Crônica de um caos anunciado

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Minha coluna desta semana na Época. Os leitores habituais do blog vão reconhecer alguns trechos de posts e comentários espalhados ao longo da semana passada. (Mas o fato de a crônica parecer uma mistura da capa da Vejona com a da Vejinha São Paulo desta semana é mera coincidência...)

Eu considero São Paulo uma cidade infinitamente melhor do que Nova York, Paris, Londres ou Roma. Por uma única, e decisiva, razão: entre essas cinco grandes cidades, São Paulo é a única que está a 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro.

Ou melhor, estava – no tempo em que seu aeroporto central, Congonhas, não era obrigado a fechar a cada chuvinha mais prolongada. Ou quando os controladores aéreos não estavam em permanente operação-padrão. Ou quando o Cidacta não saía do ar a todo momento.

Se bem que, mesmo antes dessa (perdão) enxurrada de problemas recentes, a equação dos 45 minutos de vôo de/para o Rio de Janeiro já não era tão fácil de ser demonstrada. Decolar e, sobretudo, aterrissar no horário de pico do começo da noite vinha sendo um inferno ainda no tempo em que não se falava em caos aéreo. A verdade é que o aeroporto de Congonhas já era superutilizado mesmo quando suas duas pistas funcionavam o dia inteiro.

Como deixamos a situação chegar a esse ponto? Há 20 anos, Congonhas era um aeroporto estritamente regional. Afora a ponte aérea e os vôos para o interior, só havia o programa VDC, Vôo Direto ao Centro, que ligava Congonhas à Pampulha, a Curitiba e a Brasília. Vôos para todas as outras capitais, quando existiam, envolviam alguma escala. Quer ir para Salvador? Precisa pousar antes em Ilhéus ou Porto Seguro. Porto Alegre? Só se passar em Curitiba ou Caxias.

Essa foi a época do crescimento da TAM – que, mesmo com uma frota de Fokkers acanhados e tarifas mais altas, conquistou o viajante de negócios. Sua concorrente, a Nordeste/Rio-Sul, também mantinha um alto padrão (e tinha aviões melhores).

Então apareceu a Gol, com uma proposta inicial de tarifas supereconômicas. Nos outros países, as companhias aéreas de desconto usam aeroportos secundários ou fora de mão, onde pagam taxas menores e não se arriscam aos atrasos dos horários de movimento. Mas por aqui, o governo, para forçar a guerra de tarifas, instalou a nossa primeira "low-fare" no quartel-general das "premium", Congonhas. Foi um empurrão e tanto para a Gol –  e para o crescimento do mercado. Mas ninguém se preocupou em medir corretamente as conseqüências.

Se a Gol podia voar para todo o Brasil a partir de Congonhas, as outras também queriam. De repente, Congonhas passou a ter vôos diretos para tudo quanto é lugar. Para que ir a Porto Alegre por Cumbica, se o vôo que sai de Congonhas também era sem escalas e, graças à concorrência da Gol, custava o mesmo (ou menos) do que por Guarulhos?

A guerra de tarifas levou à crise na Varig e ao acordo de compartilhamento de vôos com a TAM. O acordo cartelizou a aviação: a Gol aumentou seus preços quase ao nível das outras, e as outras baixaram seu serviço de bordo quase ao nível da Gol. Passamos um ano acompanhando a agonia de Varig e, quando nos demos conta, Congonhas tinha se tornado o maior centro de conexões de vôos do país. De aeroportozinho regional, Congonhas passou a ser o aeroporto onde o Brasil inteiro vem fazer baldeação. Mesmo quando reformarem a pista e o aeroporto voltar a funcionar na chuva, não vai dar certo.

Semana passada o caderno de viagem do semanário inglês The Observer sugeriu a seus leitores 50 viagens para ser feitas sem avião. Não, a Inglaterra não está vivendo nenhum caos aéreo. Lá os vôos começam a ser malvistos por outro motivo: as emissões de carbono.

Nem assim, porém, eu consigo achar que Londres é um lugar melhor do que São Paulo. Continuo morando na única grande cidade do mundo que está a apenas 5 horas de carro do Rio de Janeiro...

39 comentários

Deise
DeisePermalinkResponder

Riq....q texto maravilhoso sobre CGH. Estou vivendo meus tempos de terror na aviação, como trab na GOL em SSA tdos os dias praticamente temos q desviar as cnx que vão por CGH...q terrorr...rs! Espero sobreviver. Bjo

Gustavo
GustavoPermalinkResponder

Precisa ainda falar que brasileiro deixa tudo pra última hora? Vamos precisar ter um caos ainda maior para o governo atiçar para a crise e o povo criar vergonha na cara e fazer algo útil e não reclamar em vão. Sei que o pensamento não é nada otimista, porém cansei de "ficar acomodado na cadeira".

Marcio
MarcioPermalinkResponder

Toda vez que leio o que vc escreve sobre Congonhas lembro de minhas viagens semanais a trabalho quando tudo funcionava bem.
Congonhas tem tudo para ser um ótimo aeroporto após "calibrarem" a sua verdadeira capacidade e lógico com controladores trabalhando sem operação padrão.

Wilson Tenorio Q. dos Santos

Acho o seu blog muito legal, mas gostaria de saber porque você não muda para o Rio de Janeiro?

Wilson

Majô
MajôPermalinkResponder

Hahaha Riq, perfeito seu texto.
Apenas 5 horas do Rio de Janeiro, mas de trem expresso poderiam ser 2 e sem poluir a atmosfera.

JULIO CESAR CORRÊA

Acho que muito do caos aéreo passa pelo excesso de conexões e escalas em Congonhas e Cumbica. A necessidade de conexão para se ir do Rio para a mairoia das cidades norte-americanas é um absurdo.
O Rio agradece o seu texto.
grande abraço

Diogo
DiogoPermalinkResponder

Maldito Cindacta...

Marcio Ito
Marcio ItoPermalinkResponder

Bom, muito bom o texto!

Será que Congonhas algum dia voltará a ser um aeroporto regional, com vôos apenas da ponte-aérea Rio-SP e p/ interior?

Difícil, né? Ainda que isso fosse feito, p/ onde iriam todos esses vôos? Guarulhos? Viracopos?

E cadê o dinheiro p/ ampliar, melhorar e estruturar esses 2 aeroportos p/ receberem os vôos transferidos de Congonhas?

Caso os vôos sejam transferidos sem planejamento e melhorias p/ esses aeroportos, estaremos apenas transferindo o problema de um lugar p/ outro...

Carla
CarlaPermalinkResponder

Por falar na Vejinha, a capa da Vejinha Rio dessa semana é São Paulo... Perguntinha básica: será que esse é mesmo o momento de estimular as visitinhas Rio-SP e vice-versa?

Ricardo Freire

Turismo rodoviário, Carla
smile
smile
smile

Ricardo Freire

Aliás, perguntinha: que hotéis em SP a Vejinha Rio indica?

A Vejinha SP indicou: os Mercure, o Windsor Barra, o Mar Ipanema, o Ritz do Leblon, o Marina All Suites e o Copacabana Palace.

Majô
MajôPermalinkResponder

Riq,
A Vejinha Rio indicou o Formule 1 Paulista, o Ibis Paulista, Mercure Jardins, Quality Jardins, Meliá Jardim Europa, Renaissance e Fasano.

Eu incluiria no Rio, o Transamerica na Barra não é em frente à praia, mas você atravessa de balsa, fica num lugar super sossegado e perto de tudo. Em linguagem Riquiana, considere também o Meliá que fica junto da Praia da Reserva e o Casadelmar, frente praia, cadeia Promenade.

Em Ipanema, o Praia Ipanema, em frete à praia, esquina com a Paul Redfern, o ponto é ótimo.

Carla
CarlaPermalinkResponder

"Xô, Alzheimer"!!! (Isso tá virando lugar-comum por aqui, tá todo mundo ficando meio zureta...) Nem considerei a possibilidade de ir a SP de carro, porque nunca consegui chegar lá sem me perder na entrada da cidade... wink

Carla
CarlaPermalinkResponder

Pior: nem lembrei dos ônibus também...

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

A Dutra é sossegada, a Trabalhadores também.
Mas entrar em SP para quem não tá muito acostumado assusta.
Logo que vim morar aqui, há quase 10 anos, peguei a Rodovia Bandeirantes para ir para Moema. Eles só poderiam estar brincando quando colocaram uma rodovia que vai para o interior com o mesmo nome de uma avenida.
Resumo: 40 minutos depois, quase em Campinas, liguei para a minha amiga em Moema dizendo que ela morava longe pra burro!! rs
Se precisarem de uma mapinha, eu faço!!! rs

Ricardo Freire

Carla, eu tava brincando. Eu acho que dá pra um paulistano ir de carro pro Rio e se entender na cidade só seguindo as placas. Já um carioca não habituado a São Paulo não tem a mínima chance de carro por aqui...

(E o pior é que táxi em São Paulo é caríssimo.)

Bruno Vilaça
Bruno VilaçaPermalinkResponder

Hmmm, que saudade deu ao ler "Rio Sul/Nordeste" na cronica... Éramos felizes e não sabíamos!

Ricardo Freire

Mô:
smile
smile
smile

Isso só não aconteceu comigo quando vim morar aqui porque naquela época eu não dirigia.

(Só aprendi aos 26 anos, pasme...)

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

Não fico pasma...rs
Eu aprendi com 30!!! Ganhei! rs
O único problema de um paulistano dirigir no Rio é não prestar atenção nas placas e errar o caminho.
Aqui a gente cai no limbo. Tipo, pegar a Santo Amaro para ir ao Centro e acabar em Guarapiranga.
Melhor eu nem começar a contar, porque isso daria um livro! rs

Ricardo Freire

Majô, na minha humilde opinião a lista de hotéis da Veja Rio em SP é bem melhor do que a lista de hotéis do Rio na Veja SP.

Acho o Palladium e o Visconti melhores do que qualquer Mercure (ex-Parthenon); faltou o Portinari, que é designzinho e tem preços ótimos; os quartos reformados do Mar Ipanema (os únicos em que dá para ficar) têm preços de hotel da Prudente de Morais, não de hotel da Visconde de Pirajá. E faltou alguma opção mais econômica, como o Glória (para quem vai de carro) ou o Ipanema Inn...

(Ah, sim: corrigi o que você pediu e deletei todos os alzheimers, tá?)

Bruno Vilaça
Bruno VilaçaPermalinkResponder

E falando em hotéis no Rio, um que é sempre pouco comentado, mas que acho ter uma relação custo-benefício melhor que os citados é o Portinari. 250 pilas para o Rio não é nenhum fortuna... Você já ficou nele, Riq?

Bruno Vilaça
Bruno VilaçaPermalinkResponder

Credo Riq... Além de guru também lê pensamentos?
Transmimento de pensassão denovo! wink

Ricardo Freire

O Portinari é ótimo, Brunim. Tem só dois andares feitos pela mesma decoradora (eu sempre fico de anotar o nome, mas esqueço) que são muito sem-graça. Os quartos standard são bem pequenos, mas o lugar é divertido.

GiraMundo com Jorge Bernardes

Majô, se você colocar o Praia Ipanema no Trip Advisor você vai encontrar inúmeras reclamações de visitantes estrangeiros sobre as cobranças indevidas de cartão de crédito e roubos, mesmo de dentro dos cofres dos quartos. Eu cheguei a fazer reserva em dezembro e desisti depois de ver a longa lista de reclamações.

Eu acho que as suítes dos andares executivos ( = reformados e de frente para o mar) do Marina Palace são um custo benefício muito superior aos estilosos quartos do Marina All Suites que estão sempre congestionados e custam o dobro.

Ricardo Freire

Jorge, acho o Marina All Suites inviável. É o único hotel brasileiro que eu conheço cujos preços praticados via agente de viagem são parecidíssimos com a tarifa-balcão...

Majô
MajôPermalinkResponder

Carla et al

Sobre entrada em São Paulo de carro, posso dizer que a experiência no Natal, foi ser celular guiada 50 min por meu sobrinho passando por todas as pontes da Marginal. Paciência igual a dele, só ele smile Quase acertamos, mas acabamos, minha irmã e eu sendo resgatadas no McDonnald´s de uma avenida enorme que não é a Juscelino.
Para sair de Sampa meu irmão nos comboiou até a entrada da Carvalho Pinto e foi show a viagem toda!
Ainda Carla,
O ônibus expresso é uma alternartiva, fora que na rodoviária tem metro.

Ric,
hahahaha humilde opinião tá muito boa !! Você sempre tem razão :p
Concordo com o Glória, muitos estrangeiros se hospedam lá, é clássico e mantém o padrão.
No Copacabana Palace se hospedam os paulistas ricos.
O Marina All Suites é bem carinho.
O Ritz édo padrão do Claridge e Leblon Inn, perto dos dois.
Corcordo também com o Palladium e Visconti
e Portinari.
Obrigada pelas correções e por deletar os Alzheimers smile

GiraMundo JB,
Citei o Praia Ipanema porque meu irmão se hospedou ali inúmeras vêzes quando morávamos ali perto, na Prudente de Morais. Nunca houve problema, ma isso foi até 10 anos atrás. Um amigo meu do Rio que mora em Sampa há muitos anos tb quando vem se hospedava lá. Agora, tinha sempre muito argentino. Descambou então, bom saber. Êpa, eu não disse que é por causa dos argentinos rs

Sobre o Transamerica, na Barra, citei porque acho ótima opção para quem vem com criança, e o mar da Barra é maravilhoso, limpíssimo e o por do sol belíssimo. O Casadelmar e o Meliá são perto da Praia da Reserva que é 10. Estive no Meliá ano passado, meu irmão e minha cunhada se hospedaram lá, o quarto é ótimo e minha cunhada ficou deslumbrada com a vista do por do sol. Fora que dali até Grumari são 30 min.
Quem quiser vir para o Pan, os dois estáo muito bem localizados.

Majô
MajôPermalinkResponder

Riq,
Também concordo com o Ipanema Inn, como opção mais em conta. Outro é o Everest.

Carla
CarlaPermalinkResponder

Gente, depois do mapinha da Mô acho até que qualquer hora dessas eu me armo de coragem e encaro ir pra Sampa de carro... wink

A sério, a idéia de conjugar o ônibus expresso com metrô me pareceu bem legal - claro, desde que se tenha pouquinha bagagem e um hotel próximo a alguma estação...

Ricardo Freire

Carla, o Caesar Business Paulista, o Tryp Paulista, o Ibis e o Formule 1 ficam pertíssimo da estação Consolação (pegue o metrô na direção Jabaquara, desça no Paraíso e faça transbordo para a linha verde, direção Vila Madalena).

Diogo
DiogoPermalinkResponder

O ibis, que eu me lembre, fica na frente do aeroporto de congonhas, nao?

Ricardo Freire

São Paulo tem três Ibis, Diogo. Eu devia ter sido mais específico: Ibis Paulista smile

Diogo
DiogoPermalinkResponder

Aaaahhh bom, assim sim, hehehe!!!

Majô
MajôPermalinkResponder

Carla,
A rodoviária de São Paulo parece um aeroporto, enooorme. Nada a ver com a do Rio. O ônibus não faz paradas, Rio-Sampa direto.
É uma ótima alternativa, se não quizer se extressar em horas perdidas em aeroportos.

Eu não sabia que tinha metrô até Vila Madalena. Conheci no fim do ano, achei um charme, com muitas casas, vilas.

Carolina
CarolinaPermalinkResponder

eu fiquei decepcionadíssima com a Vejinha (SP) de sábado.
não gostei de nenhuma dica do RJ!

deviam ter pedido a sua consultoria, Ricardo!
Ou deviam ter colado do seu especial! aquele sim, um excelente guia do RJ!

Adorei entrar aqui hoje! tanta novidade!
Boa semana!

Danielle
DaniellePermalinkResponder

Gente, posso falar de cadeira (melhor de janela e sacada) do Transamérica Barra. Moro exatamente ao lado dele e uso a mesma balsinha para a maravilhosa praia da Barra... acho que vcs não se arrependeriam...

sandra
sandraPermalinkResponder

Ricardo,
Mudando de assunto, você tem algo sobre o Chile? Santiago, arredores, vinícolas, etc?
Obg
sandra

Ricardo Freire

Sandra, você vai achar váááárias dicas sobre o Chile na caixa de comentário deste post aqui (que aparentemente não tem nada a ver com o assunto):

http://viajenaviagem.wordpress.com/2007/03/05/que-emirates-que-nada/

Ricardo Freire

Majô, a estação se chama Vila Madalena e fica... praticamente quase na Vila Madalena. Dá menos de cinco minutos de táxi ou pouco mais de 15 a pé até a rua Aspicuelta dos barzinhos.

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Ha pelo menos duas dicas boas de hoteis no Rio, que embora sejam longe de praia valem a pena: FLamengo Palace, com linda vista dos quartos,e o Novo Mundo, reformado e que tem aquele de glamour de quem esteve perto do poder. São bem mais em conta do que os hoteis em Copacabana/Ipanema, e bem próximos do metro, e também com ótimas opções de comida boa e baratas, como os autenticos botecos cariocas do Largo do Machado perto.

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