Moeda forte

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Depois de subir aquele post em que compilava as notícias sobre a valorização do real, eu continuei a pensar sobre as semelhanças e as diferenças entre o atual período de bonança cambial (bonança para quem viaja, claro; mas um inferno para quem fabrica, planta ou hospeda) e a farra dos primeiros quatro anos do real.  O resultado deu nessa crônica que está saindo hoje na minha coluna da Época. (Viu só, Marília? Me lembrei de botar no ar...)

moedaforte450.jpg

Onde você estava em dezembro de 1998? Quem viajou para o exterior estourou champagne com o dólar a R$ 1,20, mas pagou a conta com o dólar a R$ 2,20. Com a maxidesvalorização do real, terminava ali uma época de ouro para as viagens internacionais. Durante quatro anos, enquanto um real valia um dólar, viajar para Miami foi mais barato do que tirar férias no Brasil. Nos quatro anos seguintes, vimos o dólar chegar perto dos R$ 4, e nos acostumamos com a idéia de que nunca mais viajaríamos ao exterior com a facilidade do tempo do "um por um".

Quem diria: em 2006 os brasileiros bateram seu recorde de gastos em viagens internacionais -- quase 5,8 bilhões de dólares, contra 5,7 bilhões de dólares do ano gordo de 1998. De 2003 para cá, o real foi a moeda que mais se valorizou no mundo: 43% com relação ao dólar. (Para comparar: o peso chileno valorizou 24%; o peso argentino, menos de 10%.) Na semana passada, diante de mais uma valorização do real, muita gente passou a apostar que, até o fim do ano, o dólar vá descer abaixo de R$ 1,90. Em sua convenção nacional, a CVC, maior operadora turística brasileira, anunciou que seus pacotes internacionais devem crescer de 20% para 30% das vendas.

Por mais tentador que esteja viajar para o exterior, porém, ainda não voltamos à farra dos anos da paridade cambial. Não era só uma questão de câmbio. Havia vôos diretos para lugares hoje inimagináveis. A Vasp voava direto a Bruxelas e Atenas; a Transbrasil, a Viena. A Varig, imagine, ia até Hong Kong e Bangkok. Mesmo com o câmbio barato, dava para encontrar passagens para Miami a menos de 500 dólares. Ainda era possível tirar o visto americano por despachante. E a Europa era um continente composto por países que teimavam em possuir cada qual uma moeda própria. A única cidade do mundo onde os brasileiros achavam tudo caro, pasme, era Buenos Aires.

Sem falar no apelo das compras. O Brasil tinha passado por décadas em que era praticamente proibido importar. De repente, com a moeda forte e a facilidade de viajar, todo mundo podia se tornar seu próprio contrabandista. A auto-sacolagem virou um esporte nacional. Fechando a conta, havia a falta de alternativas no Brasil. Em 98, o único resort de Porto de Galinhas ficava em Serrambi, a 14 km da cidade por estrada de terra. Ninguém sabia onde ficava Itacaré, e os Lençóis Maranhenses eram uma curiosidade topográfica, não um destino de viagem.

O dólar pode estar barato de novo, mas as passagens hoje estão bem mais caras – e os assentos nos aviões, mais escassos. A Europa do euro é bem mais cara do que a Europa do franco, da peseta e da lira. A Inglaterra continua tão proibitiva como sempre. Conseguir visto para os Estados Unidos está praticamente kafkaniano. A exigência de visto mexicano também impede uma nova invasão a Cancún. E a indústria nacional já aprendeu a fazer (ou a importar) muitas das coisas que precisávamos sacolar.

Se você quer realmente aproveitar a força desse real supervalorizado, saia do circuito Elizabeth Arden. Fora da Europa ocidental e dos Estados Unidos você vai ver que os preços de hospedagem, alimentação e transporte estão mais em conta do que no Brasil. A Argentina é o destino mais óbvio. Mas pense também no Uruguai, no México, no Leste Europeu, na Ásia. Se as passagens estão caras, aproveite para ir mais longe – é um jeito de rentabilizar o investimento. E, se possível, compre antes de viajar toda a moeda estrangeira que você vai gastar. Eu estou entre aqueles que não conseguem esquecer o Réveillon de 1999.

11 comentários

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Em dezembro de 1.998 eu estava exatamente na Espanha, fazia uma viagem de 8 dias pela Andaluzia, sul da Espanha, saindo e voltando a Madri e, depois, mais 4 dias em Barcelona. Felizmente eu havia pré-pago todos os hotéis ainda no Brasil (hoje os reservo pela Internet e só são debitados no cartão de crédito após o check-out, portanto, no retorno da viagem. Todavia, como eu já havia pago tudo (aéreo e terrestre, incluindo aluguel de carro), digamos que fiz a "festa" com o cartão, comi como rei, comprei e...me ferrei! ao retornar, a única coisa que pude fazer foi esticar o prazo da próxima viagem, adiá-la.

Pensava eu, "como seria bom se vivêssemos num país de economia estabilizada..", mais ou menos assim como a dos norte-americanos, que podem programar suas viagens e sua vida com muita antecedência e segurança.

Por um bom tempo - desde 1.994 quando viajei pela primeira vez ao Marrocos com o dólar valendo 0,84 Reais (!!), comecinho do Plano Real - incorporei definitivamente a cultura do "deixa-eu-aproveitar-logo-antes-que-acabe", porque toda a minha vida convivi com a instabilidade econômica e os (in)consequentes planos econômicos escafafobéticos, psicodélicos, colloridos, sarneyanos a cada 4 anos.

Hoje não precisamos mais comprar quinquilharias desesperadamente porque felizmente nosso país é moderno e aberto ao mundo, exporta e importa na mesma proporção e não precisamos mais comprar os "reebock" da vida nem as outras "desnecessidades" que trazíamos dos esteites porque éramos uns atrasados e não sabíamos.

Felizmente, parece, estamos indo ao encontro de uma economia mais estável e de um país mais aberto onde se possa encontrar tudo, ou quase, o que se encontra la fora, mas podendo pagar em Reais, parcelado, no cartão e com garantia.

Pela primeira vez em minha vida defini meu programa de viagem para o ano todo: Portugal em fevereiro, Emirados Árabes Unidos, Istanbul e Budapest em maio, Bangkok, Cingapura e Amsterdam em outubro, com passagens compradas aproveitando o câmbio favorável, parceladinhas e tudo mais. Ah, espero em dezembro dar uma escapadela a Fernando de Noronha, seguindo a sugestão do Rodrigo, usando milhas do Smiles pra pagar parte da parte aérea.

O que espero é que o dólar fique num patamar normal e livre de especulação, que possa remunerar adequadamente os exportadores e os importadores, mas proporcionar a nós brasileiros as chances de conhecermos o mundo. Economia e dólar estáveis significam turismo interno crescendo também.

Eduardo
EduardoPermalinkResponder

FREIRE,
O QUE VOCÊ SUGERE NO MÉXICO?
CÁLCULO PARA UM BRASILEIRO QUE GOSTA DE PRAIAS, SÓ PODE TIRAR 20 DIAS DE FÉRIAS, MAS POSSIVELMENTE SÓ FICARÁ 15 DIAS VIAJANDO (DE REPENTE 10) POR FALTA DE GRANA.

Carla
CarlaPermalinkResponder

Do dezembro de 98 eu escapei... em termos, porque o meu empobrecimento como viajante internacional ficou flagrante nos anos seguintes...wink Mas a desvalorização que me quebrou de verdade foi a de abril de 2001. Eu estava em Cancún gastando no cartão com o dólar a R$ 2,50 e paguei a conta com o dólar a R$ 4,00!!!

Rafael ^^
Rafael ^^PermalinkResponder

Olá! ^^
Estou com meu blog o mais..HEIM?
E queria uma parceria com voce!
ESpero alguma resposta!

Marcio
MarcioPermalinkResponder

O fato é que naqueles primeiros anos do Plano Real, existia uma banda de flutuação do dólar, ou seja, havia um piso e um teto, que a cotação do dólar poderia alcançar.

Se o dólar fosse muito "pra baixo" ou "pra cima", o Banco Central entrava no mercado, e fazia ele ficar nessa banda pré-determinada. Ou seja, a gente sabia de antemão até quando o dólar poderia chegar.

Isso funcionava muito bem porque o mundo lá fora também estava bem, mas... Bastou a primeira crise e buummm!! Era nítido que essa banda era artificial, quer dizer, a cotação do dólar não ia de acordo com o mercado, o governo é quem determinava a cotação.

Pois então em 1999 o governo deixou o dólar "flutuar", porque se deixasse naquela banda fixa, as reservas iriam pro beleleu. E estamos até hoje com o dólar flutuante, quem determina sua cotação é o mercado.

Quem tava com dívida em dólar, literalmente se ferrou! Quem não se lembra daqueles que compraram seus automóveis através de LEASING, com prestações corrigidas pela cotação do dólar?

Hoje o dólar flutua livremente, mas se realmente flutuasse ao sabor do próprio mercado, ele já estaria lá embaixoooooo. Amigos, com essa taxa de juros, a tendência dele é ir pra baixo mesmo.

Quer quiser aproveitar a farra, pode ser uma boa hora. Ah, e torça pro Henrique Meirelles continuar na presidência do Banco Central, porque é garantia de juros altos e dólar baixo.

Salete
SaletePermalinkResponder

Arnaldo,
Eu acho que cochilei em algum momento porque não entendi a história de ir para Noronha com milhas Smiles. (???) Ela vai voltar a voar para lá?
Passagem barata para a Europa você acha onde? Se conseguir algo que valha a pena, desisto da idéia de fazer a rota dos vinhos no Chile.
Abração

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Salete, foi o Rodrigo Purisch que disse que é possível voar a Noronha pela varig...

Rodrigo
RodrigoPermalinkResponder

Salete.

A Varig já voltou a voar para Noronha, desde que a ANAC permitiu que Boeings pudessem pousar lá. Com isso a Total parou de voar este destino.
Checa no Site da Varig

Salete
SaletePermalinkResponder

Arnaldo e Rodrigo,

Obrigada! É mesmo, conferi no site da Varig e o destino está lá. Agora vou precisar de paciência para conseguir vaga pelo Smiles.
Valeu!
Salete

N Breault
N BreaultPermalinkResponder

O Euro esta caro ate para quem ganha em dolar. Eu estava na Italia quando o Euro entrou em cena e pagamos 85 centados de dolar para cada euro. Hoje a cotacao esta em 1,20 dolares para cada euro... nao e' a toa que vejo italianos e europeus por todos os lados nos EUA.
Acho que em 1998 eu era feliz e nao sabia...

Rodrigo
RodrigoPermalinkResponder

Riq,

Falando em viagens, custo e roteios, olha que interessante esse mapa
http://www.sasi.group.shef.ac.uk/worldmapper/display.php?selected=19#

Nele os países são apresentados de acordo com o volume de turistas que recebem. Dá uma pena do Brasil, mas não creio que seja por causa do Real forte, mas por falta de segurança e de estrutura para receber o turista internacional (placas, informações turisticas e domínio da lingua inglesa)

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