Flor do cerrado

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Numa caixa de comentários aí embaixo, a Silvia Mascarenhas tem o bom-gosto de informar que Rosa Passos está fazendo uma homenagem a Tom Jobim no Teatro Fecap até domingo.

E a Rosa Maria, que é de Brasília, lembra que Rosa Passos é baiana mas está radicada lá à beira do Paranoá.

Eu adoro escrever sobre Rosa Passos. Uma das últimas vezes foi em setembro de 2004, na Época. Rosa tinha acabado de lançar Amorosa, sua homenagem a João Gilberto. Eu ia viajar e não poderia ir ao show, então marcamos um almoço no Carlota.

(Blogue fino é outra coisa.)

Mandei ver:

Uma Rosa para João

'Não posso nada escuro', diz ela, antes mesmo de abrir o cardápio. Não, não é superstição de cantora baiana nem precaução exagerada de diva com as cordas vocais. Tratamento para clarear os dentes, ela explica. Continuo na dúvida: vaidade feminina ou ossos do ofício de estrela internacional? Mas o garçom chega com as bebidas bem na hora em que eu ia perguntar.

Rosa Passos acaba de lançar seu segundo CD americano - o primeiro por uma grande gravadora, a Sony Classical - e não cabe em si de felicidade. Se bem que 'não caber em si', no caso dela, é muito fácil: a mulher é diminuta, praticamente tão portátil quanto seu violão. A voz é doce como nos discos, mas ao vivo vem colorida pelo mais delicioso sotaque baiano, com direito a muitos 'ô, meu preto...' - sempre assim, com três pontinhos.

Rosa Passos acha que eu sou um grande crítico e que entendo muito de jazz. Eu já expliquei mil vezes que sou um grande fã e que só entendo do que toca o meu coração. Há muitos anos entro na fila do seu camarim para pegar autógrafo, mas só recentemente ela ligou o nome à coluna. Me telefonou de Brasília, onde mora com o marido e criou os filhos, para me convidar para um show em São Paulo. Eu ia viajar, que pena, então combinamos o almoço, que bom. Ela fazia questão de me entregar pessoalmente o novo CD gringo, Amorosa, um passeio pelo cancioneiro de João Gilberto.

Ah, sim. 'João Gilberto de saias' é o clichê que acompanha Rosa Passos por onde quer que seu nome saia publicado. Não concordo. Já cansei de ir a shows dela, e posso afirmar que jamais vi Rosa Passos de saias. Para mim, Rosa Passos é um João Gilberto com alma - a discípula que consegue acrescentar coração e suingue sem desandar a receita do mestre.

Rosa canta com volume de bossa nova, divisão de jazz e emoção de MPB. Fãs nunca lhe faltaram, mas desde que foi escolhida, entre 30 cantoras, para colocar os vocais no CD Obrigado, Brazil, do cellista Yo Yo Ma, Rosa Passos foi posta em outro mapa. A diva portátil não pára mais em Brasília - ou no Brasil. É turnê-solo na Espanha pra cá, circuito de festivais de jazz da Itália pra lá, tudo entremeado de apresentações nos Estados Unidos que conseguem tirar os críticos do New York Times e do Los Angeles Times de casa. Ela vai me contando essas coisas, e eu fico torcendo para que sua posta de bacalhau fresco esteja tão boa quanto meu picadinho de cordeiro com farofa de banana.

Quero saber quando Amorosa sai no Brasil, e ela diz não haver previsão. Uma informação que, um pouco mais tarde, vai aumentar significativamente meu prazer em ouvir a versão mais contrita já feita de 'Retrato em Branco e Preto', a divertida percussão de boca do contrabaixista Paulo Paulelli em 'Pra Que Discutir com Madame' e o luxuoso dueto bilíngüe de Rosa com Henri Salvador em 'Que Reste-t-il de nos Amours' (com versos em português por Ronaldo Bastos).

Depois desse, virão mais seis CDs já contratados pela Sony Classical. Espero que dê espaço para o público descobrir as outras Rosas - sobretudo a Rosa Passos compositora. Mas no momento me limito a sugerir um petit-gâteau de doce de leite. Ops: o recheio é escuro. Rosa Passos finge não perceber - uma cantora delicada como ela jamais estragaria o prazer de um fã.

4 comentários

Atenção: os comentários estão encerrados.

Emília
EmíliaPermalink

Ricardo, eu ainda não assisti a nenhum show dela, mas na semana passada ela estava dando uma entrevista à Gioconda Bordon, na Cultura FM, e até ouvir ela falar é uma delícia. Voz maravilhosa e simpatia!

Lafa
LafaPermalink

Riq, fui ontem! Ao vivo ela é mais do que demais que é em CD! Um encanto. Falei no meu blog que me senti um privilegiado tal qual devem ter se sentido todos aqueles que assistiram a Elis, o Tom, a Dalva cantar num espetáculo! Sai de lá flutuando!

Emília, delícia é uma manteiga que tem por aí. A Rosa Passos é pai d'égua!

Emília
EmíliaPermalink

(risos) Adorei...pai d'égua!
Não vou deixar passar a próxima oportunidade.
Curtindo um pouco as águas de janeiro aqui em SP, Lafa? smile

Cristina Cortez
Cristina CortezPermalink

Ricardo
Adorei o seu texto que o Abujanra leu essa noite no Provocações. É sobre os verbos que terminar "lizar". Como você, também sai fora da Propaganda e hoje trabalho no Fórum de Pinheiros como escrevente. Minha chefe vive me pedindo pra agilizar processos e adoraria mostrar esse texto pra ela. Você pode me mandar uma cópia?
Abs
Cris
A