In memoriam

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Minha crônica no Guia do Estadão de hoje.

acentosEsta semana fez seis meses que o Brasil – de maneira unilateral – adotou a reforma ortográfica. Você provavelmente já se acostumou. Tudo o que na estreia parecia uma má ideia foi gradualmente absorvido. A falta de circunflexo em algumas palavrinhas já não lhe causa mais enjoo. E você já dorme tranquilo sem fazer questão daquele sinalzinho rastaquera, o trema.

Aviões caíram, a nova gripe se alastrou, os escândalos do Senado não param de pipocar, Michael Jackson morreu – ninguém mais tem tempo ou paciência para discutir acento diferencial e regra do hífen. Só os muito conservadores, muito saudosistas e muito pentelhos ficam lamentando o fim do acento agudo no tritongo aberto.

Presente!

Sim, eu sou um desses cricris que não se conformam e se vestem de preto e mandam rezar missa toda sexta-feira em memória do chapeuzinho de “voo”. E a rapidez com que todos os que estão à minha volta aceitam tudo isso só faz aumentar a minha depressão.

O que dói mais (com acento, felizmente) é o fato de todo esse quelelê (e aí? Pronuncia-se o “u” ou não?) ser absolutamente inútil. Os portugueses não vão aderir a esse acordo nem aqui nem em Macau.

Se para (preposição) nós a reforma é uma chateaçãozinha menor, para (preposição) os lusos é a última das humilhações. Pense bem: que moral temos eu e você, que não sabemos escrever sem o corretor do Word, para (preposição) obrigar os caras a aposentar de uma vez todas as consoantes mudas que eles escrevem no automático, sem nem pensar a respeito?

O acordo extingue uma das peculiaridades mais bonitas da ortografia lusa, que é o uso do acento agudo para diferenciar o presente (“gostamos”) do passado (“gostámos”). Não é que os portugueses apenas escrevam assim; eles falam assim também. Por que aceitariam tamanho empobrecimento?

Enquanto isso, nós aceitamos sem nenhuma resistência que, em pleno 2009, o português escrito por aqui ganhe mais um verbo defectivo. Refiro-me ao verbo “parar”, que já não se pode mais conjugar em várias situações. Eu paro, nós paramos, eles param – mas a gente interrompe, você freia e ele dá uma paradinha.

Devia ser como o serviço militar, de onde você pode escapar alegando objeção de consciência. Se a Bahia pode ficar de fora do horário de verão, por que eu não posso ficar de fora do acordo? Estou montando um dossiê. Em 2012, quando escrever do jeito antigo der cana, vou pedir asilo ortográfico à França.

39 comentários

Marcie
MarciePermalinkResponder

Que fantástico! Genial! Além de esclarecedor - acabei de perceber que ando acentuando coisas que caíram de moda. Muito difícil acompanhar o #desacordo de longe....

Arnaldo - Fatos & Fotos de Viagens

Seremos dois asilados!

Alexandre Giesbrecht - AVIVIXE

Carimbo de aprovado pela Avivixe! E apoiado, aliás. Mas fico me perguntando se o Riq seria menos xiita caso não tivesse de lidar tanto com a palavra "voo"? wink

Igor
IgorPermalinkResponder

Sou seu fã! Belo texto!

Igor
IgorPermalinkResponder

Ah! E fiquei chateado ao abrir o Guia do Estado da semana passada e não encontrar sua crônica...

Ricardo Freire

É só quinzenal, Igor smile

Carla
CarlaPermalinkResponder

É como eu sempre digo (e repito - não fosse conservadora, saudosista e pentelha... lol ), antes alguns poucos sabiam escrever bem em português. Agora ninguém mais sabe... Por isso, eu continuo escrevendo do mesmo jeito de sempre, e faço a maior questão de colocar todos os acentos, tremas e hífens. Dou uma atençãozinha especial àqueles que dizem que não existem mais... mrgreen

Arnaldo - Fatos & Fotos de Viagens

Comunico a todos que a partir dessa crônica não estou nem aí pra escrever "errado" (segundo a nova ortografia). Sou mais um que escreverá segundo as normas anteriores à reforma. (na verdade eu só precisava desse "impulsinho"!)

Seremos dois asilados na França (puxa, que potencial pra se escrever!)

Marcie
MarciePermalinkResponder

tô nessa. MOVIMENTO CONTRA O DESACORDO!! Ou então: deixe-me escrever como escrevo e basta...

Carla
CarlaPermalinkResponder

Não sei se vocês já tiveram a chance de perceber na prática que há um efeito colateral gravíssimo a esse "desacordo". As pessoas não têm a menor noção de quais palavras "deveriam" ser escritas como uma única, sem hífen, ou de quais acentos caíram. Só pra ilustrar, já ouvi dois casos cômicos (tragicômicos, a bem dizer): que agora Ibéria não teria mais acento (?!?) e que "de repente" deveria ser escrito junto(?!?) Com a beleza de sistema educacional que temos no Brasil, não gosto nem de imaginar as conseqüências...

Alexandra Forbes

Riq, eu me solidarizo 100% Tenho inclusive ignorado o tal acordo muitas vezes, lá no Boa Vida, e por enquanto ninguém me prendeu. smile
Pelo menos alguém ergue a bandeira dos insatisfeitos, obrigada!

Emília
EmíliaPermalinkResponder

A Turista Acidental continua sendo um ponto de resistência, Riq! Apoio total ao #desacordo. Hunf!

Carla
CarlaPermalinkResponder

O Idas & Vindas também faz desobediência civil... wink

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Quero dizer...ao meu desacordo ao desacordo...que confusão lol

Carla2
Carla2PermalinkResponder

Eu tenho sempre a mão um guia da nova ortografia. Mas preferia não depender dele e continuar escrevendo como aprendi. E o primeiro livro que li com a nova ortografia, li aos tropeços: cada vez que me deparava com "ideia" e afins, tropeçava, engasgava e tinha que voltar a frase inteira...

Sensacional a crônica, Riq, adorei!!

Vanessa Nunes
Vanessa NunesPermalinkResponder

Riq,
Até tento aprender as novas regras mas está sendo quase impossível. Não consigo mesmo escrever "idéia" sem acento.
Antes, eu era uma daquelas pessoas raras (e agora extintas) que sabiam escrever. Agora, preciso consultar meu guia de colocação de hífen o tempo inteiro (o resto eu ignoro...)e não conheço mais ninguém que se sinta seguro na hora de criar um texto.
Também vou para a França... Aliás, seria uma boa mesmo!

Blog do Giva
Blog do GivaPermalinkResponder

Portugal já adotou ?

Blog do Giva
Blog do GivaPermalinkResponder

ainda tenho dificuldades

Rosa
RosaPermalinkResponder

Só vou me importar se tiver que fazer um concurso público. Antes, eu tinha certeza, agora, só tenho dúvidas ao escrever... 100% desacordo, ou, des-acordo.

Dionisio (www.blogdodionisio.wordpress.com)

Será que estava tão difícil assim a comunicação entre os povos de língua portuguesa, a justificar essa reforma?

Alexandra
AlexandraPermalinkResponder

Absolutamente apoiado!! Essa do verbo parar então, me mata. Juro que tenho que reler para poder entender, quando me deparo com ele sem acento sad

Daniele
DanielePermalinkResponder

Odeio essa reforma ortográfica!
Não gosto de ideia, voo, cefaleia, enjoo e por aí vai...
Coisa inútil!

Constance Escobar

Concordo, concordo, concordo!!! Me leva pra França com você em 2012, tá?

Ricardo Freire e a reforma ortográfica « Objetivando disponibilizar – a madrasta do texto ruim

[...] muito desta crônica que o Ricardo Freire postou hoje no blog dele, e está também nas páginas da edição de hoje do [...]

André Freire
André FreirePermalinkResponder

Fala primo. Genial. Como sempre.

Roberta Florido

Muito bom! Concordo plenamente. Pra mim, é muito estranho não usar mais trema, os acentos e sempre tenho que ler duas vezes para entender o sentido do "para" sem acento. Sou totalmente contra a reforma ortográfica!
Abs.

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

O pior de tudo é achar que estou escrevendo errado de qualquer maneira, dependendo apenas do ponto de vista... :S

Beto
BetoPermalinkResponder

E eu que não sei mais onde meter o hífen? Cês não sabem o que isso tem me causado de problema. Agora, falando sério, detesto babação de ovo, mas vai escrever gostoso assim lá na (damas, fechem os olhos) PQP! Mais e mais crônicas, Riq, sempre. Slurp! (pronto, enxuguei a baba).

Camilla
CamillaPermalinkResponder

apoiadíssimo!! eu, apesar de não poder me dizer saudosista (por conta da pouca idade mesmo!), estou profundamente entristecida que se tenham adotadas tão bárbaras 'novas' regras...
achei lindo o aliso ortográfico na frança smile
beijinho

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Vou deixar para aprender quando minha empregadora e as faculdades que dou aula me obrigarem, ou quando eu tiver filhos - se não me asilo na França tb! rsrs

Geo
GeoPermalinkResponder

Já que estamos todos saudosos de antigas "idéias" vou recorrer a uma metáfora conhecida: esse texto ficou uma BRASTEMP!!!!!!!!!!!

Dani S.
Dani S.PermalinkResponder

Onde é que a gente assina em baixo? DESOBEDIÊNCIA CIVIL JÁ!
E Riq, já que esse blog é seu mesmo, pode escrever do jeito certo (o antigo) que a gente entende (muito melhor) e aplaude!!

Majô
MajôPermalinkResponder

Eu dou o maior apoio !!! Levante já !!!!! Acho esquisitíssima a falta de trema em freqüente e acento em vôo.
Como a DaniS disse, no seu espaço, escreva como bem entender wink

Denise Mustafa

Apoiadíssimo Riq! Também acho que nem nós devemos mudar a nossa escrita nem os lusitanos. A forma deles empregarem as palavras e comunicarem-se é muito diferente, mesmo sendo uma mesma língua. Se são 2 culturas diferentes, dois países diferentes, porque temos que escrever de forma igual, já que falar nunca vamos falar igual mesmo?!
Eu acho lindo o facto (até pq se for FATO é outra coisa!), actualidade, redacção...
Também acho isso um #desacordo. Assino embaixo! E o Saramago tb tenho a certeza que sim! Ora pois, pá!

Beth
BethPermalinkResponder

Simplesmente GENIAL!! Amei!!
Beijos!

Simone
SimonePermalinkResponder

Qundo eu crescer quero escrever de maneira cool assim como você, com ou sem acento!

Paulo Degani
Paulo DeganiPermalinkResponder

Qdo tiver o dossiê, queria uma cópia pra pedir asilo na Itália. rsrs

Gustavo Maciel

A gente para para ler e tem que começar de novo pra entender.

Bruno Marques
Bruno MarquesPermalinkResponder

Eu quero aderir à luta deste saudosista. Sou muito a favor da causa e posso contribuir ainda com mais argumentos contra a mudança ortográfica.
Onde já se viu tamanho empobrecimento gramatical? Ainda bem que há esperança!
Aprendi do outro jeito e vou usá-lo até o fim de meus dias. Caso contrário, peço exílio na Europa também. Hehehe

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