Caos aéreo: Martha Medeiros, longe do front

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

A Sylvia mandou o link para essa crônica superdivertida da minha amiga de infância (quando a gente tem 20 anos a gente ainda é criança, concorda?) Martha Medeiros, que saiu ontem na Zero Hora.

Aposto que ela deve ter recebido um zilhão e meio de emails de leitores que não perceberam a ironia do texto. Vejam que delícia:

Só os tolos não mudam

Martha Medeiros (Zero Hora, 4/4/2007)

Já publiquei meia-dúzia de crônicas sobre o que eu considerava ser a melhor coisa do mundo: viajar. Reli algumas delas e suspirei diante da minha inocência. Acreditava que era um prazer supremo estar num local distante, absorvendo outra cultura, outros costumes, levando a vida sem horário, sem rotina e sem estresse. Tsk, tsk.

Hoje, olho para meu sacrossanto lar e me vem a certeza de que nenhum lugar do mundo pode ser melhor. Nenhuma cama de hotel é mais confortável que a minha, nenhum frigobar é tão bem abastecido quanto minha geladeira, nenhuma vista é mais inspiradora do que a que vejo da minha janela e não tem Torre Eiffel ou Taj Mahal que seja páreo para meu sofá em frente à tevê.

Nas vezes em que sou obrigada a sair de casa, deparo com Porto Alegre, e Porto Alegre, você sabe, é demais. Para que se meter numa cidadezinha intramuros na Itália, qual a graça de zanzar por Tóquio sem entender o que está escrito nos luminosos, que prazer há em atravessar uma rua em Londres e correr o risco de ser atropelada? Eu devia estar louca quando acreditei que viajar era excitante.

Há quem precise mudar de ares de vez em quando. Já tive este surto também: mudar de ares. Uma bobagem tremenda, mas, se for recomendação médica, então suba para alguma cidade da Serra - de carro. Pegue uma praia em Santa Catarina, ainda há caminhoneiros que dão carona. Tem mesmo que ser em outro país? É preciso gostar muito de viajar para expor assim seu elitismo. Ok, o Uruguai é logo ali, tem ônibus que sai toda noite.

Ir mais longe do que isso é falta de juízo. Ninguém em sã consciência pode achar divertido ficar trancado numa pousada enquanto chove a cântaros, perder horas em museus e igrejas, pagar uma fortuna por uma Coca-Cola, passar por ignorante tentando falar em outro idioma, pegar um táxi sem conhecer o trajeto, ter que comprar uma lembrancinha para os que ficam e ainda dormir longe do próprio travesseiro.

Por isso é que eu digo: viajar não é legal. Não há nada tão espetacular lá fora. O mar do Taiti não é tão azul quanto nas fotos, a cordilheira dos Andes é um morrinho à-toa e em Nova York não tem nada para se fazer. Bom é ficar na casa da gente, sem mala pra arrumar, sem ter que posar para fotos, sem visitar monumentos. Por favor, não me contrarie. Você não imagina o esforço que estou fazendo pra me acostumar aos novos tempos.

Obrigado, Sylvia! Beijão, Martha!

12 comentários

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Riq, pelo menos até a semana passada a Marta
estava sem internet , imagina só o provedor ...

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

"Por favor, não me contrarie. Você não imagina o esforço que estou fazendo pra me acostumar aos novos tempos." SENSACIONAL! Eu concordo em gênero, número e grau com ela. NENHUM lugar é melhor que minha casa...

Ricardo Freire

Sylvia, hoje em dia eu acho que ficar sem internet é pior que ficar sem luz!!!

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Pior que sem luz e muito pior que sem TV

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Riq, até porque sem luz não tem internet !! rsrs

Marina
MarinaPermalinkResponder

Maravilhosa! ahahahahaha!

Chris
ChrisPermalinkResponder

Lembrei-me de Clarice Lispector: "É bom sair pelo prazer de voltar".

GiraMundo com Jorge Bernardes

Muito bom. É complicado mesmo fazer o "jogo do contente" smile

Flávia
FláviaPermalinkResponder

Parabéns à Martha Medeiros, texto brilhante e divertidíssimo. Gostaria mesmo se saber (ou não) o que ainda vão tirar de nós, se até o prazer de cair fora, viajar e ser viajado, ficou assim, chatão! Mas eu levanto barricadas: me atrevo a quer ir sim, até pelo prazer de jogar na cara do Cindacta que eu comi doces portugueses sentada em um belo café com vista para a Baixa. wink Boa, Ricardo! O site é muito legal!

Carla
CarlaPermalinkResponder

A Martha é fabulosa! Mas a sutil ironia do texto provavelmente vai render uma caixa postal entupida de bobagens, sim... wink

Nelson Biagio Junior

Eu tb gosto muito do que a Martha escreve...

Rosimara
RosimaraPermalinkResponder

Martha, se acho dez, vc é perfeita por seu realismo!!

Beijos

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