Tremenda saudade

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

utrema.jpg

Minha crônica de hoje no Guia do Estadão.

Ando intranqüilo, desmilingüido. Não sei se agüento. Desculpe a rima, mas talvez precise de um ungüento. Com freqüência tenho sonhado com pingüins bilíngües e eqüinos grandiloqüentes. Achava que não teria maiores conseqüências, mas agora tenho medo de seqüelas. Você já viu os sagüis da Anhangüera? Os seqüestradores foram alcagüetados por delinqüentes que gostavam de lingüiça.

Desculpe. Eu sei que nada disso faz sentido. Mas é que não tenho muito tempo. Preciso gastar meu estoque de tremas até o fim do ano. Em 2008, dizem, uma reforma ortográfica abater-se-á (mesóclise proposital: deixa o assunto mais pesado) sobre nossos teclados, exterminando o trema do lado de cá do Atlântico. (Em Portugal já não existe há muitos, ahn, qüinqüênios.)

Originalmente, essa reforma serviria para unificar a grafia do português em todos os países. Balela. Mesmo que Portugal venha a adotar a nova regra – o que não parece muito provável – muitos acentos continuarão a embarcar agudos em Lisboa e a desembarcar circunflexos em Cumbica. Questão de gênero – ou de género, entende?

Muitos portugueses, de fa(c)to, não querem abrir mão de suas consoantes mudas. E se todas caíssem, seriam criadas novas palavras com grafias diferentes aqui e lá. Por exemplo: enquanto no Brasil continuaríamos a fazer nosso check-in na recepção, em Portugal precisaríamos nos dirigir à receção.

Prepare-se para mais caos aéreo: se não bastassem todos os problemas, a partir do ano que vem vôo não vai mais ter acento. O que é um perigo – desde o primário eu sei que é aquele chapeuzinho que faz o avião planar.

Ah, sim: vai mudar também a regra do hífen. O que não deve fazer diferença nenhuma, porque ninguém sabia a regra antiga, mesmo. Mas fico feliz em saber que a primeira proposta do Houaiss (sim, tudo começou com ele; por isso continuo fiel ao Aurélio), que recomendava que escrevêssemos "sulafricano" e "malumorado", acabou não vingando. Ufa.

Cheguei a pensar em fundar uma resistência a essa reforma inútil, mas sei que sou voto vencido. A abolição do trema encontrará tanta aprovação popular quanto a abolição da escravatura. Pouca gente percebe que, se escrever vai ficar mais fácil, ler vai ficar mais difícil.

Aos fetichistas dos dois pontinhos pairando sobre a vogal, resta-nos o consolo de que o Houaiss não conseguiu abolir o trema em outras línguas. Vou ler Anaïs Nin. Ver fotos da nova Übermodel. E descer na estação Argüelles em Madri.

54 comentários

looking4good
looking4goodPermalinkResponder

Caro amigo além Atlântico

Pois é... A realidade é que existem diferenças e se o objectivo é harmonizar (já vimos que não vai ser) mas pelo menos conciliar há sempre que haver cedencias ... de ambos os lados. Também aqui em Portugal se contestam decisões como as eliminações das consoantes -e atenção que algumas cá não são mudas- [vou ter de dizer fato - em vez de facto? - então passo a dizer os fatos são sérios deixando de haver distinção entre facto (acontecimento) e fato (paletó)? ]. É claro que para mim a eliminação do trema não faz falta nenhuma (nunca o usei e já tenho 50 anos) enquanto para você isso é importante. É natural... porque a base de comparação é sempre o que temos actualmente.

Enfim... só não percebi bem:
«Muitos portugueses, de fa(c)to, não querem abrir mão de suas consoantes mudas. E se todas caíssem, seriam criadas novas palavras com grafias diferentes aqui e lá. Por exemplo: enquanto no Brasil continuaríamos a fazer nosso check-in na recepção, em Portugal precisaríamos nos dirigir à receção».

Pois parece que é o contrário, nós não queremos dirigirmo-nos à receção...

Termino dizendo... não vejo ninguém actualmente em Portugal falar sobre esse acordo ortogáfico : sinal de que não há acordo algum ... ou de que estamos atrasados?

looking4good
looking4goodPermalinkResponder

Mais uma pequena nota:

Fico surpreendido com a sua afirmação «A abolição do trema encontrará tanta aprovação popular quanto a abolição da escravatura» e ao mesmo tempo defende a manutenção do trema!

Uma analogia verdadeiramente surpreendente. Será que também defende a escravatura? Sei que não... por isso houve aí algum erro nessa associação entre trema e escravatura.

Votos de um bom fim de semana.

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Faltam algumas carinhas novas aqui no wordpress, e fazem falta
de verdade :roll:

Ricardo Freire

A única associação é a palavra "abolição", looking4good. "Abolição da escravatura" é uma expressão familiar aos ouvidos brasileiros, por isso vem à mente de um cronista brazuca.

Quanto a "recepção", sempre me disseram em Portugal não se pronunciava esse "p". Aqui no Brasil a gente pronuncia não só o "p", como ainda põe um "i" antes do "ç".

Agora, sério: vocês dizem fa-c-to, mesmo? Pensei que era só por escrito.

Enfim, mais uma prova de que essa reforma não unifica coisa nenhuma...

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
Cancelar