Na carona de Gonçalo Cadilhe

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

planisferiopessoal

Semana passada eu terminei, muito contrariado, um livro que estava lendo a conta-gotas: Planisfério Pessoal, do escritor-viajante português Gonçalo Cadilhe.

Foi um presente da Isabel O. que eu demorei para abrir, mas que depois não queria mais fechar.

Em 2003, Cadilhe empreendeu uma volta ao mundo sem usar avião. (Ou quase: em dois pequenos trechos teve que voar.) Transmitia suas crónicas  semanalmente ao Expresso. O livro é uma antologia dos melhores momentos, selecionados pelo autor.

Passei o livro inteiro morrendo de inveja -- tanto da viagem quanto do poder do texto do cara.

Não sei se posso, mas vou transcrever um capítulo quase inteiro, em que o Gonçalo, a bordo de um barco no Laos, resume o que é viajar no século 21.

Uma balsa no Mekong
(...) O meu guia de bolso menciona a possibilidade de apanhar uma balsa de madeira em Huay Xai e navegar durante um par de dias o rio Mekong até Luang Prabang, a antiga capital do Laos. Depois das maratonas rodoviárias dos últimos dias, irá saber bem uma mudança de meio de transporte. Um viajante que segue no sentido contrário confirma esta possibilidade. Sugere: "Não apanhes as lanchas rápidas. São caras, perigosas e nunca param. São para turistas."

Não, eu quero seguir os ritmos lentos da vida do Laos, deslizar suavemente rio abaixo, rodear-me de costumes, palavras e comidas que não conheço e não entendo. Perder-me no país profundo e intacto. Mais sorrisos, menos solavancos.

Sorrio quando avisto a balsa de madeira ancorada no porto fluvial. Penso: "Se o que eu queria era uma experiência genuína, navegar 'naquilo' é o mais genuíno que há." Deixo de sorrir quando entro na balsa de madeira. Penso: "Enganei-me. Isto deve ser a lancha rápida." A dúvida não surge pela velocidade da embarcação, mas pelos passageiros que viajam nela: somos todos turistas.

Olho discretamente para os meus companheiros de navegação. O inglês é a língua franca a bordo, com algumas exclamações em italiano, francês, escandinavo, japonês. A carga é exclusivamente composta de mochilas, mosquiteiros, sacos-camas, tripés de vídeo, três guitarras, um par de congas. Os anéis no nariz e na língua, os cabelos entrelaçados, as roupas largas de cores psicadélicas, a garrafa de água sempre à mão, o CD com Bob Marley, a sandália de marca, o bloco de notas em papel reciclável, o guia Lonely Planet e o cigarro de marijuana caracterizam este turismo de massa alternativo que se sente tão diverso e que me parece tão previsível.

Resigno-me. Depois da esplêndida solidão das travessias oceânicas, das pequenas cidades pesqueiras da Nova Zelândia, do inverno gelado da China, agora mergulho nos fluxos turísticos do Sudeste Asiático. O que é engraçado no meio disto tudo é que, contra toda a evidência, todos nós mantemos intacta a percepção de estar a viver uma aventura inédita, a descobrir novas pistas exóticas, a viajar por onde quase ninguém viajou antes de nós. Aventura?

A verdadeira aventura nestes tempos que correm encontra-se em casa. Aventura é assumir um compromisso para a vida com a pessoa que se ama, meter a assinatura na hipoteca de um apartamento que nos põe a corda ao pescoço para os próximos 30 anos, conduzir nas avenidas portuguesas ao sábado à noite. Navegar na balsa de madeira do Mekong no profundo Laos?

Sim, a aventura acontece quando encontramos uma zona de remoinhos e rápidos. A embarcação ginga e geme, os escandinavos trocam olhares nervosos com os italianos, os israelitas com os japoneses. Observo os dois monges budistas e as três camponesas que viajam connosco. São os únicos clientes habituais da balsa. Faço como nos aviões quando há turbulência: observo as hospedeiras. Se elas parecem preocupadas, começo a preocupar-me. Os monges estão beatos e serenos como se estivéssemos ainda ancorados. Resignação budista? Ou confiança na balsa?

Comento com os meus companheiros de assento, um suíço e um americano: "Se isto vai ao fundo, seremos famosos -- faremos a primeira página dos jornais de vários países ocidentais." É uma piada, mas eles não acham muita graça. Ultrapassa-nos uma das lanchas rápidas a uma velocidade louca. Reparo que não viaja um único turista a bordo.

Não encontrei nenhum endereço habitual online de Gonçalo Cadilhe. Mas você pode ler uma boa entrevista dele aqui -- ou ainda se encaixar na viagem à Namíbia que ele vai guiar para a operadora portuguesa Nomad. (Outro grande escritor-viajante português, o Tiago Salazar, vai guiar uma a Cuba.)

28 comentários

Thiago Parente

Já pensou vc guiando um passeio a Fortaleza pela CVC?????

Denise Mustafa

olha, vou procurar esse livro aqui pelas livrarias do Porto.
e sobre o guia em fortaleza (minha cidade natal, que eu tanto sinto falta do caloooor) ia ser uma piada (como dizem os portugueses). rsrs. Principalmente pela CVC.......

Beto
BetoPermalinkResponder

Lindo, lindo! Soube-me muito bem a reflexão sobre aventura.

CarolBSB
CarolBSBPermalinkResponder

maravilhoso texto!

sylvialemos
sylvialemosPermalinkResponder

Adoooro de paixão os escritores portugueses !!

sylvialemos
sylvialemosPermalinkResponder

Mas vai dizer ? A maior aventura de todas é acordar todos os dias pela manhã , e voltar inteiro ( ou semi -demi ) a noite :roll:
É mesmo engraçado a gente encontrar tantas pessoas que escolheram o mesmo dia que a gente pra ir ao mesmo lugar ( mesmo que esse lugar esteja a 20 horas de voo de casa ) :cool:

Carla
CarlaPermalinkResponder

Que delícia de texto!!! Também amo de paixão os escritores portugueses... wink Vou investigar se consigo o livro por aqui...

Silvana
SilvanaPermalinkResponder

Muito bom isso. Lindo mesmo.
Deu vontade de ler.
Não encontrei nas livrarias daqui.
Não vou achar, né?
Um abraço,
Silvana

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Maravilhoso. Para anotar e (tentar) comprar.

PêEsse
PêEssePermalinkResponder

Quem encontrar primeiro a melhor/mais rápida/mais barata forma de comprar o livro avisa ao outro, combinado?

Ricardo Freire

A Livraria Cultura importa dois livros dele, mas não este.

sylvialemos
sylvialemosPermalinkResponder

hehe sem problemas, a gente gera-a-demanda :cool:
e aquela livraria virtual ? acho que a CarlaP usa ..

Carla
CarlaPermalinkResponder

Boa lembrança, Sylvia! Mas aquela só vende livros usados... De qualquer forma, vale conferir: http://www.estantevirtual.com.br

LUl
LUlPermalinkResponder

Há tempo procuro este livro ou No passos de Magalhães.
Quem sabe agora finalmente conseguirei com as dicas postadas aqui.

Malu
MaluPermalinkResponder

Que texto!!!! Bela escolha para um post.

Flavia
FlaviaPermalinkResponder

A Cultura não traz esse? como assim? fiquei puta agora!!! eu quero!! vou recorrer à "minha" divisão alfacinha no Twitter, hehehe (é para ler isso com uma entonação maquiavélica viu gente?)

Gabi, de Madri

To indo pra Lisboa mes que vem (outra vez, amo Portugal) por 3 dias e já está devidamente anotado, será a compra prioritária da viagem. Que texto delicioso... quero ler já! rs, rs

Martinha
MartinhaPermalinkResponder

Que texto delicioso de se ler..
Se vc morreu de inveja da viagem dele, imagine nos.. smile
=)

Denise Mustafa

eu vou procurar nas livrarias aqui do Porto e aviso pra vcs! Deve ter com certeza na FNAC daqui!

LUl
LUlPermalinkResponder

Obrigado pessoal!
Que bom que este blog voltou para cá. smile

Cora Rónai
Cora RónaiPermalinkResponder

Caramba, sensacional descoberta, Riq! E essa prosa lusitana é tão gostosa...

Isabel O., Portugal

Olá
Estive sem computador (vírus...)
Fiquei muito contemte por ver o "meu" livro aqui apresentado e o entusiasmo que ele provocou.
Quando passei o Natal em Ubatuba dei ao meu marido a versão "álbum" desta viagem (comprei cá, levei na bagagem). É um livro com mapas e imensas fotografias maravilhosas.
Ainda bem que gostou do livro, Ricardo. Quando o comprei, estava mesmo convencida que lhe ia agradar.
Ele tem muitos outros livros e lá continua viajando.
É da Figueira da Foz, conhecem? Não fica muito longe de Coimbra.

Rui Miguel
Rui MiguelPermalinkResponder

Olá!

É a primeira vez que visito este blog. E, resolvi escrever, pois sou um "fã" do Gonçalo Cadilhe. Todos os livros dele são apaixonantes e levam-nos a viajar pelo mundo, mesmo que no final de cada capítulo continuemos sentados nos nossos sofás... e com uma vontade incrível de partir (aquela vontade louca!). Todos os livros são extraordinários contos de viagens. Para quem deseja conhecer o que está do outro lado da colina, os seus livros podem ser detonadores de vontade definitivos. Tive um amigo que disse "Não os posso ler, são perigosos, e eu tenho família..." rs

Quanto ao Tiago Salazar , cujos livros, também são de digno recorte... aconselho a ir directamente ás páginas 274, 275, 276, 277 do seu livro "Viagens Sentimentais" só para aguçar o apetite.. belíssimo!

Boas leituras e óptimas viagens!

E, tal como Caetano: "minha sede não é qualquer copo de água que mata, minha sede é uma sede que é a sede do próprio mar"

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[...] Pessoal, de Gonçalo Cadilhe – esse livro foi dica do Ricardo Freire há um tempão atrás. Curti (adoro narrativas de viagem) e encomendei. É a narrativa da volta ao [...]

O que andei lendo – Planisfério Pessoal | From Lady Rasta

[...] livros nos encantam profundamente. Este é um deles. Demorei para comprá-lo, apesar do @riqfreire ter elogiado o dito cujo já ha algum tempo. Mas pensando bem, talvez a hora certa fosse exatamente [...]

Casal Dubaveli

Também li todos os livros dele. Sou apaixonada e viciada em viagens, afianl elas nos enriquecem tanto culturalmente como espiritualmente.
Consulte o nosso blog e seja seguidor:
www.viagensdocasaldubaveli.blogspot.com

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