Novelicídio: a revolta dos coadjuvantes

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

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Ano retrasado eu já escancarei o jogo e confessei em rede nacional, na Época, que gostava do Big Brother.

Continuo gostando. Se você não tiver saco para ler o artigo inteiro, aqui vai um resumo: acho o Big Brother o melhor programa de ficção da TV aberta. Você sabe como começa -- com um bando de paspalhos entrando numa casa e gritando uhu! -- mas nunca sabe qual será a história (nem mesmo se haverá uma história; no Big Brother 6 simplesmente não rolou nenhuma). Pela escalação dos atores você não sabe quem é protagonista, quem é mocinho ou vilão. Os personagens iniciam a novelinha completamente vazios e sem personalidade definida. As poucos, os atores e os editores vão inventando um plot, para quem tiver paciência de esperar as coisas se delinearem.

Nesses anos todos vi cenas e situações memoráveis. A crise de choro do Bam Bam, no BBB1, porque a produção sumiu com uma boneca feita de vassoura, foi uma cena tão patética que talvez nem a Glória Perez ousasse imaginar. O triângulo amoroso do Dhomini no BBB3 -- tirando lasquinha da Sabrina, futura Sato, no programa, sob o olhar complacente da namorada goiana que comparecia ao vivo em todos os paredões -- foi para Nelson Rodrigues nenhum botar defeito. Jean, do BBB5, foi o primeiro gay masculino assumido, desencanado e não-afrescalhado jamais mostrado numa novela da Globo. (Depois dele, já veio um casal em "Páginas da Vida", e devem vir mais dois em "Paraíso Tropical".)

Como você pode ver, os bons Big Brothers são sempre os ímpares. E esse BBB7 não está fugindo à regra.

Os personagens principais se tornaram o exato oposto do que eram ao ser escalados. O mineiro Alberto (Caubói) deve ter sido selecionado para interpretar o caipira boa-praça -- acabou se tornando o arquivilão ressentido e obcecado. O playboy Diego (Alemão) foi recrutado na porta da Pachá, em São Paulo, para interpretar o gostosão sem escrúpulos -- e no segundo programa já tinha virado o mocinho da novela, babando para a única das meninas confinadas que ele nunca teria encontrado na Pachá: a ultra-interiorana Íris.

O tal do triângulo amoroso, enquanto existiu (desmoronou esta semana), foi um dos romances mais originais dos últimos tempos na TV. Antes de mais nada, porque, em pleno 2007, e num programa que não prima exatamente pelo recato, foi um triângulo inocente. Não rolou nem beijo na boca. A caipirona Íris não deixou o playboyzão Alemão ultrapassar o sinal. E, em respeito a Íris, o playboyzão Alemão não ultrapassou o sinal com a liberada Fani. De predador, o macho-alfa Alemão se viu reduzido a protetor. No fim das contas, o triângulo emasculou o garanhão: Alemão foi o eunuco do próprio harém. Gente, desculpaê, mas não existe nenhum personagem tão complexo em cartaz em novela de nenhum outro horário.

E comprovando que o Big Brother oferece possibilidades de dramaturgia que você não encontra em nenhuma outra obra de ficção em TV aberta, na noite desse domingo os personagens praticaram o primeiro novelicídio da televisão brasileira.

Ao condenarem o par romântico do momento da TV brasileira ao paredão, os outros personagens decretaram, à revelia do público, e possivelmente contra a vontade dos produtores, que ou o galã ou a mocinha vão morrer, faltando ainda sete ou oito semanas para terminar a novela. 

A emboscada foi armada pelo vilão, o Caubói, ajudado por quatro personagens insignificantes, que vêem na morte de um dos protagonistas sua única chance de aparecer.

Numa novela normal, o coadjuvante só ganha mais espaço quando cai no gosto popular. Toda novela tem um caso assim: uma empregada que rouba a cena, um amigo do protagonista que se revela mais carismático do que a encomenda. No Big Brother, não. Se o coadjuvante não cresce por conta própria, ele pode se unir aos outros inexpressivos, ressentidos e sem-carisma e provocar a exoneração de um personagem principal. Já viram isso em alguma novela do Gilberto Braga?

Até hoje isso também nunca tinha acontecido num Big Brother. Mas desta vez, os sem-papel -- liderados por um vilão competente, o Caubói -- conseguiram.

E o público, pela primeira vez na história da dramaturgia no horário nobre, vai precisar escolher entre um mocinho e uma mocinha, faltando mais de um mês para terminar a novela.

Na terça-feira, os telespectadores não vão pensar apenas em de qual dos dois gostam mais. Vão ponderar também sobre o futuro que querem para a sua novelinha. Se cair fora o Alemão, o BBB7 se torna a história de uma personagem simpática perseguida pela casa inteira, a Siri (num replay do que foram os enredos do Bam Bam e do Jean). Eliminando a Siri, o BBB7 se torna o épico da vingança do Alemão.

Em qualquer uma das hipóteses, o vencedor já terá sido definido. (A não ser que os personagens consigam se reinventar novamente, a única que pode ameaçar o sobrevivente do megaparedão é a gracinha da Flávia.)

Mesmo assim, continuaremos assistindo. Porque ver o dia em que o Caubói sairá com 95% de rejeição não tem preço.

73 comentários

Eduardo Luz
Eduardo LuzPermalinkResponder

Riq, impressionante a quantidade de pessoas preocupadas com o que uma outra deve ou não fazer. E tem mais, pra mim o BB é muito bom, ainda mais este em que parece que o roteiro escapuliu da mão do diretor ( vide a ira do Bial). E voce mais uma vez está certo ao dizer que os personagens não estão encaixando no que seria o esperado ( os aparentemente bonzinhos viraram mauzinhos e vice-versa). Resultado : perto de muitos programas existentes por aí o BB é altamente assistível (pelo menos a parte editada).

Xará
XaráPermalinkResponder

Eu assisto e acompanho a trama, mas o motivo que mais me atrai no BB é BBizarro: a edição de imagens. A Globo dá show na escolha das melhores imagens, ângulos, trilhas, vinhetas... adoro produções de vídeo bem feitas. Riq, com suas raízes publicitárias, vc reparou nisto já?

MaWá
MaWáPermalinkResponder

Ótimo o texto! E cada um vê o que quer na TV... Pufavô, né? Censura ao blogueiro não tá com nada, hahahaa

Marília
MaríliaPermalinkResponder

Resumo dos fatos:
Freire = O Paizão, que põe ordem na casa!
Arnaldo = Filho mais novo, rebelde.
Ruy = Filho mais velho, profano.
O restante são sobrinhos e filhos de amigos, que se enquadram entre os dois. Sem esquecer de destacar o Bruno, Eduardo e Gustavo, os sensatos filhos do meio. Que linda família! Sempre há lugar pra mais um. hehehe
Este blog me diverte, por isso que eu adoro!

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

Se ser rebelde é detesatr falta de educação, indelicadeza gratuita, grosseria, crítica destrutiva e falta de categoria, eu sou! Rebelde, com causa.

Marília
MaríliaPermalinkResponder

Arnaldo
Rebelde no bom sentido, de ouvir as coisas, achar que está errado e não deixar passar batido. Você é meu queridinho nesse blog, depois do Riq, claro... Hora nenhuma eu iria lhe alfinetar. E que o Riq é o paizão, isso é. Beijo.

Erika
ErikaPermalinkResponder

Bom, voltando ao assunto do tópico, eu assistia o BBB mais no início (acho q até a terceira temporada eu cheguei a acompanhar), mas depois acabei me desinteressando... O atual não assisto muito, mal sei o nome dos participantes. Prefiro ver outras coisas na televisão, ou ler...
Como brasileira, podem achar estranho mas não vejo novela de jeito nenhum...acho perda de tempo...Mas, como diz um amigo meu, "são gostos", e temos que respeitar o de um não é mesmo?
Paz e abraços!

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

Marília, me desculpe se eu passei algo que a deixasse pensar que não gostei da crítica ou do que escreveu, isso de fato não me incomoda, porque quem sabe escrever e comentar com categoria, como vc o fez, ainda que eventualmente eu discorde ou me desagrade, respeito, sinceramente. Apenas quis reafirmar minha discordância com a falta de educação do carinha...

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

Ah, claro, Marília, estou me sentindo o máximo em ser queridinho seu (logo) depois do Riq.

Caroline®
Caroline®PermalinkResponder

A tripulação está se manifestando em peso! Basta tocar num assunto mais polêmico (assistir ou não assitir ao BBB, eis a questão...), que todo mundo aparece. Só não vale falar mal do comandante e bater boca, né? Isto aqui é um blog de respeito! Riq, serei sua fã sempre, mesmo que você assista ao Programa do Sérgio Malandro!

Daniela Siqueira

Nunca gostei muito de Big Brother (vou confessar: a vergonha que as pessoas lá não sentem de se expor eu sinto por elas, o que faz assistir insuportável). Mas a sua crônica foi ótima, Riq!

ruy mendes
ruy mendesPermalinkResponder

Marília,
adorei seu comentário, muito bacana.
Arnaldo - concordamos que discordamos
Riq- mantenha a produtividade do blog ( como você está trabalhadeiro)
Abs a todos e bom dia!

Silvia
SilviaPermalinkResponder

ADOREI!!!!
Fantástico o seu texto, Ricardo! Você consegui resumir quase dois meses de BBB em poucas linhas, explicar exatamente o sentimento da maioria dos espectadores da novelinha e ainda fazer a gente rolar de rir! Já era sua fã e agora sou ainda mais! Você tem o poder de me fazer rir sozinha, do nada sempre que eu me lembro do seu texto do "Pato Purific, Festa das Flores" , sem noção.... hehehehe. Aposto que nem você lembrava deste, né?! Agora é só esperar a vingança do Alemão!!!
Beijos

Flavia Penido
Flavia PenidoPermalinkResponder

Bom...eu detesto aquilo com todas as minhas forças, e por mais que me esforce não consigo assistir mais do que 5 minutos. Mas Ricardo, vc deve ser um feiticeiro da escrita e do convencimento, porque quando li sua crônica...sabe que me diverti? Essa análise rodrigueana do BBB foi ótima...só não falo que vou tentar ver aquela coisa com outros olhos porque...eu prefiro o Nelson Rodrigues mesmo...
E quanto à polêmica: quem é que disse mesmo: não concordo com uma palavra do que vc fala, mas defendo até a morte seu direito de dizê-la"...
E acabei de lembrar de uma pérola trash: vcs lembram de uma música que falava "eu...sou rebelde porque o mundo quis assim..." com uma chata desafinada cantando? agora lembrei dela por causa da "rebeldia" aí de cima, e por culpa de vcs vou ficar horas com ela na cabeça....
Beijos

Jussara
JussaraPermalinkResponder

Riq de tudo o que li acima, e sem querer ser puxa saco, só tenho a dizer uma coisa: é uma delícia ler o que você escreve. Queria ter metade do seu talento para expressar minhas opiniões. Se assistir ou não big brother é legal pouco importa, o bacana é que você nos diverte muito com seus textos.

leboudoirdusiri

Hablo algo de tu idioma, por las vacaciones que amo tomar en tu país, puedo leer tu idioma... pero escribirlo no.
Es la primera vez que entro en un blog. Desde mis últimas vacaciones (enero 2007) en Bombinhas sigo Big Brother por la Red O Globo. Es muy interesante lo que ocurre en la edición brasilera de Big Brother. Tu ensayo sobre el "novelicídio" es interesante también. No lo había analizado bajo tu punto de vista. Claro que no soy brasilera. Acá en Argentina las novelas no son tan importantes como en Brasil. Tampoco son tan buenas. Pero es cierto, el "plot" de BBB es como la "contra- novela" de ´de género T.V .

Ricardo Freire

Bruno, bem na hora em que ia passar o trailer da novela no "Fantástico" me chamaram ao telefone. Mas pelos flashes da Suzana Vieira que vi há cenas gravadas na Estrela d'Água http://www.estreladagua.com.br , sim.

Ricardo Freire

Ops, Bruno -- vi agora o vídeo da Suzana Vieira no GMC e o hotel que apareceu não é a Estrela d'Água, não. Mas agora só vendo a novela pra descobrir...

Eliana
ElianaPermalinkResponder

Vejo bbb, sim Ric. É um laboratório fantástico, hehe. O diego "boca de gaveta" passa o tempo todo se vendendo e falando pra câmera. To torcendo pra que o eunuco saia e vá fazer companhia pra Iris que já foi tarde tb. O cara já entrou pra ser o ganhador, se o público se antenar vai ver que é armação total da produção. Os outros babacas são só figuração. To muito p... com isso.

Ricardo Freire

Eliana, decida-se. OU você acha que esse programa é uma armação e não assiste OU você acredita que o programa é sério e assiste.

Se eles estivessem armando, teriam feito alguma coisa para evitar que a novela ficasse sem par romântico faltando um mês para acabar.

Rosa
RosaPermalinkResponder

Pessoal,
A partir da próxima semana BBB será o desesparate house. Eles vão se estraçalhar, cobra engolindo cobra, imagina o desespero dos que se dizem amigos, tendo que votar um no outro. Alemão derrubando um a um, o G5 vai pro brejo e já vai tarde demais. Não percam, as máscaras caindo não tem preço.

Verus
VerusPermalinkResponder

Ufa!!! Alivio total, não sou a única a gostar do BBB...

Daniel
DanielPermalinkResponder

Bruno, não vi o trailer da novela, mas trabalho com turismo e recebi ontem um mail do Nannai em Muro Alto convidando as pessoas a assistirem a novela, que teve cenas gravadas lá...

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