Do província para o capital

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Quando eu usava cabelos

Publicada originalmente no Jornal da Tarde. Hoje, 20 de setembro, se comemora a data "nacional" do Rio Grande do Sul. Não ria -- é feriado e tudo. Em 1989, eu já morava há quatro anos aqui em São Paulo, quando de repente todos os meus amigos resolveram também emigrar de Porto Alegre para cá. A cidade já estava lotada de gaúchos e, mesmo assim, eles continuavam chegando.

Na mesma época, alemães-orientais da nossa idade começaram a pedir vistos de viagem para a Tchecoslováquia, e, aproveitando que a Hungria tinha resolvido abrir suas fronteiras, escapuliam com seus velhos carrinhos Trabant para a Alemanha Ocidental -- num êxodo que culminou com a queda do Muro de Berlim.

Ocorre que, assim como Berlim, Porto Alegre também tinha (tem) um muro infame -- o Muro da Mauá, erguido para proteger a cidade das enchentes do Guaíba. Os gaúchos que emigravam para São Paulo eram tão jovens e educados e saudáveis quanto os alemães-orientais que fugiam para o Ocidente. Não agüentei tanta coincidência, e tive que fazer um ensaio a respeito, que foi publicado na falecida revista (gaúcha, claro) Wonderful. Era mais ou menos assim:

rg4001.jpg

Nem mesmo o aparentemente intransponível Muro da Mauá (em alemão, die Mauer der Mauá) tem impedido que milhares de jovens abandonem tudo o que possuem em Porto Alegre Oriental e partam para recomeçar a vida em São Paulo Ocidental.

Muitos deles aproveitam pseudo-inocentes férias em Santa Catarina e de lá escapam, em velhos Chevette SL ou mesmo em velhos Boeing 727, rumo às delícias do capitalismo. O que leva tantos jovens a deixarem suas famílias, suas casas, seus amigos, para tentar tudo de novo numa terra estranha?

A verdade é que eles resolveram emigrar para poder ter acesso a bens e serviços que, em Porto Alegre Oriental, estão fora do alcance até mesmo da intelligentsia. E a principal causa disso é a fraqueza crônica da moeda local, o pila. Nos seus melhores momentos, 1 pila não costuma valer mais do que 50 centavos de cruzado novo.

Claro que, para comprar alimentos, pagar o aluguel e ter algum lazer, o pila basta. Mas para consumir tudo o que vem do Ocidente -- carros, eletrodomésticos, passagens aéreas -- um gaúcho-oriental desembolsa, proporcionalmente, o dobro de um paulista-ocidental.

No Ocidente, as histórias do dia-a-dia do socialismo gaúcho-oriental são recebidas com curiosidade e espanto. Coisas como carnês e mais carnês para pagar compras, mães que andam de lotação, crianças que voltam da escola de ônibus -- tudo isso parece ficção para quem leva uma vida classe média em São Paulo Ocidental.

Quando chegam lá, os gaúchos-orientais se superam. Enquanto os ocidentais, acostumados desde crianças ao capitalismo, passam quase todo o seu tempo livre em shopping centers, os refugiados preferem os acontecimentos culturais. Em teatros, vernissages, pré-estréias, shows e performances, é cada vez mais comum ver grupos de pessoas com aquele típico sotaque de quem tenta disfarçar o sotaque gaúcho-oriental.

O que é, francamente, impossível. Depois de tantas décadas de isolamento, o português falado no Rio Grande Oriental tornou-se uma língua mutante, de difícil compreensão no Ocidente.

Mesmo a influência da TV ocidental -- captada com facilidade em toda a região -- não conseguiu modificar as estruturas e o sotaque do gaúcho-oriental, cujo idioma se baseia em múltiplas combinações dos monossílabos "tu", "bah" e "né". Na boca de um gaúcho-oriental, o pronome ocidental "você" parece ter quatro sílabas. E soa tão artificial, que a frase "eu gosto de você" parece vir com adoçante.

Mesmo com o êxodo consumado, e a perspectiva de novas levas de jovens fugirem para São Paulo Ocidental, as autoridades gaúchas-orientais parecem pouco se importar. No máximo, devem se perguntar se o Estado pode vir a lucrar com o progresso econômico dos que se foram. É difícil. Ao contrário dos imigrantes mediterrâneos (conhecidos pela denominação genérica, e errônea, de "baianos"), que regularmente mandam suas economias para os lugares de origem, os gaúchos-orientais tendem a trocar cruzados novos por outras moedas realmente fortes.

A maioria dos exilados sente saudade. Muitos voltam a passeio sempre que podem. Alguns imaginam até se não é possível, um dia, juntar o padrão de vida que conquistaram com a qualidade de vida que deixaram para trás. Mas voltar, voltar em definitivo, dizem eles, só quando resolverem fazer uma perestroika na economia do Rio Grande Oriental.

(Publicado também no Jornal da Tarde e na coletânea The Best of Xongas.

80 comentários

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

EXATAMENTE, Gira. Nesta parte em que ele menciona que a terceira revolução é aquela em que o indivíduo atua e exerce influência. Como nós, como nossos blogs, por exemplo.

É só pra pensar: lembram-se como eram feitas as revistas "antigamente"? Bem, as fotos eram em papel, os filmes em acetato, os fotolitos idem, as impressões, etc, etc...

Hoje a Rachel Verano mora em Barcelona, edita uma revista brasileira cuja sede da Editora está em São Paulo, a matéria que eu escrevi foi feita num computador na Cidade do Rio de Janeiro, as fotos foram feitas lá na África do Sul com uma câmera japonesa compradas nos states, ela viu minhas matérias no blog na Internet, entrou em contato comigo por e-mail, enviei-lhe o original que escrevi igualmente pela Internet, ela devolveu-me brilhantemente revisado, também por meio digital, escolheu as fotos que publiquei na Internet (no Flickr), a programadora que está sei lá em que lugar do mundo selcionou as que quis, os fotolitos estão sendo feitos sei lá por quem e em que lugar do planeta, o especial sobre a ÁFrica do Sul de A a Z será impresso sei lá em que gráfica do mundo plano e eu ainda vou receber uns tico-ticos na minha conta!

O mundo É plano!

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

O mundo é plano, GIRA, o mundo é plano! Mas...FELIZMENTE, para nossa salvação, ainda há pessoas como o BETO, com esse senso de humor invejável, esse jeito "finge-que-sou-caipira" de ser e que consegue desmontar maravilhosamente esse "clima plano digital"...

NÃO dá pra não gostar de "biscoito Praiano, pinga Morrão, peixinho de canal e Pelé botando gasolina no posto da esquina, bicho de pé, mas aí tem também. Como tem tu… só que tu foi, tu vai, não tem nóis fumo, graçazadeus. Aí tem jambolão, guerra de cuca e jogo de tamboréu?"

GiraMundo com Jorge Bernardes

Esse post virou conversa de botequim.... Sexta feira, tá muito bom isso aqui...

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Mu mu é um doce de leite , e Scarpini era uma joalheria .
Mu mu está das prateleiras do super mercado e Scarpini fixou residencia
no cemiterio .
Viamão é uma cidade dormitorio que parou no tempo .
A Praça da Alfandega é a residencia temporária ao ar livre dos aposentados que não conseguem se desvincular dos velhos tempos e continuam indo para o centro da cidade diáriamente encontrar seus semelhantes.É tb o local da " Feira do Livro" , e onde espero encontrar
o Riq para autografar o novo VnV de papel smile

GiraMundo com Jorge Bernardes

Eu não conhecia lembrar de onde eu conhecia MuMu.... Já vi esse doce!

O Comandante está numa semana bem flashback, bem saudoso.... Este texto re-postado, os pensamentos "Adeus Lênin" e agora as fotos da charada no post seguinte....

Vamo nessa Riq, relembrar é viver!!!

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Este post tá ficando incrível com esses comentários... ô sexta boa!
Arnaldo, também adoro Friedman e tô com vc: o mundo é plano!!!

GiraMundo com Jorge Bernardes

Eu quis dizer conseguia ao invés de conhecia...

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Puxa!, lamento, mas manda descer a saideira, o último chopp desse papo de sexta porque o dever e um casamento me chamam!

Vou begar minha Kodak Pocket Instamatic 60, meu Rádio Transglobe Philco-Ford, chupar um Drops Kids de hortelã, dar uma passadinha no Banco Nacional, passar um Desodorante Sandalus, meu Pinho Silvestre, calçar meu tênis Dragon Nylon, vestir minha calça Lee e me mandar no meu Maverick 68!

Não vou poder assistir continuar hoje aqui, nem assistir Os Waltons, nem o Kung Fu, As Panteras, Kojak, Baretta e Roots na minha Blaupunkt Colorado!

Mas amanhã eu volto. Aqui e lá no FATOS & FOTOS, com o Palácio Topkapi!

GRANDE abraço a todos!

Meilin
MeilinPermalinkResponder

Ai, qui djilíça esse post! Não para não, Arnaldo, continua, Riq, vai lá Sylvia, cadê vc, Gira, mais, Beto!!! Tá parecendo mesmo um papo de boteco, mas um cyber boteco. Beijos a todos

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Tá chovendo aqui Arnaldo, por isso não fui ainda na tua casa tomar um mate , mas logo que parar de chover passo lá smile
Enquanto isso vou me deliciar com o Topkapi ( e aquele suuper diamante
que deve estar lá no blog ) .
Hoje a noite vou ligar a tv preto e branco para ver Combate eekops:
Dejavu ...

Juliana Scherz

Schmitt eh o sobrenome do meu chefe.... dono do escritório para o qual trabalho... será que vcs são parentes? wink

Pat Salgado
Pat SalgadoPermalinkResponder

Pois eu fui uma das que emigrou pra São Paulo Ocidental. Vivi lá por mais de 15 anos, constituindo família e fiz o caminho de volta aos pagos há quase 2 anos, trazendo além das malas e da cuia marido, filho, um Labrador e um gato viralatas nascido na Rua Atlântica, nos Jardins. Todos hoje estão perfeitamente adaptados aqui, mas sempre que podemos vamos gastar nossos pilas em São Paulo Ocidental. Mas confesso para vocês: se não fosse a bendita Internet e sites como esse eu JAMAIS teria coragem de fazer o que eu fiz.

Carla
CarlaPermalinkResponder

Sylvia, enquanto eu lia o post fui imaginando a casa do Arnaldo bem naquela praça mesmo - não tinha certeza do nome, mas me soava familiar... Fiquei curiosa pra saber se era aquela casa mesmo!!!

Riq, como sempre o texto está um primor... wink

Ricardo Freire

Beijos, PatSal!

Beto
BetoPermalinkResponder

Riq, não responde à Juliana não, chefe chamado Schimidt deve ser barra. Imagina se ela descobre que cê é parente dele?
Juliana: wink

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

A casa do Arnaldo está lá !
Exatamente igual como era quande ele tinha 13 anos smile
Casa de pedra , com garagem do lado direito bem como o Arnaldo falou.
A foto com o celular ficou assim.. pq estava chovendo .
Amanhã vou passar lá e tirar outras.
Arnaldo, o numero da casa é 71 ( e não 72 ) , mas é ela mesmo !!!!!

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

SYLVIA, eu agradeço sua gentileza e simpatia. Além do trabalhão, é claro. Olha, fui lá na minha "caixa-de-retratos-jurássicos" à busca de uma foto que tinha como certo encontrar. Era aos 13 anos, tocando violão sentado no muro de pedra da tal casa. Não encontrei aquela, lamentavelmente, mas outra de 1985, a última vez que estive em POA (!!) (isso mesmo, há 22 anos!) e fui rever minha querida casa. Vou escaneá-la e enviá-la a vc por e-mail. eu estou na frente da casa (como muito mais cabelos, menos 15 quilos e com cara não de 33, mas de 27/28 anos!) Vou enviar a você por e-mail, numa tentativa de retribuir sua gentileza....

Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens

Ah, do lado superior esquerdo do portão da garagem aparece uma placa com o número da casa: 71! Está lá, na foto a confirmação de que é mesmo 71, não 72...

camila
camilaPermalinkResponder

Sylvia querida!
Sou paulista, mas o marido eh gaucho. E a gauchada esta tomando Dubai de assalto. Sao tantas empresas gauchas por aqui... Tramontina, Marcopolo, Calcados Democrata, alem do pessoal "do frango" da Sadia e Perdigao.
E na ausencia de um dia de Sao Paulo (como seria? Baianos, italianos, espanhois, paraibanos, judeus e todo mundo comemorando???).
Agradeco pela camisa, mas o divorcio nao eh um plano por esses lados!
Beijos

Julia
JuliaPermalinkResponder

Rará. Não emigrei ainda, mas pretendo. Gaúcha em São Paulo, forever. E prometo não esconder o sotaque. E prometo não ceder ao capitalismo. Viva os eventos culturais. E Porto Alegre nas férias. E os grafites tormam o muro da Mauá bem agradável, pelo menos à minha apreciação.

Marina
MarinaPermalinkResponder

Ricardo,
Hoje fiquei conhecendo o seu blog através de uma amiga que mora em Porto Alegre Oriental. Cheguei em São Paulo Ocidental no mesmo ano em que você e, após muitas andanças, acabei retornando e me instalando por aqui, apesar de muitas vezes pensar em retornar à terrinha...... Coincidência ou não, descobri que, assim como eu, você foi um dos primeiros hóspedes da Pousada do Toque e, também não resistindo a simpatia do JR e a hospitalidade deliciosa dos amigos Gilda e Nilo, acompanhou o "desenvolvimento" da Pousada até ao que ela é hoje: um oásis de tranquilidade e bom gosto sem frescuras. Abraços de uma exilada com saudade (até mesmo do muro da Mauá....)

luiz campos
luiz camposPermalinkResponder

Prezada Syvia,
Para sua informação a Joalheria Scarpini fixou residência no S.C.Iguatemi.

Sylvia Disse:
21 Setembro, 2007 em 10:22 am
Mu mu é um doce de leite , e Scarpini era uma joalheria .
Mu mu está das prateleiras do super mercado e Scarpini fixou residencia
no cemiterio .

Rodrigo Barneche

O comentários estão tão bons quanto o texto... viajei numa Poa que não conheci pelos comments do Arnaldo... deu até vontade de ter nascido antes smile

Beto Paschoalini

Como acessar ao arquivo completo do Best of Xongas? Cara, isso tem que virar livro.

Ricardo Freire

Hehe, as publicadas até 2001 no JT saíram num "Best of Xongas". Te mando um livrim, ainda tenho uns em casa smile

Tem muitas aqui: http://www.freires.com.br/materias.asp?qual=4&materia_id=24

Beto
BetoPermalinkResponder

O bom de ser desmemoriado é que tudo é novo pra gente. É lógico que eu já li todas aquelas do freires, foi por isso que eu vim parar aqui. É que relendo eu gosto como eu gostei quando li da primeira vez. No fundo, isso é bom, não é? eekops:

Beto Paschoalini

Inclusive com os comentários lol

Carlos Hafner
Carlos HafnerPermalinkResponder

Schmitt, Feira do Livro em Porto Alegre! Se estiveres por aqui no domingo 6/11, aparece na APAMECOR para o Galeto de 70 anos do Tupã-Ci! Grande Abraço!

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
Cancelar