Utzon, o fantasma da Ópera

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ópera de Sydney

17 de janeiro de 2005. Em 1957, um jovem arquiteto dinamarquês chamado Jørn Utzon se inscreveu no concurso mundial que escolheria o projeto para a nova Ópera de Sydney. Quando seu projeto foi escolhido, ninguém poderia imaginar que o prédio viria a se tornar o símbolo de Sydney, o ícone maior da Austrália e provavelmente o edifício moderno mais fotografado do planeta.

Não, quem diz isso não sou eu – é Louise, a simpaticíssima guia do tour de uma hora pelo interior do prédio. (Aliás, dos prédios – só de perto é que a gente nota que a Ópera de Sydney é formada por três edifícios: um teatro maior, um menor e um restaurante.) Louise é bonita, carismática e sincera: não esconde nenhum dos podres da história para nós, que pagamos 25 dólares australianos (50 reais) por cabeça e queremos saber tudo, tintim por tintim. Sentados na galeria do teatro principal da Ópera, somos informados que, uma vez escolhido o projeto arquitetônico, se passaram alguns anos até que todos os detalhes de engenharia e acústica pudessem ser resolvidos. Nesse meio tempo, a oposição venceu as eleições para o governo de Nova Gales do Sul – e os novos mandarins, achando o projeto muito caro, resolveram meter o bedelho e cortar custos aqui e ali.

Contrariado, Utzon apresentou uma carta de demissão – achando que não seria aceita. Mas foi, e o projeto foi acabado por uma comissão de engenheiros australianos que desfigurou bastante os interiores desenhados por Utzon. O dinamarquês não veio à inauguração do prédio, em 1973 – e nem depois, por mais que tenha sido convidado. Há coisa de dois ou três anos o governo australiano voltou a manter contato com Jørn Utzon, e ele aceitou fazer um projeto de reforma dos interiores da Ópera. Um desses ambientes já está pronto – um pequeno foyer, com vista para a baía, batizado com o nome do arquiteto.

O engraçado é que só quando você entra nesse ambiente, de chão de madeira crua e teto sem forro, com todas as estruturas aparentes, é que você percebe a breguice dos carpetes e acrilicos de (alguns dos) outros ambientes. Mas nem depois de fazer as pazes com o governo Utzon se digna a deixar sua casa em Maiorca, na Espanha, para visitar seu filho mais famoso. Segundo Louise, ele alega medo de avião – uma desculpa deveras niemeyeriana. A propósito – se de longe a Ópera parece um veleiro, um pássaro ou um trailer do Guggenheim de Bilbao, de perto a gente não em como não pensar numa Pampulha gigantesca.

Na sua recusa em visitar Sydney, no entanto, o dinamarquês se revela bem mais profissional que Niemeyer: Jørn Utzon acredita que um prédio só é bonito de verdade quando você tem prazer de entrar nele.

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10 comentários

Meilin
MeilinPermalinkResponder

É uma historinha muito parecida com a que anda acontecendo aqui no Rio com a Cidade da Música: apesar de detestar a administração que contratou sua construção e ser um projeto polêmico pelos custos e proporções faraônicas, acho que a idéia é maravilhosa (como a cidade; e o rio precisa e merece um lugar que ofereça o melhor da música para ouvir, estudar, apresentar, discutir, ensinar e adornar ainda mais nosso balneário smile

Carmen
CarmenPermalinkResponder

Adorei a história da Utzon e do seu projeto, a Ópera de Sydney, em a Bahia de Jackson.
A história e como os contos infantiles repletos de anedotas para manter fresca a imaginação e deixar voar aos sonhos.
Utzon, o fantasma da Ópera!!!

Diogo
DiogoPermalinkResponder

Só uma pequena atualização: Jørn Utzon faleceu no fim de 2008, aos 90 anos de idade.

Ricardo Freire

Obrigado por informar!

Fatima
FatimaPermalinkResponder

Riq e tripulacao voces teriam sugestoes de hoteis bbb em Sydney? Minha filha faz intercambio em Brisbane e pretende ir pra la no fim de semana. Agradeco a todos e se tiverem dicas pra conhecer a ciade em dois dias...

Ricardo Freire

Essa rede é low-cost estilosa: http://www.eighthotels.com/

Eu fiquei no Altamont. O mais barato é o Pensione.

Michelle
MichellePermalinkResponder

Olá Ricardo!
Adorei o post e a história sobre a òpera de Sydney.
Comecei um blog sobre viagem e arte este há alguns meses e queria te convidar pra visitar!
Bj!
www.viajenaarte.com.br

Jorge Bernardes

Como é gostoso ler estes posts do passado. Leio tudo de novo e me divirto de novo. Nessa época, acho que você tinha mais tempo para escrever, estou certo?

Ricardo Freire

Pior é que não, Jorge! Pense que eu tava viajando numa época de internet e computadores lentos! Era pesado sacrificar umas horas do dia pra ir a um cybercafé e blogar, transferindo imagens por CD... digamos que o Nick não curtia muito mrgreen

Luciano
LucianoPermalinkResponder

Belíssimo post Riq. Também fiz esse passeio por dentro do Sydney Opera House, que é belíssimo. Infelizmente, John Urtzon faleceu em 2008. O velório foi feito dentro do Sydney Opera House. Hoje o responsável pela obra de arte é o seu filho, que também é arquiteto.

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