Fraldão (minha crônica de hoje no Guia do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

No bloco Fogo na Cueca, no Bairro Peixoto

Ipanema, Rio, 10 da manhã da segunda-feira de carnaval. Por toda a avenida beira-mar ainda se vêem vestígios da passagem do Simpatia é Quase Amor, o megabloco que saiu na véspera. Deu no jornal que o carnaval de rua do Rio já tem mais foliões que o de Salvador. Eu acrescentaria que os blocos maiores estão ficando quase tão grandes quanto o Galo da Madrugada, do Recife – aquele que está no Guinness como o maior da Terra.

Entre os detritos de carnaval dos quais os banhistas precisam desviar estão três ou quatro bolsões de banheiros químicos instalados no calçadão. Fedem tanto que provocam ânsia ao coitado que passe a um metro de distância. A fedentina capturada durante a noite agora cozinha sob o sol, transformando-se numa bomba de gás paralisante sabor xixi. É doloroso imaginar que aquilo tenha sido produzido por pessoas ordeiras, que usaram o banheiro em vez de se aliviar na sarjeta. Aquele xixi é um xixi bem-comportado, um xixi igual ao seu e ao meu – não é que nem o xixi maloqueiro dos que acham que parede é penico. Você passa por ali e promete nunca mais fazer xixi na vida.

Só pode ser essa a função dos banheiros: estimular o nosso corpo a uma mutação genética que leve à sublimação do xixi. A continuar assim, daqui a um ou dois milhões de anos nasceremos com bexigas químicas, cujo odor certamente vai precisar ser disfarçado com perfume francês químico também.

Enquanto isso não acontece, o folião no carnaval do Rio de Janeiro precisa escolher entre o inferno do banheiro químico ou o xilindró. A mesma prefeitura que vendeu o carnaval de rua a uma marca de cerveja decretou a caça impiedosa a todos os que consumirem o produto do patrocinador e não conseguirem enfrentar a barra pesadíssima dos banheiros químicos. “Prendem os mijões e deixam os ladrões à solta”, como vi reclamarem no Twitter. O tiro saiu pela culatra: o carnaval de 2010 criou uma geração com trauma irreversível de banheiro químico.

É que, junto com o tal do Choque de Ordem, a prefeitura do Rio esqueceu de implantar um Choque de Higiene. Olha só, seu prefeito: tão obrigatório quanto instalar banheiros químicos é dotar cada bolsão com uma equipe de limpeza de plantão que passe 24 horas deixando as instalações próprias para uso do eleitor.

Ou isso, ou ano que vem aproveitem para vender o co-patrocínio do carnaval de rua a alguma marca de fraldas geriátricas.

26 comentários

Maria das Graças

Na segunda-feira de carnaval pela manhã, ainda cedo, sai do Leblon e a minha intenção era caminhar pela orla até o Arpoador. Impossível! A fedentina de xixi cozinhando era insuportável mesmo, Riq. Que horror! Mas a melhor mesmo vi no jornal de ontem, e não quis acreditar. O Fraldão, destinado ao público masculino, disponível também na urla. Voce vê o fulano fazendo o seu xixi de costas protegido por uma porta, um tipo de mini-saia. Se a moda pega!

Ju Afonso
Ju AfonsoPermalinkResponder

A geração com trauma de banheiro químico nasceu não só no Rio, mas em toda cidade com um carnaval de rua que o valha. Passei o feriado em Diamantina, cidade com uma das maiores festas de carnavais de Minas, e era a mesma coisa: banheiros químicos nojentos e prisão e multa de 100 reais para quem se aventurasse por algum dos "becos do xixi".

No último dia, um taxista me disse que demorava mais ou menos um mês pro cheiro acabar completamente. Tive dó dos moradores...

Abraços!

Arthur | Agora Vai

É doloroso, mas eles podem ter uma idéia muito pior: obrigar todo mundo a usar sondas uretrais (*AI!*)

Gustavo - Viajar e Pensar

É o verdadeiro ruim com, pior sem.
Carnaval, Reveillon, deixam no ar literalmente um cheiro de pós festa.
Difícil mesmo deve ser para os visinhos dos banheiros.

Claudio Sena
Claudio SenaPermalinkResponder

Texto lúcido e real.

Patricia Braga

A Prefeitura do Rio bem que poderia ter uma aulinha sobre banheiros químicos com o pessoal que organiza os shows no Estádio do Morumbi, em São Paulo.
Estive no show do AC/DC no ano passado e fiquei encantada com a limpeza, organização e higiene dos banheiros químicos disponibilizados ao público do gramado. Cada unidade tinha luz, cheirinho de desinfetante, papel higiênico e - pasmem! - um dispenser com álcool gel!!!
As excelentes condições dos banheiros químicos do Morumbi perduraram desde a abertura dos portões até o término do show, pois uma equipe de limpeza fazia constante manutenção nos mesmos.
Nota 10!

Helio Salema
Helio SalemaPermalinkResponder

O carnarval do Rio era excelente há uns anos atrás. Já morando em SP, ano passado levei amigos paulistas para curtir o carnaval carioca e já estava infernal. Os grandes blocos pareciam procissão, vc só conseguia escutar algum sinal de samba muito longe. O único bloco grande que conseguimos curtir foi o Cordão do Boi-Ta-Tá, que deixou de ser bloco pra fazer um mega baile no Paço Imperial.

Gustavo - Viajar e Pensar

Lembrei que existe uma empresa aqui em Floripa com os Banheiros de Luxo.
http://www.banheirosdeluxo.com.br/index.php/Main/home

Abraço

Dani Polis
Dani PolisPermalinkResponder

De nada adianta ter o banheiro e não ter a manutenção! O cheiro fica insuportável. Coitado de quem bebe cerveja! (que é altamente diurético).

Denise Mustafa

e no de Salvador é a mesma coisa.
eca!!!!

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Otimo texto. E, plisss, que usem do bom senso logico no Choque de Higiene do ano que vem e nao venham com a ideia do Arthur mrgreen

Hugo
HugoPermalinkResponder

No Brasil tudo funciona por etapas. Já colocaram os banheiros, agora falta darem manutenção.

De qualquer forma, já é um começo e uma esperança de que as coisas melhorem nas próximas festas.

João
JoãoPermalinkResponder

Super!!!

Amélia
AméliaPermalinkResponder

Em São Luiz do Paraitinga era a mesma coisa acrescido do cheiro da cerveja que ficava nas latas ou derramada no chão fermentando... Uma pena ... Precisamos de uma solução urgente já que o problema está globalizado!!!
Como é na Alemanha durante a Oktoberfest?

Lucia Malla
Lucia MallaPermalinkResponder

Amélia, eu estive em Munique numa Oktoberfest e uma das coisas q mais me impressionou foi exatamente a limpeza dos banheiros. Nos pavilhões onde a cerveja corre solta, os banheiros tinham funcionários o tempo todo dando manutenção, o banheiro era um brinco sempre. Achei inacreditável q numa festa daquele porte, com tanta gente, eu tenha conseguido ir a um banheiro limpíssimo. Saí de lá realmente impressionada.

Amélia
AméliaPermalinkResponder

Legal, sempre tive esta curiosidade e enquanto não desfruto das cervas de lá, torcemos para melhorar os banheiros daqui!!!

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Eu já havia dados os parabéns pessoalmente - clap clap clap!!! Fiquei passada de saber que ainda tinha gente cobrando para guardar lugar na fila!!!
Felizmente bebo destilados mas apoio totalmente o benchmarking. wink

Guilherme Lopes

A empresa que patrocinar uns banheiros desse tipo ( http://www.banheirosdeluxo.com.br/index.php/Main/visGaleria/1 ) no ano que vem, vai ter um baita retorno com a população.

Porque não reunir todo mundo que ganha algo com o carnaval e dividir essa conta?

; )

Juliana Amorim

Guilherme, estes banheiros são parecidos com os usados no Cirque se Soleil. Riq, assino embaixo que tem que ter limpeza dos banheiros espalhados nas ruas durante o carnaval.

Oscar
OscarPermalinkResponder

Porque os Ilustrissimos governador e prefeito nao convidaram a Madonna para conhecer eases banheiros quimicos??
Bem se Vancouver que e Vancouver esta sendo criticada pelas falhas na organizacao dos jogos olimpicos de inverno eu fico so pensando quao tenebroso sera o vexame em 2016.

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Na virada do ano , o xixidódromo de Copacabana , na altura do Forte estava limpeza .

Usei antes da virada ,e no dia primeiro
depois do meio dia , continuava usável.

Fico pensando .. será que foram fornecedores de quimica de banheiro diferentes , no reveillon e carnaval ?

Ou será que o xixi de champã cheira diferente do xixi de samba-suor-e-cerveja ?

Érica França

Olha, Riq, isso só me deixa com menos vontade de frequentar o carnaval de rua. Beijo.

Tomas
TomasPermalinkResponder

Vamos fazer como no filme o Banheiro do Papa.
Montamos um negócio que é R$1,00 para nº1 e R$5,00 para nº2.
Com direito a toalha de papael e banheiro limpo.
Vamos ficar milhonários.

Ou então, bora dar um mergulho pra aliviar.

Lena
LenaPermalinkResponder

Riq, lol lol

Queria saber como funcionam aqueles banheiros públicos das cidades européias. Eu cheguei a usar algumas vezes. No começo tinha horror, achava que era sujo e fugia deles. Mas uma vez não tive como evitar. Era o único banheiro disponível na estação de trem de Barcelona. Enquanto esperava do lado de fora o outro usuário sair, dei uma lida nas instruções e vi que aquele ambiente se autoesterilizaria automaticamente, assim que ficasse vazio. Uma luz vermelha se acenderia durante o processo, indicando que eu teria que esperar para entrar. Quando entrei, não acreditei. Estava limpíssimo!! nenhum cheiro, nenhum vestígio, nada. Chão e paredes limpos pela água quente que jorra no seu interior. Era algo assim que deveriam espalhar pelas cidades carnavalescas.
Encontrei ruas fedidas devido aos banheiros químicos até em Galinhos!! sad

Malu
MaluPermalinkResponder

Eu usei em Paris um desses banheiros que se autoesterilizam. Maravilha de limpeza quando vc precisa urgente. Fiquei com a impressão que as pessoas não fazem vandalismos porque sempre encontram esses banheiros limpíssimos.
Olha só seu prefeito do Rio: leia com atenção essa crônica do Riq Freire.

Paula*
Paula*PermalinkResponder

Adorei! Fantástica!
Realmente os banheiros químicos ainda deixam muito a desejar...
A ideia é boa, mas a execução precária...

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