A propósito: cadeiras de plástico na praia

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

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Já que a charada de hoje fez tanta gente se dar conta de como uma praia fica civilizada sem cadeira de plástico, aí vai uma antiga Xongas pubicada na Época.

Desplastifiquem as praias

Para você, como é a praia perfeita? Provavelmente, é aquela praia de pôster de agência de viagem: uma enseadinha de águas cristalinas, num tom intermediário entre o verde-água e o azul-turquesa, com areia branquíssima, habitada apenas por coqueiros e freqüentada só por peixinhos. Ah, sim: e com um coqueiro inclinado. Ter um coqueiro inclinado na direção do mar é condição sine qua non para uma praia virar pôster de agência de viagem.

Eu não faço questão de tanto. Já fico satisfeito quando a praia tem mar azul - não me venham com praias bege-marinho ou marrom-da-cor-do-mar. Tendo mar azul, minha praia perfeita pode ser selvagem ou urbana, pode ter ondas fortes ou ser do tipo piscininha, pode ter coqueiros, dunas, falésias e até edifícios. Só não pode ter uma coisa: cadeiras de plástico.

Está cada vez mais difícil achar a minha praia perfeita. As cadeiras de plástico multiplicam-se feito algas, de Jericoacoara ao Chuí. Elas chegam em bandos e logo estabelecem suas colônias. Você já deve ter reparado: as cadeiras de plástico se postam diretamente na areia, em pequenos grupos de quatro, relacionando-se simbioticamente com uma mesa, também de plástico. O período de reprodução das cadeiras de plástico é o inverno; quando a gente volta, no verão seguinte, elas já plastificaram mais uma faixa de areia. É incrível: em algumas praias, elas já são mais numerosas que os coqueiros.

Algumas praias proporcionam condições ambientais perfeitas para o desenvolvimento da espécie. Cadeiras de plástico costumam se reproduzir com maior facilidade em praias com música em altíssimo volume; quanto mais estridente for a aparelhagem de som, melhor para elas. Parece também haver alguma relação entre o crescimento da população de cadeiras de plástico e a proliferação de outras espécies praianas, como buggies, jet-skis e banana boats.

Ninguém parece atinar com o desastre ecológico causado pelas cadeiras de plástico na praia. O fato é que, aonde quer que cheguem, elas simplesmente expulsam as espécies nativas. Lembra daquelas cadeirinhas rústicas de madeira que davam charme às praias nordestinas? Entraram em extinção. Mais um ou dois anos, e não vai sobrar umazinha de recordação. Agora que as tartarugas marinhas estão salvas, bem que o Ibama poderia se dedicar a salvar a nossa cadeirinha de praia de madeira rústica.
Ai que saudade da cadeirinha de madeira. De vez em quando elas soltavam uma ripinha onde não deviam, mas tudo bem. O nosso bronzeador ajudava a envernizar a cadeira. Hoje, não. O bronzeador da última pessoa a sentar na cadeira de plástico ajuda a envernizar você. Eca.

Cadeiras de plástico são como cachorros: vão bem em casa, na calçada, até na piscina - mas, na areia, não. De plástico, na areia, já bastam todas essas garrafas PET abandonadas. Perto das cadeiras de plástico, até as cadeirinhas de alumínio com encosto de náilon ficam rústicas e naturais.

Já sei. Como sempre, você vai dizer que eu não entendo xongas do que estou falando. Que as cadeiras de plástico são ecológicas porque não usam madeira. Então qualquer dia desses eu volto ao assunto e faço uma crônica inteira em memória da esteira de praia. Antigamente, todo o mundo levava a sua. É impressão minha, ou naquele tempo havia mais praias com coqueiros inclinados?

6 comentários

Carmen
CarmenPermalinkResponder

Ricardo, en la España de los años 80 la gente iba a la playa con su propia silla de plástico.
Ahora, en verano, no caben ni las sillas de plástico en la arena.
Si se piensa bien es economía-ecológica-total: nada de sillas de plástico ni de madera. No cabe nada, sólo la toalla...

Marília
MaríliaPermalinkResponder

Concordo em gênero, número, grau e o que mais permitirem os professores de português!!!!

Além de enfeiar as praias, dominando toda a extensão de areia, alguém já tentou se bronzear numa cadeira de plástico? É simplesmente impossível!!! Como esticar a barriga para não ficar com a marca dos "pneuzinhos"? Como queimar as costas? E o bumbum? As mulheres, pelo menos, ficam naquela ginástica sem fim, é horrível!! A única vantagem é q as cadeiras de plástico ainda vão acabar com os clássicos postais brasileiros com biquini minúsculos em decúpito dorsal...

Marília
MaríliaPermalinkResponder

Riq, queria aproveitar essa sua publicação de uma antiga Xongas para lhe perguntar se você não publica mais suas crônicas da revista Época aqui no seu blog por o conteúdo agora ser exclusivo para assinantes? Se por acaso o motivo for esse, mesmo assim você não pode publicá-las, com exceção das antigas?

Rudson
RudsonPermalinkResponder

Ricardo, encontrei no Rio Grande do Norte os melhores parrachos do Brasil. fica após Maracajau na praia de Perobas, antes de Touros. É espetacular. Não sei porque não divulgam lugares como esse. Veja no link: http://www.pbase.com/alexuchoa/casal_litoral_norte

Ricardo Freire

Marília, eu não publico porque eu esqueço! Vou lembrar smile

Ricardo Freire

Lindas fotos, Rudson!

Já tinha ouvido falar das piscinas de Perobas; acho que tem um grupo português ou espanhol que vai fazer um loteamento de casas de veraneio ou resort ou tudo isso nessa praia, por causa das piscinas.

Nunca me animei a ir porque 1) acho as de Maracajaú bem fraquinhas; as três vezes em que fui peguei a água verde, mas sem transparência -- então pensei que as de Peroba fossem pelo mesmo caminho; 2) não gosto da beira da praia desse litoral inteiro, de Genipabu a Gostoso.

Mas fiquei passado com essas fotos de Perobas; a piscina é linda mesmo.

Quanto a divulgar -- pssst! Deixa quieto... vamos falar de Maragogi smile

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