenhuma simpatia por TAM ou GOL. Voei muito de TAM a trabalho e acabei perdendo 3 trechos convites que ganhei. Já pela VArig, nunca perdi nenhuma milha e nem tive dificuldade para utilizá-las (só utilizei em vôos nacionais, além da passagem emitida em aberto para Caracas que ainda não foi usada). Procuro sempre ligar por volta das 18 horas, qdo caem as reservas. Reservo o primeiro vôo disponível e a medida que a data vai se aproximando, vou tentando um vôo melhor. Sempre funciona. Nas vésperas a gente acaba conseguindo lugar no vôo desejado. Tenho péssimas lembranças da American Airlines, onde até falta de ar eu senti; prefiro a Continental. E não vejo a hora da questão da Star Alliance se resolver.

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