Vizinhos

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Minha crônica no Guia do Estadão de hoje.

[caption id="attachment_6132" align="aligncenter" width="400" caption="De sacola e cuia, feira Tristán Narvaja"]De sacola e cuia, feira Tristán Narvaja[/caption]

O sujeito pegou o meu passaporte. Olhou para a minha cara para ver se conferia com a foto. Voltou a examinar o documento, como que procurando alguma coisa errada. Então me encarou e fez a última pergunta que eu esperaria ouvir fora do Brasil, num posto de fronteira entre dois outros países:

- Gremista?

O agente era uruguaio, mas tecnicamente ainda estávamos em território argentino. Para ser exato, no terminal de embarque da Buquebus, uma das duas empresas que operam a travessia do Rio da Prata entre Buenos Aires e Colonia del Sacramento. Para facilitar os trâmites, cada país mantém um posto de imigração avançado na outra margem do rio.

Na saída em Buenos Aires, o agente argentino confere a identificação, dá sua carimbada e repassa o cartão de entrada para o colega, ao lado. O uruguaio confere de novo e, pelo jeito, procura o lugar onde você nasceu para perguntar o seu time antes de carimbar.

Eu sou colorado, e ainda assim naquele momento me senti muito bem-vindo ao Uruguai. Achei que tinha sido alvo de uma deferência de vizinho. Não me passou pela cabeça que ele pudesse variar a pergunta – “Flamenguista?”, “Palmeirense?” – conforme o local de nascimento do passageiro.

Uruguai e Rio Grande do Sul são dois lados de um país que não existe. Uma espécie de Alemanha que não se lembra quando se dividiu. Uma Coréia que nunca vai conseguir se juntar de novo.

O Uruguai é um Rio Grande que deu errado – e por isso parece ser tão melhor. No fim de semana, perambulando por Montevidéu, várias vezes me senti perdido: que parte é essa de Porto Alegre por onde eu nunca passei antes?

Enquanto Buenos Aires não se cansa de arrotar Europa, Montevidéu se assume gaucha. Carne e mate são tratados com a necessária reverência. Sentado ao balcão de um restaurante do Mercado del Puerto você assiste ao “asador” pousar cada corte de carne num ponto determinado da grelha inclinada, como se estivesse escrevendo uma partitura.

Na feira dominical de Tristán Narvaja (onde se vende de alface a antigüidades, passando por coelhinhos vivos) você descobre que o corpo humano do uruguaio é composto por cabeça, tronco, membros e garrafa térmica. O tórax vem com encaixe anatômico para o cilindro de alumínio. O uruguaio consegue fazer qualquer coisa – feira, por exemplo – sem largar a cuia de chimarrão.

E é incrível como, juntos, tenhamos dado tantos nomes à MPB. Lupi, Elis, Calcanhotto. E agora... Jorge Drexler.

20 comentários

Luciana
LucianaPermalinkResponder

Riq
Parabéns atrasado. Muitas felicidades.
Ontem, eu poderia ter falado com vc pessoalmente.
Vi vc comemorando no Carlota, com seus amigos, mas fiquei com vergonha de te abordar. Eu estava com meu marido, que também fez aniversário ontem!
bjs, de uma fã que também está de dieta (te enviei outro dia um agradecimento pela nutricionista).
Luciana

Zé Maria
Zé MariaPermalinkResponder

Quem gosta de invadir é o MST, né Luciana? wink

Carla
CarlaPermalinkResponder

MPB, sem dúvida! Ano passado, quando eu estava na Califórnia, ouvia Drexler direto pra matar as saudades do Brasil - vai entender... eekops:

Sabe que eu até me acostumei a ver o povo carregando a garrafa térmica pelas ruas, feiras e shoppings, numa boa, mesmo no maior calor? Mas na praia não teve jeito - toda vez que eu via alguém atracado com a garrafa sob o sol, os meus instintos cariocas mais arraigados achavam aquilo esquisitíssimo!!! Choque cultural... wink

ricardo
ricardoPermalinkResponder

Gozado, eu tenho uma simpatia muito grande pela sul do Rio Grande do Sul (Rio Grande, Santa Vitória, Jaguarão) e uma antipatia por Porto Alegre ( tão metida à ser melhor que Buenos Aires, que se acha melhor que Paris ). Seu post me dá uma sensação de que não estou errado. Abs

Dionísio (www.espacovital.com.br)

Como portoalegrense, nunca tinha ouvido que Porto Alegre se acha melhor que Buenos Aires. Pelo contrário, acho o portoalegrense "vidrado" na capital argentina, desejoso de estar lá, talvez até aspirando que a cxapital gaúcha seja parecida com Buenos Aires.

Não dá pra negar que existe uma ligação forte entre ambas as cidades. Prova disso é que músicos, cantores e bandas argentinas, para ganharem o mercado brasileiro, têm que primeiro passar por Porto Alegre. É comum vermos shows de bandas argentinas que lotam estádios por lá fazendo shows intimistas em Porto Alegre, sem sequer se aventurar a ir a outras capitais brasileiras.

Os eventos culturais "Buenos Aires em Porto Alegre" e "Porto Alegre em Buenos Aires" reforçavam essa aproximação e, hoje, a Bienal do Mercosul (que, aliás, está acontecendo aqui em Porto) é um espaço ocupado por muitos argentinos.

Sinceramente, não vejo sentimento de superioridade em porto Alegre, mas sentimento de igualdade.

Ricardo Freire

Também não entendi essa de POA se achar melhor que BUE.

Os acessos de arrogância do gaúcho normalmente são voltados pra Santa Catarina...

Luis
LuisPermalinkResponder

E você respondeu pro cara da imigração: Bahhhh, eu sou colorado, tchêê... rs rs. Aliás é uma curiosidade que eu tenho. No Uruguai eles tem essas expressões que chamamos gaúchas ou falam com sotaque parecido?

Dionísio (www.espacovital.com.br)

Sim, no Uruguai eles usam várias expressões "gauchescas" - que usamos aqui no RS também -, mas falam com sotaque castelhano mesmo.

Vera Lucia
Vera LuciaPermalinkResponder

A sensação é que os uruguaios são um povo pacífico, conformado, sem necessidade de mudanças, pode-se constatar candidatos a presidência.

Gustavo - Viajar e Pensar

Realmente senti um grande apego ao Uruguai, povo hospitaleiro e gentil.
teve um dia que os Garçons, estavam na nossa mesa num restaurante contando suas piadas de Argentinos.
Conheçam o Uruguai vale apena.
Abraço ebom feriados a todos.
PS: previsão de Feriado com muito sol aqui na Bela ilha de Santa Catarina!!!

Arthur
ArthurPermalinkResponder

Que os uruguaios não me ouçam, mas deveríamos ter mantido a Província Cisplatina. Assim, além do Uruguai continuar sendo nosso, não teríamos perdido a copa de 1950 e seríamos hexa...
Curiosidade: na ditadura, os militares planejaram invadir o Uruguai em 1973 para acabar com os tupamaros, mas a invasão foi prematuramente encerrada devido à crise do petróleo. Os tanques ficaram sem combustível. Sério...

Arthur
ArthurPermalinkResponder

PS.: o plano acima foi revelado pelo coronel Dickson Grael, pai dos iatistas Torben e Lars Grael, que sempre se opôs a tudo isso, numa entrevista à Veja em 1986.

Lourenco
LourencoPermalinkResponder

Jorge Drexler. Quem nao conhece deveria conhecer. O cara eh muito bom, musica inventiva, violoes e melodias sublimes.

Uruguai. Escute "Un pais con el nombre de un rio". A letra letra resume bem o que a maioria pensa sobre nosso querido vizinho. Emocionante.

Ah, o Drexler mora em Madrid.

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André
AndréPermalinkResponder

No Uruguay eu já vi gente andando de bicicleta e servindo o mate amo mesmo tempo... os caras são profissionais smile

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