Viajando com o New York Times

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

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Este texto foi escrito originalmente para a filial do VnV no portal Viaje Aqui. Mas como não há mais link direto, aqui vai a transcrição integral da crônica.

Semana retrasada o suplemento de viagem do New York Times foi dedicado a cruzeiros. E uma das matérias – e a que se revelou a preferida dos leitores online, tornando-se o artigo mais enviado por e-mail na semana – foi, veja você, sobre o EasyCruise que este blog cobriu ao vivo em dezembro, e que fez parte da matéria de capa da Viagem & Turismo de fevereiro.

Comecei a ler a matéria para comparar impressões quando... epa! Como assim? O repórter do New York Times embarcou no meio de dezembro? Na primeira semana de operação do novo itinerário caribenho do EasyCruise? Ei! Essa era exatamente a MINHA semana!

Não consegui reconhecer nenhuma das pessoas que apareciam na fotografia tirada na hidro do deck. (O fotógrafo deve ter feito as fotos numa outra viagem.) Mas a descrição dos passageiros apresentava vários pontos em comum com a lista que eu tinha descrito no post do primeiro dia, em St. Kitts. Os americanos festeiros estavam lá. A "americana energética" (gente, de onde é que eu fui tirar esse adjetivo, "energética"? Pressa de blogueiro...) também, e com o nome que eu lembrava: Mariah. As francesinhas esnobes não estavam no meu post, mas eu sabia quem eram. E se restava alguma dúvida de que fizemos a mesma viagem, elas se dissiparam no momento em que apareceram no texto os personagens mais carismáticos da minha viagem, o casal de meia-idade Lucky e Cupcake. (Aqui no blog eu chamei os dois pelos apelidos, mas na matéria da V&T Lucky aparece com seu nome de batismo, Doug.)

Bingo: o repórter Matt Gross era o "nova-iorquino com ar de intelectual que chegou arisco e vai se soltando" de que eu tinha falado no post de St Kitts. Claro! O sujeito tinha inclusive se apresentado como Matt, mesmo. Não perguntei o que ele fazia, mas o Lucky me contou que ele tinha dito exercer alguma atividade vagamente acadêmica, e que viajava porque tinha tempo e a mulher não se importava smile

Não conversamos muito, não – até porque ele se enturmou com os americanos festeiros e eu me dei melhor com as shirley-valentines inglesas. A bem da verdade, nem tentei me enturmar com os americanos; achei o pessoal meio Porky's com prazo de validade vencido, e, de mais a mais, não tinha tempo para farrear. À diferença do repórter do NYT, eu tinha muito trabalho a fazer na cabine: descarregar a memória da câmera, editar fotos, escrever os posts diários (e encontrar um cybercafé aberto em terra firme para subir as postagens, o que em alguns lugares era a tarefa mais complicada da gincana).

De resto, tínhamos muitas coisas em comum. Os dois estávamos incógnitos e pagando pela viagem (orgulhe-se, leitor: a sua Viagem & Turismo tem o mesmo padrão ético do New York Times). Embarcamos no mesmo dia – uma segunda-feira, no quarto dia da nova temporada caribenha do EasyCruise. Ambos perdemos os três primeiros dias, que, por todas as descrições que ouvi dos que já estavam no navio, foram uma tremenda boca-livre para jornalistas europeus convidados. O próprio Stelios, o dono da EasyJet, estava a bordo, para ser filmado por equipes de televisão. Nesses três primeiros dias, segundo apurei, os pães do café da manhã eram mais fresquinhos e a salada de frutas vinha com frutinhas vermelhas que não deram o ar da graça nos sete dias em que permaneci a bordo...

Ainda bem que eu não reconheci o Matt Gross – ou poderia ter rolado uma tietagem da qual eu me lembraria, constrangido, o resto da vida. O fato é que gosto muito das matérias que ele faz. Ele tem uma função específica no caderno de viagem do NYT: é o "frugal traveler", algo como o viajante sem luxos. O cara só faz viagens econômicas, mas sem o ranço que normalmente caracteriza os gurus de viagens econômicas. As experiências são sempre mais importantes do que os tostões economizados, e não há nos seus textos nenhuma aversão ideológica aos prazeres ditos burgueses. Ele viaja para fazer descobertas e se divertir – a diferença é que o orçamento é limitado.

Na primeira vez em que conversamos, ele, ao saber que eu era brasileiro, mostrou-se bem-informado demais para um americano: disse achar o máximo que o Brasil exigisse visto de turistas americanos como medida retaliatória. Eu retruquei na lata, reafirmando a minha convicção de que a medida é muito ruim para o turismo brasileiro. (E, agora que eu sei quem o cara era, veja você: mesmo simpatizando com o Itamaraty, quem disse que o cara já se deu ao trabalho de tirar um visto e vir para cá? Mas à Argentina ele já foi...)

No segundo dia, acabamos fazendo o mesmo passeio-roubada em Antígua. Quer dizer: eu achei na hora que era roubada. Estávamos em jipes diferentes. Os grupos só se encontravam nos pontos de parada: o mirante no alto do morro; a banquinha de frutas onde fomos apresentados a frutas exoticíssimas como banana, abacaxi e coco; a praia na beira da estrada (provavelmente a única praia inteiramente devassada de toda a ilha). Nessa terceira parada eu me lembro de ter comentado com ele que passeio horrível tinha sido aquele. Eu disse "What a lousy tour!!!". Na hora, ele disse que tinha achado o passeio OK. Eu continuei, destruindo passo a passo o passeio (o caminho de terra furreco, o mirante furreco, a banca de frutas furreca, a praia furreca, e como nós poderíamos ter usado o tempo muito melhor para ir ao English Harbour de verdade, em vez de só ver do alto). Ou ele estava miguelando as impressões dele na hora, ou eu consegui mudar a opinião do cara – na matéria do NYT, o jeep tour de Antígua está como um dos pontos baixos da viagem no EasyCruise.

Então tá, assumo, estou curtindo esse meu momento Tommy. (Não conhece o Tommy? Ele é o primo da Tássia. Da Tássia Achando. Lembrou?) Como se não bastasse me vangloriar de perseguir a mesma pauta do New York Times, ainda me atrevo a botar defeito no roteiro do outro: ao abandonar o barco em St. Maarten, o viajante frugal perdeu as duas ilhas melhores ilhas do itinerário, St.-Barth e Anguilla – justamente aquelas que o EasyCruise torna acessíveis aos muquiranas e mãos-fechadas em geral...

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15 comentários

Carla
CarlaPermalinkResponder

Muito boa essa história! Fico só imaginando a sua sensação ao descobrir que o cara estava na sua viagem... wink

Salete
SaletePermalinkResponder

Imagine, Ric, se pudesse voltar no tempo...
Iriam comparar impressões e você poderia tirar aquelas dúvidas que sempre quis perguntar.
Será que iria estragar seu trabalho, creio que não...
Ele sabe agora quem é você? Escreveu a ele?
Abração,
Salete

Arthur
ArthurPermalinkResponder

Muito legal, Ricardo. Mudando o assunto, vejo que de vez em quando alguém pergunta aqui sobre a Paraíba e João Pessoa. Essa foi uma viagem que apreciei muito, e postei o relato e dicas
http://agoravai.wordpress.com/2007/03/11/paraibano/

GiraMundo com Jorge Bernardes

Ricardo, quando vc fala de tietagem ao Matt Gross, eu me toquei que agora vc já sabe como nós passageiros nos sentiríamos se cruzássemos com vc em uma viagem.... Manda ver e curta seu momento Tommy.

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

BINGO, GiraMundo com Jorge Bernardes!! Agora ele sentirá na pele o que é ser a NOSSA personalidade-guru.

Arnaldo FATOS & FOTOS de Viagens

Um dia pode ser que escrevamos aqui..."Momento TAMO-NOS".

Carla
CarlaPermalinkResponder

Arnaldo, isso vai acontecer no dia em que o Riq disser que usou as nossas dicas em uma viagem... wink

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

E isto mesmo.... Falando-se em cafes da manha....Estive no Hotel Bella Italia, em Foz. Preço camarada R$ 140,00 por casal, sem taxas ( mas tem que ligar no telefone jurássico, onde o preço é mais barato do que na Net, acreditem)... Excelente sucos naturais, ovos feitos na hora, todos os tipos de frutas, e também bem fresquinhas, waffles, vários tipos de frios, e até mesmo salada ( a verde, não a de frutas), caldo de feijão!!, vinho, para quem gosta ( de manhã não e meu caso,), enfim uma excelente relação custo benfeicio, e um dos melhores cafés que provei nos ultimos tempos...

Carolina
CarolinaPermalinkResponder

pessoas, estou muito inclinada a ir à Cuba nas minhas férias em abril (se é que vai dar tempo...).
Vou hj na Fnac comprar um guia, mas de qquer forma, dicas de viajentes sempre são bem vindas, né?
Quero conhecer Havana, é óbvio, e dp ir conhecer as praias. Queria fazer uma viagem menos resort e mais charmosa, sabe?
só tenho visto esquemas meio Cancun... não é muito a minha praia (com trocadilho), mas tenho certeza que em Cuba há lugares mais charmosos e mais "roots".

Ricardo, me lembro de um post seu, mas só encontrei algo sobre um bairro cubano em Miami, era isso?

Carolina
CarolinaPermalinkResponder

(cliquei antes de terminar)

se alguma alma bondosa se compadecer da minha causa, ficarei muito agradecida!

muito obrigada!

Jorge Bernardes

Carolina, quando vc descobrir tudo o que planeja sobre Cuba. Conta para nós. Eu tenho vontade conhecer Cuba, mas queria que fosse no esquema que vc tá falando. Esse negócio de resort velho em Varadero, não é a minha também.

Jurema
JuremaPermalinkResponder

Quando fui a Cuba (já faz tempo, em um esquema totalmente universitário), gostei muito de Havana, achei Varadero assim-assim (só dei uma passada) e AMEI Cayo Largo. É uma ilha pequena, de areia branca, rodeada de mar azul-caribe por todos os lados. Vale nem que seja para um bate-e-volta de teco-teco de um dia só (foi o que eu fiz). Aproveite a simpatia do povo cubano, especialmente e relação a nós, brasileiros. E compre rum e charutos, se você gostar.

Ricardo Freire

Salete, não escrevi pra ele não, até porque não há nenhum email pessoal à vista no site do NY Times (e eu não estou a fim de me cadastrar no CouchSurfing só pra isso). De todo modo, acho que ele não ia curtir muito o fato de eu ter posto a foto dele na internet, não smile

Margareth
MargarethPermalinkResponder

Ricardo,

Sou marinheira de primeira viagem na Europa, agora em abril. Sempre ouvi falar dos problemas circulatórios - especialmente nas pernas - decorrentes de longos vôos, incluindo mortes. Rio/Dublin pode ser considerado um vôo longo? Quais medidas devo tomar para evitar problemas? Dormi a noite toda - já que meu vôo é noturno - causa algum tipo de preocupação, desse ponto de vista?

Grata pela atenção e pela dica... Valeu!

Bjs,
Margareth

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Riq

Voce quer me ajudar? Pode postar quando não tiver outro assunto, pois não é tão "urgente", são planos para o final do ano.

Eu estou pensando em ir para a India. Quem já foi e pode dar dicas? Quais os pontos mais interessantes, para qem curte viagens de trem, bichos e lugares e Cidades históricas? Qual a melhor época do ano ? 15 a 20 dias são suficientes? Quanto se gasta por dia na India para ficar num hotel limpo, mas sem frescuras? E, os adicionais são caros? E, a comida, como se faz para sobreviver por lá? Eu não gosto de excursões, mas para alguem que nunca foi a India, e tem pouco tempo, elas são necessárias? E melhor comprar um pacote aqui, ou numa operadora na Espanha, como Nouvelle Frontires? Dicas são bem vindas!!!

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