Carregando o Karma

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Karma, o nosso guiaDe uma viagem à Ásia em janeiro de 93. Originalmente publicado em Postais por escrito.

De sarong e tudo, ele estava à nossa espera no aeroporto. Cartaz na mão, "Mr. Freire", Escort branco com ar condicionado e motorista unilíngüe a seu lado. "I'm your guide during your stay in Bali", disse ele, enquanto eu, vindo da civilizadíssima Cingapura, ainda me recuperava da volta abrupta ao Terceiro Mundo.

Esquisito: o que eu tinha pedido no fax da reserva era um simples trânsfer do aeroporto até o hotel; não sabia que vinha um guia grátis. Hã -- não vinha um guia grátis. A função daquele sujeito que foi nos buscar no aeroporto era nos constranger, e por que não nos obrigar, a agüentar a sua companhia e comprar seus pacotes pelo resto da nossa estada.

Como ele se ofereceu para reconfirmar a passagem, achei que alugar seus serviços por um dia seria uma boa troca. Mas um dia só. E um passeio só. E só depois de amanhã, que amanhã a gente quer ficar no hotel tomando sol.

No dia combinado — depois de amanhã — é que eu reparei no nome que estava escrito no crachá dele: Karma.

Karma já tinha um itinerário pré-estabelecido. Demonstração de dança barong, demonstração de ourivesaria, demonstração de entalhe, demonstração de pintura, demonstração de sei lá o quê mais e passeio a Monte Batur, com vista do vulcão.

Consegui trocar, de cara, a ida ao Monte Batur por uma excursão até Besakih, o templo principal da ilha.

Antes de chegar lá, no entanto, como gostei do ar condicionado do Escort, não vi nada de mal em tratar também um passeio para o dia seguinte, para os templos de Ulu Watu e Tanah Lot (foto abaixo).

Carregamos o nosso Karma, então, por dois dias, pra cima e pra baixo. Ele logo viu que não estávamos para demonstrações disso ou daquilo (na verdade, armadilhas para o turista comprar coisas que não quer e o guia faturar as comissões que quer) -- e cooperou, mesmo desapontado, nos levando por estradinhas des-lum-bran-tes pelo campo balinês.

(Aliás, ir a Báli e só ficar na praia é como ir à Itália ver show do Toquinho — no gênero, a gente tem coisa muito melhor em casa. Agora: subir a montanha é ascender ao nirvana. Terraços de arroz, coqueiros e bananeiras se misturam num imenso jardim como que cenografado pelo mais talentoso dos burle-marxes japoneses.)

No último dia, não apenas pagamos o nosso Karma, como ainda demos uma bela gorjeta para o nosso Karma. E então, libertos do nosso Karma, fomos jantar sob a lua e sobre a areia, em mesa de mármore e cadeira de palhinha, no restaurante do Tandjung Sari.

tanahlot450.jpg

28 comentários

Gabriela
GabrielaPermalinkResponder

Concordo com voce, em Bali vale a pena conhecer o interior da ilha e as montanhas, nao só praia. Na verdade as praias foram um pouco decepcionantes quando estive com 3 amigas em 98 (nossa, ja quase 10 anos!), mas os templos como Tanah Lot e Ulu Watu valeram a pena. Nos alugamos um carro tipo jipe e rodamos na cara e na coragem pela mao direita, e só quando furou o pneu soubemos que o carro nao trazia macaco nem as ferramentas necessarias para trocar o pneu (quem pensa nessas coisas com 20 anos de idade???). Enfim, um casal de balineses donos de um comercio na beira da estrada nos ajudou. O marido trouxe as ferramentas e trocou o pneu enquanto a senhora nos entretia com mil historias sobre a sua via (nada facil) de minoria catolica em uma ilha de maioria hindu.
Recomendo ir de Bali ate Gilli Islands, um grupo de tres ilhotas na costa da ilha de Lombok. É uma aventura chegar até la, mesmo com os passeios (meio)organizados em agencias de Bali. Mas é um lugar incrivel, onde o unico meio de transporte sao os burros, e onde as praias o e mar nao defraudam as expectativas de quem procura um lugar paradisiaco. A unica atividade é sair em barco para as outras ilhas e fazer snorkelling. A hospedagem custava uma ninharia (nao saberia dizer como esta agora, mas na epoca pagamos 6 dolares por tres noites - para 3 pessoas! - com cafe da manha incluido - cafe da manha=miojo com cubos de frango) e todas as noites havia festa em algum dos restaurantes-pousada em frente ao mar. Uma delicia, para aqueles que nao exigem luxo e mordomia.

SandraM
SandraMPermalinkResponder

Esse é um exemplo q não é só a intuição q conta na hora das escolhas. Experiência e informação são fundamentais.
Tô pensando aqui...não custava nadinha colocar uma fotinha (ainda q escaneada).
Descrever as estradas desta maneira e nos deixar com água na boca é muita maldade.
wink

SandraM
SandraMPermalinkResponder

Olha!Coloquei só um sinalzinho e ele transformou em carinha...Q bonitinho!!!
ESte blog tá muito chiq! E eu, muito inguinorante...
wink) ,smile, grin
Bjs,

Beth
BethPermalinkResponder

Oi Riq, voce viu isso?

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u333074.shtml

Beijinhos!
Beth

GiraMundo com Jorge Bernardes

Breaking news: eu estava no elevador, hoje, quando comentavam sobre essa notícia. Achei divertidíssimo e lógico me lembrei de você na hora.

Parece que a guerra começa a ganhar suas primeiras batalhas. Outro dia, num call center, o rapaz começou a falar "Sr. Jorge, a empresa X vai estar te lig..., ou melhor, a empresa entrará em contato para marcar". Eu falei "Ah, agora sim!".

GiraMundo com Jorge Bernardes

Se o Karma não tivesse sido simpático, eficiente e não tivesse o Escort com ar, dava pra denunciá-lo no Procon de Depansar (é assim que escreve?) por praticar "venda casada" wink

Gabriela
GabrielaPermalinkResponder

Sandra, bem que eu gostaria de colocar fotos, e tenho varias... Mas todas as minhas fotos estao no Brasil e eu moro na Espanha e ainda nao tenho uma casa com espaço pra trazer tudo pra ca... E como nao eram digitais, nao tenho acesso a elas estando aqui.
Concordo com voce que informaçao e experiencia sao necessarias pra viajar. Aquela foi uma viagem de mochila de 3 meses pela Nova Zelandia e Australia, e aproveitamos pra dar um pulinho em Bali. Sabiamos pouco antes de ir, aprendemos muito durante a viagem, com outros mochileiros. Foi uma viagem e tambem um aprendizado sobre viajar. Mas para a pouca informaçao que tinhamos, a viagem foi um sucesso. Tivemos muita sorte, e na Nova Zelandia e Australia, como existe tanta estrutura para mochileiros e é tudo tao organizado, nao tivemos problemas.

Marcio
MarcioPermalinkResponder

Hora que li a notícia tbm lembrei de vc!!!Rsrsrsrs!!!!

Não pude ir a Bali em 2000 quando havia programado e ainda morava na Australia porque houveram seguidos atentados na ilha uma semana antes. Ficou pra depois!!!

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Até onde sei os registros de nascimento em Bali tem apenas 10 nomes.
Não lembro mais quais são , mas funciona assim :
O primeiro filho se chama "primeiro", o segundo filho se chama " segundo"
e assim por diante . O segundo nome é escolhido pela propria pessoa.
Então o "Karma" é o segundo nome do motorista :roll: !

Quanto as "lojjiinhas" ..aprendi ( no Marrocos ) a tratar antes de contratar
o taxi que alem do preço ( e do que está incluido nele ) que não desejo
comprar nada e nem visitar nenhuma loja .
A outra coisa que ajuda muito é dizer que não falamos ingles, só espanhol
( com isso eles não ficam tagarelando o tempo todo ) smile

Bali é mesmo tudo de bom ! Fugindo de Kuta é tudo perfeito , e se
fosse possivel colocar um pedacinho da cratera de Santorini num cantinho
de Bali , e num outro cantinho uma prainha do nosso nordeste smile teriamos
o paraiso perfeito !! eekops: lol

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Não conheço Bali ainda, mas acredito piamente que seja tudo isso de lindo e mais um pouco. Agora, Riq, só vc mesmo pra ter um guia chamado Karma nas suas histórias para contar... lol

Rosa
RosaPermalinkResponder

Riq, acho que o governador Arruda é leitor do seu blog.
Ponto pra você.

Ivana
IvanaPermalinkResponder

Riq e pessoal do Rio,

De novo peço a sua ajuda. Vou ao RJ a trabalho participar de um Seminário que irá ocorrer na próxima semana. O evento será no Othon, Av. Atlântica, em Copacabana. Preciso de sugestões de lugar p me hospedar que fique próximo ao evento, ou que eu possa, no máximo, tomar um metrô p chegar com segurança.
Ressalto que a diária paga pelo meu órgão não é lá essas coisas, por isso o hotel ou pousada não pode ser muito caro.
Agradeço demais se puder me ajudar.

Hugo
HugoPermalinkResponder

Ivana, em agosto minha esposa foi para o Rio em um evento exatamente no Othon, e como a diária dela não era muito grande ficou no Savoy Othon Travel ( http://www.othonhotels.com/br/H00287/POR_index.asp ) , que fica na rua atrás do Othon e é da mesma rede de hotéis.

Os quartos são bem pequenos mas, segundo ela, dá para ficar sem problemas, e o melhor de tudo é que você pode ir para o Othon a pé e quando possível fazer uma caminhada pela orla.

Arthur
ArthurPermalinkResponder

Essa do Karma também está no Freire´s! O karma sempre volta... rsss

Ricardo Freire

Ivana, menos que 150 reais no Rio é muito difícil.

A dica do Hugo dos Othons 3 estrelas de Copacabana é boa.

Ainda em Copa o APA é famoso pelos preços camaradas
http://www.apahotel.com.br/pt-br/

Tem um ex-albergue no Bairro Peixoto que é simpático
http://www.edificiojucati.com.br
Tem quartos a 90 reais.

Em Ipanema, você pode tentar um apartamento com banheiro no albergue Terrasse, na Farme de Amoedo.
http://www.terrassehostel.com

Carla
CarlaPermalinkResponder

Karma?!? Riq, se eu não soubesse que essas coisas malucas acontecem, juro que ia achar que era invenção... lol

Carla
CarlaPermalinkResponder

Já estamos no ritmo da comemoração do milhão? grin

Fabio Nitschke Gomes

Carla, já tem um clima no ar, não? wink

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

Riq, eu achei aquela foto do templo inundado a coisa mais linda...
Se a maré subir não inunda? Ou ela já tava cheia na hora da foto?
Sério, achei mesmo muito lindo...
PS: pior que ter um karma de guia é ter um guia que canta descaradamente uma turista desacompanhada, no meio de um city tour, a ponto dela no retorno dizer tipo que ia descer na Barra e fugir da van no Centro... que situação...

Ricardo Freire

Tá na maré baixa, Mô!

Programei mal esse passeio -- na maré alta fica mais bonito; a pedra vira uma ilha.

http://www.indo.com/geo/tanahlot.html

Esse é o único templo de Báli que fica no mar. (Ulu Watu, que é outro que fica na costa, fica no alto de um penhasco). Os balineses não são muito fãs do mar, não. Acham que os maus espíritos vêm pela água. Eles cultuam o vulcão e os montes do interior.

(Já falei que é o lugar mais barato do mundo? Nunca é demais repetir.)

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Riq , hoje acho que o lugar mais barato do mundo é a Argentina eekops:

Ivana
IvanaPermalinkResponder

Riq e Hugo,

Obrigada pelas dicas. Será que se eu fizer a reserva por meio de agência, no caso dos Hoteis Othon, a tarifa sai mais barata?

Ricardo Freire

Acredito que sim, Ivana.

Majô
MajôPermalinkResponder

Ivana,
Em Copacabana eu indico muito o Majestic que fica na Rua 5 de julho que é uma rua sem saída, sem trânsito, tranqüila. http://www.majestichotel.com.br/apre_port.htm
É uma opção mais barata que Ipanema e Leblon. Eu indico bastante no meu trabalho para quem vem de fora. Telefone e peça para cadastrar o seu endereço profissional que tem desconto. Precisará enviar um fax com os dados da empresa, só isso.

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

Riq, uma tentação! Pena que a passagem aérea tb não é a mais barata do mundo.. sad
Fiquei apaixonada pelo lugar. Ah, imagina na alta.....

Ricardo Freire

Taí! Agora que percebi! Minha primeira referência ao que se tornaria uma obsessão anti-plástico na praia:

"...fomos jantar sob a lua e sobre a areia, em mesa de mármore e cadeira de palhinha, no restaurante do Tandjung Sari."

1993, pessoas! 1993!!!!!

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Riq: lol
Cada um com sua bandeira, mesmo, é coisa arraigada...a minha é 'Fora, jabá!' :roll: razz

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Riq, se procurares nas tuas fotinhos preto e branco de quando
eras beeem pequeninho vais encontrar uma em que estás sorrindo
sentado numa cadeira com mesa anã de madeira , e outra fazendo
biquinho de choro empurrando uma cadeira anã de plástico lol

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