Excecional (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Atenção, revisão: o título não está errado! Está escrito em português de Portugal pós-acordo ortográfico. (Sim, leitores: aqui estou eu de novo chafurdando neste assunto.)

Não é incrível que se tenha gasto a montanha de dinheiro, papel e tinta numa reforma para unificar o idioma escrito e, mesmo assim, ainda seja possível definir uma palavra como “escrita em português de Portugal pós-acordo ortográfico”?

O fato (que em Portugal continua o facto) é que a pretensa unificação da ortografia acabou por criar uma série de novas – e divertidas! – diferenças entre o português tuga e o português brazuca.

Os hotéis portugueses deixaram de ter recepção e passaram a atender os hóspedes recém-chegados na receção. (E ali você continua a fazer o seu registo, sem “r”, exatamente como já acontecia antes do acordo.)

Evitar filhos em Portugal ficou mais barato: os casais agora economizam um “p” ao comprar seus anticoncecionais. Em compensação o país se tornou um pouco mais inseguro: os detetores portugueses não detetam mais a letra “c”. Torço, entretanto, para que não haja mudança no sabor dos pasteizinhos de Belém, que agora são confecionados com um “c” a menos.

A reforma ortográfica poderia ter acabado com a corrupção em Portugal – mas não: a corrupção por lá continua igualzinha à do Brasil. Não virou “corrução” não.


Se isso deixa você decepcionado, conforme-se: se você fosse português, estaria no máximo dececionado. Se bem que não seria uma decepção temporária; seria uma deceção perentória.

Na verdade eu fico contente com essa avacalhação oficial. Entendo que essas novas diferenças abrem um precedente importante. Se os portugueses podem criar novas grafias para escrever do jeito que falam, por que você e eu precisamos nos ater a formas que não são fiéis à nossa pronúncia?

Brasileiros! Se os portugueses ganharam o direito de escrever “excecional”, por que nós não podemos escrever “muinto”? Por que não temos ao menos a opção de escrever “opição?” E “desconequitado”? E “acadjimia”? E o que não entendo até hoje: porque escrevemos “também”, se na vida real pronunciamos “tambêm”?

Pela legalização do verbo “vim”!

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31 comentários

Camila
CamilaPermalinkResponder

Amay!

Rita
RitaPermalinkResponder

Ué, o "p" falado caiu também? não era só "p" mudo? como em "óptico"?

Philipp
PhilippPermalinkResponder

Echelente! Ou seria exelente?

Mas ainda ha muito o que fazer mesmo na terra de Camoes. Faltaram o "vermailho", "treuze", "echelente", "pichina", etc

JotaPê
JotaPêPermalinkResponder

Pois....eis as consequências da trasnformação da língua portuguesa numa "coisa" fonética, com este "acordo" ortográfico...
Abraço!

FelipeB
FelipeBPermalinkResponder

Quem se lembra daquela polêmica, no ano passado, do "livro do MEC" que valorizava a língua falada?
Taí a realidade pra demonstrar o que todos os linguistas já sabem: a língua é dinâmica, muda o tempo todo, por mais que os burocratas e os gramáticos queiram engessá-la.

Alexandre Costa

Coitado do P, que entrou mudo e saiu calado de algumas palavras da língua portuguesa! grin

Lívia
LíviaPermalinkResponder

Amei.....

Clara
ClaraPermalinkResponder

"E o que não entendo até hoje: porque escrevemos “também”, se na vida real pronunciamos “tambêm”?"

Riq, sem ser bairrista(mesmo) acho que você, morando em São Paulo houve esse "E" de também, mais fechado. Aqui no Rio, que foi capital da colônia, império e república se fala esse "E" mais aberto, e em Portugal ele é mais aberto ainda.

Um pequeno exemplo:

Em SÃo Paulo: A, E (pronuncia-se Ê), I, O U.
No Rio de Janeiro: A, E (pronuncia-se É), I, O, U.

Clara
ClaraPermalinkResponder

Riq, sem ser bairrista(mesmo) acho que você, morando em São Paulo, ouve esse “E” de também, mais fechado.

Desculpa aí, a crassa falta de virgula e o cracíssimo houve em vez de ouve(deusmelivre!) sad

Clara
ClaraPermalinkResponder

Pelamordedeus, desculpa aí a presença de vírgula depois do "desculpa aí" anterior. sad(

Lena
LenaPermalinkResponder

Clara, em São Paulo é "a, é, i, ó, u" e "a, b, c, d, ê" wink
Só DEUS sabe o motivo...

Anna Francisca

Também seria "tambeim". E "acadjimia", depende da região de onde viermos. Falar assim e escrever assado não é mérito apenas da língua portuguesa. O que não pode é padronizar "línguas" diferentes.

Goethe
GoethePermalinkResponder

Não vejo problema em haver uma variante padrão da língua. O que se deveria evitar é a estigmatização de variantes regionais e sociais, pejorativamente tidas como língua de Jecas etc. A variante que se fala é algo quase tão pessoal como a cor dos olhos ou da pele: herda-se e transmite-se, e integra a identidade de cada pessoa.

Cris
CrisPermalinkResponder

Recentemente, tenho viajado bastante com a TAP. De certa forma, eu juro que já incorporei ao meu português "brasileiro" as palavras mágicas '"descolar" e "aterrar" huahuahuahuahuahua.

Na última vez que estive em Portugal, ao andar de metrô, e escutando as conversas dos nossos patrícios, eu não entendia quase nada e podia jurar que se tratavam de turistas ou imigrantes do leste europeu falando úma língua estranha! Mas prestando bem atenção, era "português de Portugal" mesmo.....

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Nossa, eu já não entendo muito o Português, imagina agora rsrs

Vanessa Oak
Vanessa OakPermalinkResponder

Pelo amor de DEUS, vc leu o acordo ortográfico??? Desde quando as letras não mudas, ou seja, pronunciáveis foram abolidas pelo acordo??? Vc deve estar brincando, não pode ser sério! Explica direito isso ou vai ser um desserviço ao nosso idioma já tão mal-tratado (não, não acabou o hífen nesse caso) e quase sempre ignorado/ignorante. Prefiro acreditar que vc está zoando! Brinca com isso não...

Vanessa Oak
Vanessa OakPermalinkResponder

"(não, não acabou o hífen nesse caso?)". É uma pergunta que não sei e talvez nem queira responder!

Anna Francisca

Maltratado nunca teve hífen. Sempre foi uma só palavra. É adjetivo, originário de maltratar.

Vanessa Oak
Vanessa OakPermalinkResponder

Obrigada! Agora já sei! Sempre me enrolo com hifens... Sem querer abusar, já abusando, da aula: Mal-educado é maleducado? Já foi, é ou jamais será?

Vanessa Oak
Vanessa OakPermalinkResponder

Mal educado soa bem melhor e até onde me lembro sempre escrevi separado (poucas vezes devo ter escrito essa palavra)... Mas estou sem nenhuma segurança para escrever hj em dia... Triste, pq, para não errar, tento limitar o vocabulário...

Geraldo Freitas

acordo ortográfico que coisa engraçada........

Celina
CelinaPermalinkResponder

Sinceramente, até hoje eu preciso consultar as regras.E às vezes fico mesmo na dúvida. Mas a nossa língua é uma bagunça total. Tenho lido muito a abolição do "r" no infinitivo dos verbos. O coitado do "r" está sendo substituído por um acento! EX: ela foi pagá um conta, eu adoro comê, e assim por diante. Com a interatividade, todo mundo gosta de "comentá" e não duvido nada que assim como o futuro subjuntivo do verbo ver (quando eu vir) que já está praticamente substituído por "quando eu ver", o infinitivo seja abolido!

Anna Francisca

Não acredito que isso vá acontecer, Celina. Agora, "comê", "comentá" etc não fazem parte da língua culta e nunca vi escritos e nem, melhor, aceitos por ninguém.

Clara
ClaraPermalinkResponder

Riq, náo posso deixar, de, mais uma vez, destacar o maravilhoso ilustrador das suas crônicas, o Daniel Kondo( não conhecia). Ele capta com maestria a sua crônica, e de maneira muito criativa. Gosto muitíssimo do traço, das cores, tudo. Você está muito bem acompanhado!

jose
josePermalinkResponder

No fim querem manter por decreto uma realidade que teima em se impor, nós somos outra nação e outra cultura. Acho que deveríamos oficializar o brasileiro como idioma.

Tania Janin
Tania JaninPermalinkResponder

Vambora legalizá o verbo vim Ric!

O Riq nunsei comequisegosta de se chamado.

Infinitivo com r no final e plural com s. Precisa mais não.

Vamo aproveitá essa istoria de acordo ortográfico e tambem purque já temo uma presidenta eleganta que foi estudanta de economia e hoje é uma dirigenta política importanta e legalizamo tambem a carteira de indentidade e o verbo vamo ir.

Vambora!!!!

Por questões democráticas ou de preparo físico sugiro que cada um escolha onde quer colocar a vírgula.
Se podemos escolher como queremos ser chamados também podemos escolher onde colocamos a vírgula.

Clara
ClaraPermalinkResponder

Morri de rir, Tania, especialmente no seu quarto parágrafo. smile
Bom fim de semana.

Mirella (mikix)

Se eu já cometia gafes no português, depois dessa nova regras... melhor nem comentar!!!
Excecional seu post!

Lena
LenaPermalinkResponder

lol lol lol

rosangela ramos

Acho que há uma pequena confusão, as consoantes pronunciadas não caíram, acho que nem mesmo no caso de "facto", em que os portugueses pronunciam o "c" (eles falam /faktu/). Reveja o acordo ortográfico:
"c)Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção."

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Rosangela! Não há confusão. Facto permanece facto porque os portugueses pronunciam o c. Excepcional e recepção viraram excecional e receção porque os portugueses não pronunciam o p nessas palavras.

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