Menos pode ser mais

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

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Esta crônica foi escrita originalmente para o portal Viaje Aqui; mas como os textos perderam seus permalinks, reproduzo aqui.

E continua a série de fevereiro dedicada a viajar barato. No capítulo de hoje, como fazer seu orçamento render o máximo durante a viagem.

Pesquise e reserve seu hotel com a maior antecedência possível. Isso vale para todas as categorias – de albergue a cinco estrelas. Os melhores hotéis em cada faixa de preço, aqueles que oferecem a melhor relação qualidade-preço, são sempre os primeiros a lotar. (No Brasil a gente é mal-acostumado, porque na baixa temporada os hotéis e pousadas só lotam em feriadão, e olhe lá; mas nas grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos, os bons hotéis estão permanentemente cheios.) Para conseguir aquele hotelzinho de 75 dólares que vale 150, faça sua pesquisa e reserve pelo menos três meses antes de embarcar. Quatro bons pontos de partida: a nova agência de reservas online do Loney Planet, a Haystack ("haystack" quer dizer "palheiro"; o site quer ajudar você a encontrar a agulha do hotelzinho bacana no palheiro das acomodações), o Eurocheapo (especializado em hotéis em conta na Europa), o Venere (o melhor para encontrar um hotel no bairro que você deseja) e o mais completo de todos, o Trip Advisor -- que integra (a) um banco de resenhas feitas por quem se hospedou com (b) uma busca em tempo real de disponibilidade e tarifas de quartos nas datas que você quer. Tem quem pense que sair com tudo reservado "engessa" uma viagem – mas, no meu caderninho, isso apenas faz com que você planeje ainda melhor sua estada.

Quanto mais tempo num lugar, mais barato ele fica. Se você só faz viagem picadinha, preste atenção: quanto menos tempo você tem para explorar um lugar, mais caro você vai pagar. Você precisa sair fazendo as coisas antes de sacar qual é a do lugar – ao recém-chegado é mais difícil identificar o que é roubada e o que é o caminho das pedras. À medida que você vai ficando, vai percebendo a maneira mais inteligente de se locomover, o jeito mais tranqüilo montar as atividades do dia, em que tipo de restaurante entrar. Quem chega e sai correndo acaba andando demais de táxi e comendo porcaria (às vezes, porcaria cara!) só porque estava no caminho...

Quer comer bem pagando pouco? Siga aquele imigrante. Se você está numa cidade cara mas quer (1) comer muito, (2) comer bem e (3) pagar pouco, dirija-se aos restaurantes "étnicos". Eles costumam estar nas cercanias das estações centrais, nas "Chinatowns" e em bairros fora do circuito turístico. É nesses pé-sujos de comida esquisita (e invariavelmente deliciosa) que você vai fazer as refeições mais em conta, e provavelmente mais inesquecíveis, da sua viagem.

Vai para um lugar exótico? Lembre-se dos albergues. Como eu dizia na coluna passada, nos destinos exóticos existe toda uma infra montada para proteger o forasteiro do lugar que ele está visitando. Em alguns lugares isso até é necessário; mas quase sempre a redoma é exagerada. Você acaba sendo levado a fazer os passeios mais caretas do jeito mais refrigerado possível. Nesses lugares em que você tem receio de sair sozinho e fazer as coisas por conta própria, vale a pena considerar os albergues. Quem já passou da fase de mochilar não sabe, mas os albergues evoluíram muito – a maioria já oferece também quartos privativos, às vezes até com banheiro (mas leve suas Havaianas, que você talvez você não queira tomar banho descalço). E mesmo que você não esteja hospedado, não custa dar uma passadinha. A recepção de um albergue é a melhor agência de "turismo receptivo" que você pode encontrar. Ali costumam estar expostas e bem compiladas todas as informações de que você precisa para explorar aquele lugar. Desde as dicas mais práticas e seguras para se virar por conta própria (e de repente até arranjar companhia para não precisar ir sozinho) até agências de turismo receptivo menos engomadinhas do que as que o seu hotel três-estrelas indicaria. Sem falar que seus companheiros de passeio perigam ser bem mais interessantes.

De vez em quando, dê-se ao luxo. A não ser que você esteja contando cada tostão – e, nesse caso, o simples fato de ter viajado já terá sido uma bela extravagância, parabéns –, considere a possibilidade de sair um pouco do orçamento de vez em quando, mais ou menos como naquelas dietas rígidas que permitem chocolate aos domingos. Tomar um drinque, o café da manhã ou o chá da tarde num desses hotéis em que você não passaria nem perto não custa tão caro assim – e rende muitas histórias mais tarde. Em algum momento da viagem, cometa alguma loucura gastronômica: torre o equivalente a uma diária de hotel (da faixa de preço em que você está acostumado a pagar) num jantar. E se quiser voltar para casa com a impressão de que você tirou férias mais luxuosas do que efetivamente foram, economize em hospedagem no começo e abra a mão nas últimas duas noites – um upgrade antes de voltar é o melhor fim de viagem que pode existir.
 

Foto: Raffles Hotel, em Cingapura, onde a diária custa US$ 580, mas o chá da tarde sai por US$ 22.

13 comentários

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Tá legal, gostei, boas dicas (como sempre) e links bacanas e úteis.

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Puxa, eu vou pra Cingapura em outubro mas só vai dar pra visitar mesmo o Raffles Hotel, porque US$ 580,00 por noite não dá nem pra pensar em fazer um esforço. Já a idéia do chá (dica que você já havia me dado anteriormente) certamente será um programão. Visita ao hotel com chá à moda inglesa.

Ricardo Freire

Depois das crises cambiais da Ásia de 98, as tarifas do Raffles tinham despencado. Mas infelizmente já se recuperaram...

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Ricardo

Na alta temporada, até concordo com voce que reservar com antecedência pode ser ótimo.... Mas, na baixa, cruzeiros são muito mais em conta perto da partida ( até 75% de desconto), e hotéis, simplesemente telefonando, conferindo o site, ou vendo as promoções são mais em conta.... Pelo menos é a minha experiência.... Ah, sim, e com pousadas pequenas ou médias, atendidas pelo dono, a pechincha é sempre melhor ainda.... se for com pagamento em dinheiro, então... A do day use, ou tomar uma coca, ou um chá para curtir um lugar sofisticado, ja usamos há muito tempo.... Uma dica que eu acho boa, nas Cidades grandes é sempre conferir as promoções de restaurantes e afins em jornais locais, sempre há boas ideias de promoções... Outra mais ou menos óbiva, mas que muita gente não faz: em férias, os hotéis de cidades grandes tem promoções no fim de semana, e voce pode passar o dia da semana numa cidade mais turistica....Por sinal e a renuiao dos fas e blogueiros de viagens: sugiro que seja um Curitiba, um lugar com ótimos hoteis e baratos, comida idem, execelentes parques com passseios gratis....

Ricardo Freire

Ernesto, a antecedência é fundamental em hotéis muito procurados no exterior. Claro que em cima da hora você pode achar pechinchas, mas diiifiiiciiilmente naqueles hoteizinhos de Paris ou Nova York ou Roma ou Berlim que saíram no Time Out, no Frommers ou no Lonely Planet. Hotel em conta dá para encontrar; mas aquele hotelzinho especial que o povo me pede faltando quinze dias para embarcar, não rolasmile

Agora -- no Brasil, na baixa temporada, sempre dá pra fazer excelentes negócios. Mas se você vai a hotel ou resort, precisa ligar antes para o departamento de reservas, porque a tarifa balcão sempre é escorchante. Já pousadas costumam oferecer ótimos negócios para o passante. O problema de deixar para reservar na hora é que você acaba perdendo seu valioso tempo de férias batendo perna para achar hotel ou pousada -- dependendo de quanto tempo você perder nessa operação, a eventual economia não compensa...

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Ricardo

Ate no exterior, passando e perguntando, já consegui ótimos descontos... A tarifa de balcão pode ser negociada, e geralmente funciona (peça por tarifa corporativa, para clientes fidelidade, mesmo que não seja nem um e nem outro) A regra é evitar falar com um funcionário... O melhor é o dono, ou na falta dele o gerente... É claro que se voce faz questão de um lugar DETERMINADO, não funciona tão bem, mas se voce quer se hospedar numa região, e não se incomoda em passar uma ou duas horas fazendo pesquisa, funciona, as dicas que passei, foram obtidas assim... Mais uma dica: viajando em dois, um faz pesquisa, outro toma um café com as malas e descansa, sózinho, realmente é mais chato, o que faço é fazer uma pesquisa bem simples, e depois se passo na frente de um lugar simpático, pergunto..... Isto, e claro so funciona bem na baixa temporada.... E, a nossa reunião, voce não respondeu!!!

Abs...

Ricardo Freire

Ernesto, ainda tô atoladão de trabalho, mas depois do Carnaval posso começar a pensar nisso...

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Vamos aguardar, então! Bom trabalho.

Ernesto

Carla
CarlaPermalinkResponder

Nota mil, como sempre, Comandante! Eu costumo ser super planejada, principalmente com hospedagem e transporte... Meses antes de viajar, provavelmente já vou ter estudado um monte de mapas, descoberto os melhores bairros onde me hospedar, decidido se vou andar de trem, ônibus, metrô, a pé... De vez em quando acontece, por exemplo, numa viagem de carro onde não tenho parada certa, de deixar para escolher onde vou me hospedar na hora. Mas para mim é a exceção, não a regra. E nunca senti a minha viagem engessada por conta disso, não, pelo contrário - gosto de liberdade de me hospedar no lugar que eu escolhi em vez de ficar no único que consegui... wink

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

Concordo com a Carla. E adoto os mesmos procedimentos e critérios ao planejar uma viagem.

Viajar enriquece o espírito, aprimora a cultura e acentua a educação. Conhecer outros países, cidades e povos amplia para o bem a nossa maneira de enxergar e compreender o mundo e as pessoas. Viajando - e observando com sensibilidade o que vemos - nos tornamos mais complacentes, menos pretensiosos, deslimitamos nossos horizontes e atenuamos aquela tendência natural à pretensão e ao preconceito que (quase) todo ser humano carrega consigo.

E viajar conhecendo antecipadamente um pouco da cultura, da história e dos costumes dos lugares que visitaremos é potencializar todos os prazeres que viveremos. Quando planejamos adequadamente uma viagem, tudo tende a correr bem, as surpresas revelam-se agradáveis e todo o nosso tempo é naturalmente dispendido em conhecer, ver, absorver e aproveitar. O tempo gasto em resolver contratempos por falta de planejamento é tempo perdido. Além disso, costumo dizer que programar uma viagem é quase tão bom quanto vivenciá-la.

A melhor maneira de se tirar o máximo proveito de uma viagem é preparando-nos com antecedência para aquilo que pretendemos conhecer. Viagens como as de Amyr Klink, do Tito Rosemberg, da Família Schurmann, do casal Moss, do Ricardo Freire e de tantos outros jamais teriam tamanho êxito sem uma detalhadíssima e exaustiva programação.

Adquirindo boa noção do que vamos ver, planejando o roteiro de maneira a que este contemple efetivamente o que de melhor cada lugar tem a nos oferecer, focalizando apenas aquilo que nos atrai e procurando deixar de lado aquilo que nos é imposto ou não nos agrada, não tenho dúvidas de que as viagens boas tornam-se ótimas. As cidades estão lá para serem conhecidas, mas é necessário se saber como fazer isso.

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Concordo plenamente com a Carla e o Arnaldo. Quando era mais nova, ia para lugares maravilhosos sem fazer a 'lição de casa'. Hoje, quando me lembro de coisas que poderia ter visto e que não me dei conta na época, quase fico maluca! A mesma coisa com hotéis...já tive muito boas surpresas deixando para escolher o hotel na hora em que chegasse na cidade, mas também já perdi bastante tempo com isso.
Hoje procuro planejar tudo e com antecedência, para aproveitar as promoções, para ler tudo o que posso sobre o lugar e...também porque simplesmente não consigo mais ficar sem planejar pelo menos as duas próximas viagens que farei smile

ernesto
ernestoPermalinkResponder

Sim ,mas dá para fazer deixar alguns "pré-escolhidos" pela internet, e checar depois, no balcão... Mas, para não perder muito tempo, e realmente uma boa ideia já ter o que procurar pela Internet, ou guia, e só vale a pena fazer isto na baixa temporada.... Uma das boas surpresas que tive assim, foi usando a pousada "solar do morro", no Morro de Sâo Paulo, excelente hopsedagem, e negociada por menos da metade do valor do balcão... Eu particularmente prefiro escolher hotel "ao vivo" do que pela Internet, mas é uma questão de gosto...

Cecilia
CeciliaPermalinkResponder

Também concordo com a Carla e o Arnaldo! E com o Chico Buarque, que deu uma entrevista, há muito tempo, dizendo que metade do prazer de uma viagem acontecia antes dela! Para mim é uma delícia escolher o roteiro, pesquisar passeios, restaurantes, estudar o local, etc... Mesmo porque, sempre acontecem imprevistos, mesmo em uma viagem planejada e eles é que para apimenta-la, para o bem ou para o mal!

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