Xis (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Quando viajo, as letras e os sons me parecem tão interessantes quanto as paisagens, os monumentos, as bebidas e as comidas do lugar. E não me refiro à música, não: adoro estar exposto a uma língua diferente, aos letreiros, ao sotaque.

Acho graça em descobrir que consigo ler as legendas em catalão. Alugarei carro quantas vezes for a Aruba e Curaçao, só para ouvir papiamento no rádio. A cada nova viagem a Portugal entendo uma nova nuance (ou nuança....) do falar luso, o que renova minhas esperanças de um dia não soar tão caricato ao tentar imitar o português de verdade.

Estive agorinha pela primeira vez na Galícia, e mais até do que entrar na Catedral de Santiago de Compostela ou me esbaldar em vieiras, navalhas e berberechos, o que eu ansiava mesmo era por ouvir galego.

Caso você tenha fetiche zero por idiomas, explico: o galego é uma língua ibérica, falada no noroeste da Espanha, que registra inúmeras semelhanças com o português. Um dia já foram a mesma língua. Os artigos do galego são “o”, “a”, “os” e “as”; o plural de “especial” é “especiais”. Uma “calle”, em galego, é uma “rúa” (assim, com acento). E quase sempre onde tem jota em português você vai achar um xis no galego: xantar, xornal, Xosé, viaxar.

Mas alguém precisa viaxar a um lugar para ouvir a língua? Eu sei, eu poderia ter simplesmente dado uma busca no YouTube. Mas queria descobrir in loco.

Pois bem. Ao atravessar a fronteira, comecei a procurar uma rádio tagarela. Achei logo a Radio Galicia. E...

Decepção. Falado, o galego tem aparência, cor, cheiro, temperatura, textura e consistência de espanhol. Os mesmos nasais duros. O mesmo “s” pesado, que nunca desliza para som de “z” (“casa” soa “cassa”). E o imperdoável: a mesma língua-presa do espanhol ibérico no “c” e no “z”, que torna impossível pronunciar Azucena (“Athuthena”) comendo farofa. Enfim, a coisa toda me soou como portunhol falado por espanhóis. Foneticamente, a Catalunha me parece mais próxima de Portugal.

Em compensação, a Catedral de Santiago de Compostela é deslumbrante, e as vieiras, as navalhas e os berberechos valem a viagem.

Os carros desta viagem são alugados com todos os seguros pela Mobility Cars.

O grupo Pestana e as Pousadas de Portugal apoiam esta viagem.

O Mondial Travel é a assistência viagem oficial do #viajenaviagem no projeto Europa de carro.

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10 comentários

Marcie
MarciePermalinkResponder

Eu pensei que era a única louca que gostava de acentos diferentes...

Arthur | Agora vai mesmo

Então o galego é o miguxês... wink

diogo
diogoPermalinkResponder

hahahahahahahahahahahaha, genio hahahahahahahahahahahahahaha!!!! mto bom, hehehehehe... ai ai ai, hehehehe.

hahahahahahahahahahahahahahahahahaha!!!!!!!

bjos

Katy
KatyPermalinkResponder

Boa! Muito boa!
kkkkkkkkkkkk

zuzu
zuzuPermalinkResponder

Também adoro novas línguas e o catalao é muito semelhante ao portugues, e no contexto geral, compreensível!

Claudia Pimenta

nada mais lindo do que conhecer os lugares pela língua e pelos sotaques - tb adooooro! smile bjs!

Maryanne
MaryannePermalinkResponder

Tb adoro adivinhar o que ta escrito.Em Bilbao eu lia os menus sempre em catalao e depois olhava a traduçao pra ver se eu acertava mesmo o pedido.

Carlos Nascimento

Também adoro idiomas. O Galego para mim é o português falado nas brenhas do Brasil, ou por uma criança quando começa a falar, porque tem sabor daquele idioma ainda em formação, o galego-português,lembra a época que estudávamos as cantigas de escarnio e mal dizer (Ai, dona fea, foste-vos queixar que vos nunca louve'en em meu trobar;. Se você seguir um pouco mais pela estrada chegará ao Principado de Astúrias, e não estranhe ao ouvir um publicidade do Goberniu del Principau d'Astuires e pensar que é seu Creyson que está falando
Hai dalgun camín que nun
foi capaz d’atopar.
Vuelvo entós
per los mesmos pasos que
llevarenme n’aquel tiempu
a faceme pedante, que
non llistu, y
llamber les ferides que
Ficieronme los tus olvidos
y el mieu vieyu de
nun podete volver amar.

Cris
CrisPermalinkResponder

Eu também tenho gosto por ouvir os sons locais. E o interessante é que esses sons locais das minhas viagens ficam durante muito na minha memória. Ainda me lembro do gralhar dos corvos no Coliseu e do barulho das ambulâncias em Roma, diferentes das de Porto Alegre. E faz pouco, ao mexer nas minhas coisas da última viagem, ao olhar o mapa do metrô de Barcelona, me veio muito vívida na memória, a voz gravada da moça que anuncia as estações do metrô: "urquinaona", "Jaume premierrr", "bogatell", "iacuna" (por sinal, a estação do meu hotel).

Ah, gostei muito do catalão, pareceu uma mistura de francês com portugues, e fácil de compreender no contexto. Quando reservei online os ingressos para a Sagrada Família, eu nem troquei a página do catalão para outra língua! smile

Paulo Gaeta
Paulo GaetaPermalinkResponder

Não sei não Ric, mas esse negócio de Catedral de Santiago de Compostela tá me parecendo influencias do Paulo Coelho...

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