A nossa culpa

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Minha coluna desta semana na Época.

Muita tinta e infinitos bytes têm sido gastos para identificar a parcela de responsabilidade de cada um dos envolvidos no acidente do vôo 3054. Da Airbus à Infraero, da TAM à Anac, de São Pedro ao IPT, do piloto ao Presidente da República, todas as falhas já foram devidamente esmiuçadas. Ainda que fique provado que a tragédia se deu, em grande parte, devido a falhas no equipamento e na pilotagem, a discussão serviu para que finalmente se chegasse ao consenso de que o aeroporto de Congonhas não suporta o volume de tráfego com que opera hoje. E já que estamos apontando responsáveis, permita-me lembrar de um grupo até agora mantido fora das apurações, mas que muito contribuiu para o inchaço de Congonhas: nós, os passageiros.

Muito antes do acidente da Gol, da operação-padrão dos controladores de vôo e das trapalhadas dos órgãos pouco competentes, viajar por Congonhas já era um inferno. Fazia tempo que o check-in e as salas de embarque estavam apinhados, e os vôos, invariavelmente atrasados. A reforma do aeroporto só fez surgir mais salas onde todos pudéssemos nos apertar e esperar pelos vôos, cada vez em maior número, e cada vez mais atrasados. Antes de pousar, os aviões chegavam a ficar meia hora, quarenta minutos sobrevoando a cidade, esperando a sua vez. E mesmo assim, continuamos irracionalmente a preferir Congonhas a qualquer outra alternativa, como se ainda estivéssemos no tempo dos Fokkers 100 da TAM e dos compactos Boeings 757 737-500 da Rio-Sul e da Nordeste, quando era possível fazer check-in em cima da hora e sair andando calmamente pela pista até o avião.

É certo que, num sistema regulado com eficiência, bom-senso e pulso, seríamos desestimulados, por tarifas mais altas, a viajar por Congonhas; e seríamos atraídos a outros aeroportos por preços em conta. Acharíamos justo que Congonhas fosse reservado a viagens curtas, caras e sobretudo a negócios, pagas por pessoas jurídicas; e nos conformaríamos em programar nossas viagens longas e a passeio por Cumbica. Mas com vôos a preços iguais, partindo dos dois aeroportos – um perto, um longe – para os mesmos destinos, decidimos que era menos ruim sofrer dentro do aeroporto de Congonhas do que no engarrafamento a caminho de Cumbica. E, ao suportarmos estoicamente os suplícios de Congonhas, demos o sinal verde à lambança das companhias aéreas, que irresponsavelmente passaram a trazer passageiros do Brasil inteiro para lotar os vôos que nós queríamos pegar na porta de casa.

Claro que as companhias aéreas e os órgãos pouco competentes deveriam saber, melhor do que nós, leigos, que transformar o aeroporto auxiliar de uma metrópole em seu aeroporto principal é uma insanidade. Mas nós, que, antes de passageiros, somos cidadãos, nunca nos demos ao trabalho de sequer cogitar nisso. Achamos perfeitamente natural voar para qualquer lugar do país sem precisar nos abalar a um aeroporto fora da cidade – como fazem, sem reclamar, os moradores de todas as outras metrópoles do planeta. Nunca usamos nosso poder de pressão junto aos políticos para que fosse melhorado o acesso a Cumbica. Acabamos nos transformando na versão classe-média dos altos executivos que só sabem se deslocar de helicóptero.

As medidas – tardias, mas corretas – anunciadas esta semana, somadas à reacomodação da malha pelas companhias aéreas, devem transferir o suplício de Congonhas para Cumbica. Precisamos resistir à tentação de achar que, confusão por confusão, era melhor como estava antes. Porque é mil vezes preferível gerenciar o caos aéreo num aeroporto razoavelmente seguro do que num porta-aviões encravado no centro da cidade.

16 comentários

Bruno Vilaça
Bruno VilaçaPermalinkResponder

Riq, perfeita a crônica, como sempre! É um assunto que você já vem falando há muito tempo e está atual -- mais do que nunca. Parabéns!

Só me permita uma correção: os aviões da Rio Sul e da Nordeste eram o Boeing 737-500 (que têm no max. 132 assentos) e não 757 (que são bem maiores, com até 239 assentos). Sem esquecer dos saudosos JetClass (Embraer 145 - com 50 assentos). wink

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Perfeito

Quem sabe surja o trem para Guarulhos! E, ainda poderia beneficiar, de quebra a USP Leste, que fica do lado do Aeroporto e sofre com a falta de transporte coleitvo!

Ricardo Freire

Obrigado, Bruno! Corrigi.

andre
andrePermalinkResponder

ôpa, finalmente!!! Pensei que ia prevalecer essa eterna mania brasileira de jogar sempre toda a culpa no governo, nas instituições, no outro, nos preservando sempre dos nossos erros. Nós, classe-média brasileira, somos comodistas e contribuimos muito para que a situação em Congonhas chegasse ao que chegou. Tirasse o governo, antes de tudo isso, vôos de congonhas como forma de segurar a situação e vcs com certeza veriam as mesmas pessoas que hoje estão idignadas reclamando de uma "medida tão dura e equivocada". Temos essa mania. Reclamamos do país, de como as coisas chegaram até aqui, mas esquecemos que fomos mesmo nós, classe média brasileira, que apoiamos, através de passeatas e outros meios mais, o golpe militar de 64. Seria melhor que nos refletíssemos mais sobre o nosso poder, sobre o que queremos e fazemos para que possamos usar esse mesmo poder para algo bem melhor do que manter o nosso eterno comodismo. Como Ricardo definiu bem "Acabamos nos transformando na versão classe-média dos altos executivos que só sabem se deslocar de helicóptero..."

Ricardo Freire

André, o problema é que esse governo é igualzinho a nós: também se exime de qualquer culpa sad

Lena
LenaPermalinkResponder

Acabo de chegar da passeata que saiu do Ibirapuera e foi até o aeroporto de Congonhas. Pelo que vi na Globonews e na internet até agora, não noticiaram o verdadeiro espírito e indignação de todos que estavam lá. Já convocaram outra manifestação no dia 4 de agosto na Paulista e outra passeata no mesmo lugar de hoje no dia 18 de agosto.

Ernesto
ErnestoPermalinkResponder

Lena

Além das passeatas, devemos como consumidores, boicotramos a TAM, e como eleitores, termos um voto consciente!

Hugo
HugoPermalinkResponder

O fato do aeroporto ser longe, por si só, não pode ser encarado como um problema intransponível. Aqui em Belo Horizonte, o aeroporto da Pampulha fica uns 10 quilômetros do centro e o de Confis uns 45 quilômetros, mas mesmo assim a grande maioria dos vôos foram transferidos para Confis e ninguêm morreu por causa disso.

No início tivemos aquela enxurrada de reclamações, mas depois as pessoas acostumaram. Hoje estão sendo concluídas obras de grande porte que vão ligar o centro ao aeroporto de Confins quase que de forma direta e sem sinais de trânsito no caminho.

Além disso, reduziram drasticamente o preço do táxi entre Confins e o centro e ainda colocaram uma linha de ônibus excelente que faz a ligação aeroporto-centro sem paradas.

andre
andrePermalinkResponder

Esse e todos os outros governos antes dele né, Ricardo?

Lena
LenaPermalinkResponder

Concordo, Ernesto. Não pretendo voar por Congonhas tão cedo. Nem de TAM. Tampouco gostaria de pegar um Airbus.... Voto consciente e participo de passeatas, que aliás, sábado pretendo ir em outra. E quantas mais surgiram neste espírito do CANSEI!!

Ricardo Freire

Desculpe, andre, mas discordo.

Carolina
CarolinaPermalinkResponder

Nossa... realmente, este post é um post necessário... muito bem dito, Ricardo.

A capacidade da nossa sociedade de se auto-regulamentar é muito pequena, minúscula mesmo.

Infelizmente, acabo de ter mais uma prova disso, foram instalados mais uns 5 semáforos em uma pequena área de Perdizes, aqui em São Paulo. Um deles realmente fazia falta, perto de uma escola mas o resto deles é a prova de que as pessoas que circulam por ali não tem a capacidade de dar a preferência a outros carros ou pessoas, que ela precisam de alguém dizendo para elas que podem ou não cruzar a rua ou esperar o pedestre atravessar na faixa.

Precisamos apontar o dedo sim mas também precisamos abrir os olhos.

Patsy
PatsyPermalinkResponder

Eu também cortei a TAM, definitivamente. Pode ter sido o que for mas prefiro não voar mais por TAM.

E concordo com o Riq, isso aqui esta mais para metrô da praça da sé, todos os vôos passarem aqui não faz o minimo sentido!!!!

Nico
NicoPermalinkResponder

Hugo,

Fiquei sabendo aqui pelos seus comentários no blog que vc esteve na serra gaúcha a pouco tempo atrás. Seria muito incomodo que vc me enviasse esse roteiro que fez nessa viagem?

o meu email é: vinic_ba arroba hotmail.com

obrigado

GiraMundo com Jorge Bernardes

Eu concordo com o texto. Dessa história toda, uma coisa que não consigo me conformar é como a TAM deixa um Airbus com um item "não essencial" de segurança continuar descendo em dias de chuva, num aeroporto onde os pilotos avisam para quem quiser ouvir que a pista não está boa e sem área de escape, ou seja, confiando que todos os comandantes que viajavam com aquela aeronave fossem em 100% das vezes lembrar de que tinham que mudar o truquezinho dos reversos porque um não funcionava, mas "não era essencial". Desculpe, isso para mim é como eu deixar um post it no meu PC no escritório para não deixar de pagar o condomínio, é lógico que entre dezenas de aterrisagens, uma falharia. Até onde eu entendo, a segurança da aviação está na redundância de controles e infra de qualidade. Não basta não ser essencial.
Agora querem culpar a tripulação que morreu. Eu não consigo aceitar isso.

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