Gratinée (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Passei a última hora tentando apurar quem cunhou o termo “comfort food”. Tudo o que descobri foi que desde 1997 a expressão virou verbete em dois dicionários americanos. Sendo tão recente, acabou passando para o nosso português no original.

Se você costuma ler resenhas de restaurantes, já deve conhecer o conceito. “Comfort food” é a comida que vale por um colo de mãe. É quando um chef desiste de ser cerebral ou autoral ou sutil, e apela para ingredientes e temperos cuja digestão é feita diretamente pela memória afetiva.



É provável que a expressão não tenha passado para o italiano. Todo repertório gastronômico da Bota, da bisteca à milanesa à pizza margherita, fala ao coração do bambino que mora em você. Não existe nada mais reconfortante que um prato de lasanha – o grande crítico gastronômico Garfield já nos ensinou. Pena que seja um prato que eu não possa pedir em restaurante. A lasanha da minha mãe levava molho de tomate, presunto e queijo; essa tradicional, com carne moída e molho branco, consegue me deixar mais carente do que estava antes.

Na cozinha brasileira, a comfort food por excelência é a feijoada – quando consumida como se deve, nos leva à cama em posição fetal. Eu tenho uma queda séria por moqueca de siri; enquanto houver na cumbuca, não consigo parar.

Esta semana acho que identifiquei a comfort food mais sofisticada que existe. Era uma tarde fria e molhada em Avignon, e me refugiei no primeiro aberto. Pedi o menu do dia. A entrada era uma sopa de cebola.

soupe-a-loignonEu tinha esquecido o poder da sopa de cebola francesa autêntica – a que eles chamam de “gratinée”. O caldo, forte e levemente adocicado, não contém um traço físico de cebola. Uma fatia de pão velho vem mergulhada no pote, de onde sairá mais gostosa do que jamais foi. E tudo isso vem tapado por uma grossa camada de queijo Gruyère, que serve tanto para gratinar quanto para dar o golpe de misericórdia final. A sopa de cebola gratinada é praticamente uma pizza líquida.

Neste momento, o que me reconforta é saber que aí em São Paulo o La Casserole faz uma colo de mãe.

A rede AccorHotels.com apoia essa temporada do VnV na Europa.

Os carros desta viagem são alugados com todos os seguros pela Mobility Cars.

O Mondial Travel é a assistência viagem oficial do #viajenaviagem no projeto Europa de carro.

Assine o Viaje na Viagem por email - VnV por email
Visite o VnV no Facebook - Viaje na Viagem
Siga o Ricardo Freire no Twitter - @riqfreire
Siga o Viaje na Viagem no Twitter - @viajenaviagem


9 comentários

Anette
AnettePermalinkResponder

Ric, comemos a mesma sopa de cebola na Place De L'Horloge em Avignon em maio passado e a sua definição dela é perfeita!

val
valPermalinkResponder

Pizza liquida é muito bom...

Lena
LenaPermalinkResponder

Chocolate também é comfort food e quebra um galho quando não tem mais mãe pra fazer lasanha, mingau, purê, etc. etc. :roll:

Maria das Graças

Riq, voce esteve em Avignon? Que cidade agradável! Tem muitos e bons restaurantes.
Navegar pelo Rhône, subir a eclusa e chegar até Chateauneuf de Pape, mesmo sem parar.

Lá em cima, no deck, sozinhos, sem o almoço no andar de baixo, em um belo dia de sol, sem mistral, foi um passeio e tanto.

Pode-se contemplar as margens bem tratadas e utilizadas de diversas formas pela população. Sua águas limpas, sem nenhum vestígio de lixo doméstico e esgoto.

Jovens navegando e mergulhando. Restaurantes à beira rio. Ulalá!

Camila Torres
Camila TorresPermalinkResponder

Essa crônica podia ter sido ilustrada com a cena do Ratatouille que o crítico lembra da infância ao provar o prato ! smile

Ursula Cardoso

Putz!! Lembrei da mesma coisa no hora!!

Lu
LuPermalinkResponder

Ih, comigo aconteceu o mesmo! Tinha me esquecido de quão suculenta é uma autêntica sopa de cebola gratinada francesa, e pedi num menu (entrada, prato e sobremesa), de entrada a tal sopa, q aliás estava uma dilícia, mas ñ deu prá prosseguir c/o menu ...

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Adoro a do Le Suffren, pertinho da Torre Eiffel, estavação La Mote Picquet Grenelle. Pizza líquida, adorei!

katy
katyPermalinkResponder

Após anos vivendo na Inglaterra, sei que o termo "comfort food" se refere à aquela que lhe mantém quente e satisfeito, que lhe deixa uma sensação gostosa e de conforto. Não importa o paìs ou a comida em si. Quando ha decepção, saudades, frio, dor, tristeza... muitos procuram uma comida que lhes conforte e os faça sentir melhor. Dai o nome "comfort food", seja ela lazanha, chocolate, sopa, abacaxi...

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
Cancelar