Cúmplice

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Minha crônica no Guia do Estadão de hoje.

papainoelOutro dia descobri, chocado, que meu sobrinho de sete anos ainda acredita em Papai Noel. Como assim? O guri assiste ao Discovery Kids com áudio original. Entra sozinho naquele Orkut de pingüins para criança. Viu meu iPhone sobre a mesa, pediu emprestado e saiu rodando um videozinho da família comendo pizza. Até que idade uma criaturinha high-tech pode ser mantida nas trevas da carochinha natalina?

Acreditar em Papai Noel depois dos seis me parece tão bocó quando continuar virgem depois dos 18. (Se você pensou em algum outro número para o fim da frase, entenda-se com seus advogados.)

Se eu tivesse filho é bem provável que acabasse mudando de opinião – mas aqui de fora eu não entendo qual seria a utilidade moderna de contar uma mentira que um dia será inevitavelmente descoberta, muitas vezes de forma dolorida.

Que eu saiba, falar de Papai Noel não atende a nenhuma função pedagógica. Não é que nem a Cegonha. A pergunta “De onde vêm os presentes?” não é lá tão difícil assim de responder, mesmo para crianças de menos de dois anos. É simples: papai e mamãe trabalham, ganham dinheiro e vão no shopping. Quem não se comporta não ganha. Pronto. (Já Bicho-Papão e Cuca são incomparavelmente mais úteis. Deles eu não abriria mão, não.)

Mesmo o Coelhinho da Páscoa é mais fácil de aceitar. Os criadores do personagem foram mais inteligentes e fizeram o bichinho passar rápido e sorrateiro pelas casas, sempre no horário em que as crianças trazidas pela Cegonha estão dormindo, aterrorizadas pelo Bicho-Papão e pela Cuca. A história faz algum sentido, entende? Não tem aquela pantomima de ir dar uma volta para ver se encontra Papai Noel na rua e, na volta, descobrir que o velhinho tinha acabado de passar por lá.

Uma vez até dá para engolir,mas – TODOS OS ANOS?

Se bem que... talvez o meu sobrinho já não acredite em Papai Noel. Pode ser que ele apenas esteja naquela fase em que é preciso continuar enganando a irmãzinha mais nova. Eu também passei por isso. É a primeira situação realmente embaraçosa que a vida te impõe. Você acabou de saber que foi feito de trouxa por anos a fio, e agora precisa ser cúmplice dos pais.

O pior é que contar a verdade é ainda mais desagradável. A única maneira digna de descobrir que Papai Noel não existe é sozinho, por intuição e dedução. Ops. Crianças de sete anos que ainda acreditam em Papai Noel não lêem crônicas no final de guias de programação cultural, lêem?

26 comentários

Lili-CE
Lili-CEPermalinkResponder

Riq, essa crônica está ótima! Minha mãe mesmo é traumatizada e por isso nunca deixou a gente acreditar em Papai Noel. A Sara ainda acredita... Bjocas e feliz natal!

Zé Maria
Zé MariaPermalinkResponder

Riq, você de certa é um Papai Noel. A gente sonha nas suas viagens TODO O ANO, e tenta realizar algumas. Por falar nisso, tô de saida pra Itacaré, eu minha mulher e filha... de carro... dois mil km... Tem louco pra tudo, né? smile

Mariana "de Toledo" _ @merel

Se um dia eu vier a ter filhos, eu vou falar a verdade. "Ó, tem uma lenda aí de Papai Noel, quer acreditar, acredita - problema teu". Ok, com um pouquinho mais de tato. Mas lembro bem de quando as meninas da 2ª série no colégio falaram para nós da 1ª que ele não existia, só pra sacanear. Foi terrível. Quando, num domingo, perguntei para a minha mãe se era isso mesmo, foi um dia muito triste. Depois da confirmação de que era mentira, de fato, eu só consegui balbuciar: "Mas... nem as renas...?" sad

Ana Claudia
Ana ClaudiaPermalinkResponder

Riq, adorei sua crônica.
O MIguel e eu nunca deixamos nossos filhos acreditarem em Papai Noel. Primeiro que os filhos tem que saber que os presentes são frutos do trabalho dos pais, e depois, para não passarem pelo trauma da descoberta da mentira.
Acho que deu certo.
Beijos.

Marcie
MarciePermalinkResponder

E se, na sua infinita sabedoria, seu sobrinho "decidiu" acreditar em Papai Noel por mais algum tempo? E se, esperto como você diz que ele é, ele percebeu que quanto mais tempo ele conseguir ser criança melhor pra ele?
É uma possibilidade, não? And a real good one, I think! wink

Paula Bicudo
Paula BicudoPermalinkResponder

Totaly agree, as vezes a criança quer acreditar, quer da ruma esticadinha na infância. Ele só tem 7 anos, por mais high-tech que seja. Se for assim, temos que começar a contar que não existem fadas, princesas,super-heróis, etc...um dia a gente descobre sozinho que não existem e pra falar a verdade não me traumatizei por isso não.

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

lol
lol
Eu sempre ajudei o papai-noel a colocar a roupa ( e a barba).
Depois ele surgia do telhado com um saco vermelho .
Eu adorava isso e sempre fiz o mesmo com as crianças.
É mágico e pé-no-chão ao mesmo tempo.
( e daí fiquei assim essa criatura esquisita, meio aqui, meio lá)

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Guilherme Lopes

Han?

Como assim que Papai Noel não existe?

E aquele velhinho que esteve aqui ontem? Tudo bem que o sapato dele era igual ao do meu pai.

Mas esse calçado estava na promoção mesmo, todo mundo tem um igual.

; )

Hô Hô Hô!

Vera Lucia
Vera LuciaPermalinkResponder

Eu acreditava, até o dia que encontrei o presente dentro do armário. Sem traumas. Deixei que meus filhos acreditassem. Eles ficavam ansiosos aguardando a chegada de Papai Noel. E qual é a mãe que não gosta de ver os filhos felizes? É a magia da infância. Eu gosto.

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Acho lindo ter um pe la e outro aqui ao mesmo tempo, independente de ser crianca ou nao. Um sabio seu sobrinho, isso sim mrgreen

Majô
MajôPermalinkResponder

Também acreditei em Papai Noel até descobrir que os presentes estavam guardados no armário, sem traumas.
Acho uma época deliciosa e mágica para qualquer criança wink

Alexandre Giesbrecht - AVIVIXE

Carimbo de aprovada pela AVIVIXE!

Léo
LéoPermalinkResponder

Oi Riq!
Estive no DPNY em Ilha Bela e colei algumas fotos em http://leonelaranha.wordpress.com/

Roseli
RoseliPermalinkResponder

Realmente, para quem não tem filhos é complicado imaginar como funciona o imaginario infantil. E o Papai Noel faz parte dele. Minha filha tem 8 anos, tem seu proprio netbook, já viajou para muito países e hj esperou o papai noel colocar a boneca na árvore. Não vejo nenhum problema nisso. Sonhar faz parte da idade e acreditar em fantasias tb. Vejo problemas em adultos que vêem problemas nisso e precisam mostrar aos filhos que pagaram pelos presentes que ganharam. Minha filha sabe que eu pago contas, escolas, cursos, alimentação, vestuário e lazer. Um presente no final do ano pode ser crédito do Papai Noel.

ELEONORA
ELEONORAPermalinkResponder

O Papai Noel vem aqui em casa toda a noite do de 24/12. Momento magico, que ADORAMOS. Feliz Natal!!!

Rodrigo Dantas

Somos engraçados mesmo, reclamamos às vezes quando temos uma inocência perdida com alguma criança, e ao mesmo tempo temos a preocupação em matar os "mitos" e lendas que circulam nessa idade, porém acho que enquanto inocência e verdade caminharem juntas - estaremos ganhando. Deixa acreditar pessoal...essas crenças também fazem parte da nossa evolução. Palavra de quem já acreditou em Papai Noel. Acreditamos às vezes até na hora de votar em políticos...quá.

Cláudia Holder

Adorei a crônica! E também não venho nenhum sentido em fazer as crianças acreditarem em Papai Noel... por que os adultos gostam de enrolar as crianças?

Juliano
JulianoPermalinkResponder

Parabéns pelo blog! Ele me motivou a começar a escrever sobre minhas viagens!!! Se tiver um tempinho, dê uma olhada... ainda estou no início... tenho muito pra escrever... Se você puder colocá-lo no outras viagens seria ótimo: http://viajandoeviajando.blogspot.com

JULIO CORRÊA
JULIO CORRÊAPermalinkResponder

Eu acreditei no bom velhinho até os 8 anos. Mas eram os anos 60, vc sabe, época de inocência...e a viagem só acabou pq peguei meus pais colocando os presentes que eu havia pedido próximo a janela.
abraço

Jorge Bernardes

Como assim? Papai Noel não existe?
Você me ajuda a organizar as viagens e depois conta o segredo?
Você acabou de arruinar minha viagem de Natal de 2010 para a Lapônia!!!!

Domene
DomenePermalinkResponder

Não me lembro a idade (5 ou 6 anos?), mas em um natal minha filha ficou falando no papai noel e eu e minha mulher fomos falar com ela:
- Filha, você sabe que papai noel é só uma história, não sabe? Ele não existe de verdade...
- Eu sei pai, mas é que é gostoso de acreditar.

Pronto, problema resolvido para todas as partes.

Marcia
MarciaPermalinkResponder

Ah, deixa a criançada ser feliz, gente!!! Depois tudo fica tão difícil...
Feliz Ano novo a todos!
Marcia

Sílvia Soares

A gente está sempre acreditando em coisas que não (?) existem: cegonha, amor eterno, promessas de Ano Novo, políticos bem intencionados, infiéis regenerados, doces com baixas calorias. Papai Noel é apenas a mais inofensiva delas - e que eu sempre me permita continuar acreditando no improvável, no que não se vê. Isso me lembrou Quintana: "Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas!

Marcia Palhares

Foi assim que eu descobri. Por intuição. Sem traumas. Não tenho filhos, mas deixaria que eles acreditassem sim, depois descobrem e pronto!! Continua tudo bem, e os presentes chegando!!!

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