Réquiem para um aeroporto

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Escrevi este texto para a filial do VnV no ViajeAqui. Como o portal não dá mais links diretos para os posts, transcrevo aqui a coluna.

Sei que não tenho razão. Que é inútil – e, em última análise, errado – lutar contra a evolução, o progresso e o conforto. Mas não consigo deixar de ficar triste com as reformas do meu aeroporto favorito, o Santos Dumont, no Rio.

Caso você não saiba, semana passada foi inaugurado o novo setor de embarque e desembarque do aeroporto, num anexo de ares futuristas construído à frente do prédio principal. A um custo de 340 milhões de reais, o Santos Dumont ganhou "fingers" (corredores que conectam os aviões ao corpo do aeroporto) envidraçados, além de espaços para lojas que vão transformar o aeroporto num shopping center.

Os fingers, equipamentos que se tornaram standard em todos os aeroportos civilizados do mundo, vão proteger os passageiros da chuva e do vento, e facilitar a vida de cadeirantes e pessoas com dificuldade de locomoção. Já o shopping center vai ajudar a distrair os usuários do aeroporto nesses tempos de caos aéreo.

Mesmo assim, não gosto. Por um motivo absolutamente fútil, eu sei – mas que precisa ser lamentado, chorado, velado, como algum amigo inconseqüente mas muito querido que tenha ido embora antes da hora.

O fato é que, com a instalação dos fingers, morre o Santos Dumont que conhecemos e aprendemos a amar. Aquele aeroporto que era pequeno, familiar e informal feito um botequim – o Bracarense dos aeroportos! – acabou.

Não vou sequer invocar a desfiguração arquitetônica trazida pelo anexo. O motivo do meu luto é muito mais do que meramente visual.

Choro porque sei que nunca mais vou receber as boas-vindas à cidade em forma de maresia – aquele bafo quente e levemente salgado que abraçava quem quer que descesse as escadas do avião, lembrando ao engravatado passageiro que havia muito mais do que simplesmente trabalho naquela banda da ponte aérea.

Se não houvesse nenhum avião estacionado ao lado, dava para sentir a maresia e, ao mesmo tempo, ver o Pão de Açúcar – uma experiência quase tão poderosa quanto subir à montanha de bondinho.

Lamento o fim do desembarque à moda antiga como um ecologista lamenta o fim de um mangue ou a morte de uma barreira de corais. É aí que vemos como somos incompetentes. Os baianos conseguiram tombar o acarajé; os usuários da ponte aérea não conseguimos tombar o desembarque sem fingers.

Eu sei, eu sei, os cadeirantes agradecem, e ninguém achava muita graça mesmo em se molhar nos dias de chuva. Mas eu vou continuar no meu papel de chato xiita saudosista e lembrar que a reforma foi decidida num dos momentos mais conturbados da vida do aeroporto.

Foi há alguns anos, quando praticamente todos os vôos domésticos estavam sendo transferidos do Galeão, e o Santos Dumont parecia fadado a se tornar uma versão carioca, e ainda mais caótica, do aeroporto paulistano de Congonhas.

Em tempo, porém, a Infraero reuniu o que restava de bom-senso na autarquia e levou os vôos domésticos de volta ao Galeão, deixando o Santos Dumont praticamente apenas com a ponte aérea. O aeroporto encolheu, mas mesmo assim a ampliação foi adiante.

Vale ainda lembrar que o trânsito de passageiros Santos Dumont é inflacionado por todo mundo que toma a ponte aérea não para ir a São Paulo, mas a outros destinos no Sul, no Centro-Oeste ou até mesmo no Nordeste – já que Congonhas deixou de ser um aeroporto de vôos regionais para se tornar, desgraçadamente, o maior "hub" (centro de conexões) do Brasil.

Mas nem tudo são más notícias. Se você também até alguns anos adorava Congonhas, e até semana passada adorava o Santos Dumont, junte-se a mim na torcida para vá para a frente o tal projeto do trem-bala entre São Paulo e Rio. Com sorte, em oito anos não vamos mais suspirar de saudades por nossos ex-aeroportos favoritos.

15 comentários

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Trem Trem Trem precisamos de trens !!
Todos os finais de semana de verão na free-way me pergunto :
quando teremos um trem ???
Quando esse dia chegar o post que vai bombar vai se chamar :
" Vai viajar de trem pelo Brasil ?" lol

Ricardo Freire

Sylvia:
lol
lol
lol

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Riq, é realmente para sentir muito...era ainda uma maneira romântica de se chegar no Rio, a que mais combinava com o Samba do Avião (apesar deste citar o Galeão, nunca entendi...será que era pela rima???)
Ainda não consegui me acostumar com Congonhas também...pelo menos os fingers não atrapalharam muito a estrutura original, para quem vê o aeroporto pela Rubem Berta. Na verdade só aquela estrutura bizarra do estacionamento novo conseguiu isso sad

Emiliano
EmilianoPermalinkResponder

Acho que o caso do Santos Dumont é só a pá de cal jogada no últimos dos nossos aeroportos ainda não ampliados com projetos medíocres, pra não dizer bizarros como o de Porto Alegre. O S.D. sem dúvida o caso mais grave, por se tratar de uma obra prima da arquitetura brasileira, uma jóia do Rio de Janeiro. Entendo que reformas seriam necessarias, mas a sua responsabilidade deveria ser colocada na mão de profissionais de alto nível e não de burocratas da infraero ou picaretas de empreiteiras.

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

E, Congonhas, que perdeu o seu ar da década de 50.... Aláis, acho que infelizmente tudo o que se refere a avião perdeu o seu glamour... Parece uma imensa rodoviária, só que com mais filas no chack in, filas para a revista, e preços absurdos na sala de embarque...

Pablo
PabloPermalinkResponder

O Santos Dumond realmente vai deixar saudades, lembro-me descendo do avião dos 5 até os 8 anos de idade, de mão dada com uma (geralmente bela) aeromoça, pelo menos duas maletas de lanche nas mãos e aquele aeroporto bonito na minha frente....... ai ai.
Aqui em BH, o (quase finado) Aeroporto da Pampulha pode ter tido seu charme, você vê a lagoa do alto, mas não dá. Nem a rodoviária (que também deve ser extinta, em breve) é tão ruim nas acomodações. Em tempos de filas grandes, quase saem da porta para a rua. O de Confins é bem feito, bem bonito arquitetonicamente, apesar de só parte de sua capacidade ser usada. O problema maior é a lonjuuuura e o tempo pra chegar ou sair de lá. Do centro, são 45 minutos, tempo igual para se chegar de avião no Rio. A nova Linha Verde deve encurtar esse tempo um pouco, mas enquanto as obras não terminam...

Pablo
PabloPermalinkResponder

Ah, só pra completar a Sylvia, as linhas de trem no Brasil foram promessa da primeira campanha para presidente do Fernando Henrique (além de hidrovias) e do Lula I e II, também. Quando o lobby petróleo/empreiteiras/viação vai deixar?

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Verdade Pablo, mas a estrategia vem da primeira republica !

Majô
MajôPermalinkResponder

Também lamento terem feito essa geringonça no Santos Dumont. Aqui no Rio já deram apelido de rolo de papel higiênico.

Lembro que na época em que teve o incêndio e queimou boa parte dele, o Fernando Henrique fez questão que ele fosse restaurado tal qual foi construido.

Na verdade, há 15 dias já desci nele ainda no meio da pista mesmo. Ele é tão informal, você desembarca e já vê a carinha de quem está te esperando, bem a cara do Rio. Só é chato mesmo quando chove, mas 4 min andando já está dentro da sala de desembarque.

Adoro tirar fotos quando o avião decola do Santos Dumont, sento sempre na janela do lado direito, e vou clicando montanhas, baia, lagoa, mar, é lindo mesmo. E, voltar se possível do lado esquerdo, com por do sol iluminando a Baia de Guanabara. smile

Leandro
LeandroPermalinkResponder

Este trem seria um sonho mas, tratando de Brasil, se sair em menos de 60 anos já será motivo para comemorar (e quando chegar aqui já terão trens três vezes mais rápidos no mundo).

Hilda
HildaPermalinkResponder

Esta será a primeira vez que discordo, e muito, do Riq e de todos do blog. O que era aquele aeroporto, com cara de rodovária velha...fora a beleza dos painéis ( que foram queimados no incêndio) não oferecia nenhum conforto! Nada romântico chegar de SP, carregada de coisas, com chuva, e ter que andar léguas na pista! Já passei por situações embaraçantes.
E nas ocasiões em que a ponte fecha? Alguém já passou algumas horas ali?
Definitivamente, ponto para o conforto!

Já o trem está nos planos da Ministra Dilma: 1:30 mins de viagem a R$ 120,00, centenas de pax por viagem, horários initerruptos, 24 hrs por dia. Sei não, eu que sou do tempo do Flecha de prata e do trem que ia pra Uruguaiana, nem acredito nisso...rs

Dotô Adevogado

Pelo título, pensei que o post era sobre Congonhas. Entendo o fator nostalgia, mas que venham as instalações modernas.

JULIO CESAR CORREA

Ricardo, viajei daqui para Sampa na sexta-feira antes da inauguração e enquanto esperava hora da partida, olhando aquele imenso painel no saguão principal, senti uma nostalgia da primeira vez que ali estive, em 76. É mesmo um aeroporto romântico. Mas parece que essa era romântica acabou, dando lugar ao "moderno e pragmático". Quando voltei de Sampa, no domingo, a "obra" já havia sido inaugurada e minha tristeza aumentou.
gd ab

Isabel O., Portugal

Imaginem como conheci um pouco do Santos Dumont.... Andando na pista de automóvel, como se estivesse a passar a linha do comboio (trem). Abriu a cancela e o nosso motorista atravessou a pista em direcção a uma zona marítima que tem um forte da marinha (acho eu). Nem queria acreditar.
Segundo ele, nenhum terrorista se ia dar ao trabalho de lá colocar uma bomba ou coisa parecida. No outra dia já as pessoas estariam "a fazer piada" com o facto.

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Gente, tô aqui, em pleno aeroporto de Guarulhos e sei lá se consigo chegar em Buenos Aires, acreditam??? Dizem que Ezeiza está fechado desde ontem à noite e ninguém tem ainda autorizaçao pra embarcar pra lá. Isso aqui tá pior que a Tietê!!! Vcs não imaginam a enxurrada de gente! Fiquei 1h30 na fila do check in, isso porque somos Fidelidade Vermelho da TAM. A fila normal do internacional tá atravessando de uma asa pra outra! Ô Feriadão!!!!!
Já tô sabendo que vai atrasar, porque vão decolar primeiro os vôos que não saíram ontem à noite. Santa sala vip, não?????

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