Efeito estufa (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Pode me chamar de retrógrado, mas eu tenho saudade de um aeroporto acanhado e caótico: o velho Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro.

Antes de ser reformado, o Santos Dumont proporcionava o desembarque mais sensacional do planeta. Depois das vistas sensacionais oferecidas pela janelinha, você saía pela porta do avião e recebia o bafo da maresia na cara – praticamente um convite a cancelar os compromissos da tarde e fugir com as suas havaianas para algum lugar perto do mar.

Quando você se recuperava do choque térmico-olfativo-sensorial, enxergava o Pão de Açúcar ao fundo do quadro, e só não saía em direção a ele pela pista mesmo pelo receio de ser atropelado pelo próximo Boeing 737.

Na época que anunciaram a reforma, há seis anos, escrevi um manifesto intitulado “Contra o fim da maresia”. O deputado Fernando Gabeira leu o texto na – o mais longe que um texto meu já chegou.

Recebi críticas – procedentes – denunciando o meu descaso para com a situação dos passageiros em dias de chuva e em especial com relação aos cadeirantes, que precisavam ser carregados no colo a cada voo.

OK, admito: não dava mesmo para ser contra a construção dos “fingers” (pontes de embarque, em português). Mas também não precisavam ter feito uma obra tão equivocada.

O primeiro grande erro é conceitual. O novo Santos Dumont esconde e avilta o terminal antigo, que tinha valor histórico e arquitetônico. O belíssimo saguão anos 50, com painéis que contavam a história da aviação, hoje está completamente fora do caminho de quem passa pelo aeroporto.


O segundo equívoco é técnico, mesmo. A sala de embarque foi projetada como um grande tubo de vidro. Teoricamente o teto transparente daria a sensação de estar ao ar livre até o último momento de permanência no Rio. Na prática, porém, nos dias de sol a sala de embarque se transforma numa estufa de embarque. Num forno de embarque. Numa sauna finlandesa de embarque.

A sala de embarque do novo Santos Dumont é um dossiê de uma prova só que justifica a privatização dos aeroportos no Brasil. Aceita um conselho? Ponte Aérea de volta, só depois das 8 da noite.

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7 comentários

Marcie
MarciePermalinkResponder

Concordo! Também faço parte do time saudosista que adorava o Santos Dumont velho. E, no mesmo tópico, Congonhas também.

Andre L.
Andre L.PermalinkResponder

Bom, o Riq reconhece que ausência de finger torna um aeroporto desconfortável (e perigoso) sob chuva para embarque, e humilhante para quem dificuldades de locomoção.

Outros aeroportos usam esse recurso de deixar um teto de vidro, mas com algum tipo de cobertura retrátil que possa evitar esse efeito-estufa. Ou isso, ou um ar-condicionado ultra-potente.

Quanto ao velho terminal, como ele é tombado pelo patrimônio histórico parcialmente, de forma paradoxal tornou-se impraticável reformá-lo para atender ao fluxo atual.

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Mas cá prá nós , voltar pra casa estando no Rio , é sempre deprê; então que seja o mais tarde possivel grin

RABUGENTO
RABUGENTOPermalinkResponder

Dureza é estar neste verão no SDU aguardando para embarcar e descobrir que esqueceu em casa o cartão de crédito que lhe daria alguns momentos de ar condicionado na Sala VIP. Nem quero lembrar que aconteceu comigo... sad

Gabriel Dias
Gabriel DiasPermalinkResponder

Algumas salas vips aceitam que você entre apenas fornecendo o número do CPF. Já usei este método no Centurion Club.

Lena
LenaPermalinkResponder

Vamos ver como vai sair esta privatização, cujos editais já colocam a competentíssima Infraero como sócia obrigatória com 49%...

Montenense
MontenensePermalinkResponder

Novo ou velho, reformado ou não...pela vista antes, durante e depois, o SDU é o melhor aeroporto do mundo!

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