Deadline (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

A editora manda um email para dizer que o horário em que eu costumo enviar minhas crônicas é perfeito. Diz que o ideal é que eu mantenha exatamente o mesmo horário, desde que mande dois dias antes.

twitter

Tentei explicar que, assim como acontece com as flores, os frutos e as estações, os textos... não. Tentei nada. Se nem com você, que tem essa condescendência toda comigo, isso ia colar, imagina com ela, que está escaldada.

Poesia de powerpoint à parte, o fato é que todo texto tem, sim, a hora certa para sair. E a hora certa do meu texto é sempre a mesma: a última.

Na década de 70 o meu time, o Inter de Porto Alegre, tinha um jogador chamado Escurinho que ficava no banco até os 25 minutos do segundo tempo – quando então entrava em campo para desempatar o jogo com um gol de cabeça numa cobrança de escanteio. Devo ter aprendido a escrever com ele.




Nesses anos todos em que me revezo na última página, só me lembro de ter mandado o texto adiantado uma vez. O pessoal da Redação estranhou tanto, que a crônica saiu assinada pelo meu companheiro de revezamento André Laurentino. Juro!

Mas eu prometi tentar. Quer dizer: prometi pra mim mesmo, porque pros outros eu sei que não devo.

Procurei me convencer de que o tempo é uma convenção. Lembrei aquela noite fria de primavera do meu mochilão de 1985, quando fui apresentado ao conceito – então inédito no Brasil – de horário de verão. Como assim, adiantar o relógio em uma hora?

Anos mais tarde, me hospedei num hotel nas ilhas Maldivas que atrasava o relógio em duas horas, para que o sol equatorial nascesse às oito e se pusesse às oito, permitindo aos hóspedes dormir e aproveitar o sol.

Se o horário pode ser arbitrado, por que não os dias da semana? Acordei no sábado mentalizando que já era segunda-feira. Dessa maneira, quando chegasse a segunda, minha crônica pensaria que já era quarta, e sairia na hora pedida pela editora.

Quase deu certo. Desde segunda de manhã o texto já estava 90% formado na minha cabeça. Só faltava um final.

Até que hoje, quarta, aos 25 do segundo tempo, Escurinho, digo, a editora me manda outro email: “Você faz piada comigo no Twitter – eu vi! Me dá notícias?”. Pronto. Enviar!

Ilustração do grande Daniel Kondo, gentilmente surrupiada da edição impressa

Assine o Viaje na Viagem por email - VnV por email
Visite o VnV no Facebook - Viaje na Viagem
Siga o Ricardo Freire no Twitter - @riqfreire
Siga o Viaje na Viagem no Twitter - @viajenaviagem


15 comentários

zuzu
zuzuPermalinkResponder

Só vc prá usar este mote, e fazer piada consigo mesmo!

mirelle
mirellePermalinkResponder

hahahahah, eu tb so funciono no deadline! muito bom o texto!!!

Adolfo
AdolfoPermalinkResponder

Muito boa. Mas ainda não te pediram hoje para entregar algo para ontem (literalmente) !!!

wilma pessoa
wilma pessoaPermalinkResponder

Esta, como outras tantas, muito interessante.Tenho aproveitado seus textos para trabalhar com meus alunos universitários (com os devidos créditos). E essa última hora, tão fértil, não?

Majô
MajôPermalinkResponder

Acho que muitas pessoas funcionam sob pressão, eu sou uma delas wink
Incrível sua "estratégia" de enganar o próprio cérebro, e ainda fazer humor hilário sobre si próprio mrgreen
Ontem à noite, me peguei rindo sozinha, lembrando de um post durante sua longa viagem à Europ, numa cabine de fotos fazendo as caretas mais hilárias e nós às gargalhadas lol lol
Uso bastante a prática de adiantar o relógio wink
Excelente crônica, as always !

Marcia Kawabe
Marcia KawabePermalinkResponder

Uma das minhas funções e receber anúncio, e sempre respondo para os angustiados funcionários de agência que o timeline pra mandar o mesmo é impreterivelmente até ás 4 da tarde. Mas que eles não saibam que na verdade eu posso receber até as 8 smile

Alice
AlicePermalinkResponder

Também vivo nesse sufoco. E sempre que tô no aperto fico com aquele verso do Cazuza na cabeça "por que que a gente é assim?"

RosaBsb
RosaBsbPermalinkResponder

Você é muito bom, mesmo aos 25 do segundo tempo. Não, nada disso... Você é bom em qualquer tempo!!!

yara xavier
yara xavierPermalinkResponder

É, nem mesmo longe das agências de propaganda a gente consegue se livrar dos tráfegos.

Gerson
GersonPermalinkResponder

Pois é, eu me lembro do Escurinho. Veio jogar no Palmeiras e marcou um gol contra o Inter dando vitória ao verdão. Só não sei se foi depois dos 25 do segundo tempo.

Fernando Piracicaba

Comandante Riq (camisa 10) nos divertindo como sempre.
Ótima crônica!!!!
Gostaria que o meu diretor fosse tão elegante e divertido para cobras prazos como a editora do Estadão.

Celina
CelinaPermalinkResponder

Amei! Esse (ótimo) texto caiu como uma luva, depois das minhas últimas semanas que foram feitas só de deadlines! Até meu blog ficou esquecido! Cumprir horários só é bom quando é para pegar avião e ...viajar mointo!

Natália M Gastão

Muito bom!!!!
Também tenho essa tendência de última hora... Ainda bem que mudei esse hábito nas viagens, depois de perder um vôo. =p

Retornando…. mais de Roma « MALA DE RODINHA E NÉCESSAIRE

[...] no Viaje na Viagem li a crônica do Riq Freire sobre a dificuldade dele com deadlines. Prazos que a gente teima em [...]

MALA DE RODINHA E NÉCESSAIRE | Os ônibus turísticos de Roma

[...] no Viaje na Viagem li a crônica do Riq Freire sobre a dificuldade dele com deadlines. Prazos que a gente teima em [...]

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
Cancelar