Carnê (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Hoje o conceito soa estranho, mas houve um tempo – nem tão distante assim – em que os filhos sonhavam em sair da casa dos pais o mais rápido possível. Comecei a trabalhar cedo, e por isso antes mesmo de fazer 19 anos já estava morando sozinho.

Os móveis mais altos da sala (e também do quarto, que ocupava o mesmo cômodo) eram duas caixas de som de 90 centímetros de altura, que eu tinha herdado do meu irmão mais velho, cinco anos antes, na vez dele sair de casa.

(Naquele tempo o único eletrodoméstico que um adolescente podia possuir no quarto era um aparelho de som. A primeira TV portátil em quarto de criança só foi vista uns dez anos mais tarde.)

Entre a porta da casa dos meus pais e o meu novo apê fiz a minha primeira dívida: um carnê em dez prestações para pagar a geladeira, o fogão e a televisãozinha (que ficava no chão, à mesma altura do colchão).

Em 1983, um crediário em 10 prestações fazia o preço final duplicar -- ou triplicar (já não lembro). Mas isso não era tão grave assim, porque duas vezes por ano o seu salário dobrava nominalmente. Era o que se chamava “dissídio”. Que saudade.

Assim como hoje, eram tempos de grande mobilidade social. Só que ao contrário. No primeiro salário pós-dissídio você pertencia à classe B ou C, mas três meses depois já estava na D ou E.

Quando a inflação apertou mais – e antes de inventarem o reajuste mensal de salários (sim, crianças, já houve isso também) – os crediários longos simplesmente desapareceram.

No primeiro dia do primeiro mês do seu salário novo (30 dias antes que entrasse na conta), você saía comprando tudo o que podia e parcelando em três vezes, que era o máximo que se conseguia. Só as companhias aéreas continuavam vendendo em 10 prestações; talvez por isso não tenha sobrado nenhuma.

Hoje todo mundo continua comprando em 10 ou 12 vezes, ainda que o preço final acabe dobrando. E mesmo sabendo que no meio do carnê não vai rolar um dissídio de 100%.

Só se vive uma vez, certo? Errado. Brasileiro que é brasileiro acredita piamente na reencarnação. Voltaremos pelo menos 10 vezes. O problema são os juros e a correção.


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14 comentários

Marcie
MarciePermalinkResponder

Recordar é viver! E eu que comprava modelitos (comecei a trabalhar muito cedo, ainda morando com meus pais) na Ducal (atire uma pedra quem lembra!) e na Pirani, com carnê? shock

Quenia Maia Lourenço

Da Ducal eu lembro bem como do Mappin, da Mesbla e da Peter (acho que era isso, atrás do Teatro Municipal), Pirani só lembro do incêndio.
Meu primeiro carnê foi do Mappin, uma máquina de lavar roupas que dei para minha mãe e que foi comprada em 12 parcelas. Nossa quanto tempo!

Gerson
GersonPermalinkResponder

Ricardo.
Usei muito o carnê da Vasp em 10 vezes.
Marcie.
Tinha também a Isnard e Garbo.

RosaBsb
RosaBsbPermalinkResponder

Na época dos carnês, a disponibilidade era curta demais, era à vista mesmo, se podia comprava, se não, esperava poder. Já agora com os cartões, eu opto sempre por parcelar em até 6 vezes, assim já fico com disponibilidade após um semestre, exceção para bens duráveis. Passagens aéreas opto por comprar com antecedência e parcelar até a data da viagem, gosto de viajar com tudo pago e poder liberar um pouco para passeios, alguma compra que sentir vontade, presente para família...

yara xavier
yara xavierPermalinkResponder

Meu primeiro carnê foi o do Passat 75. Depois do ap. financiado pelo BNH. Nossa! Como me lembro dos tempos do reajuste mensal do salário, da OTN dia e do overnight. A gente nunca sabia quanto ganhava. Mas eu acho que era mais do que hoje. A inflação continua comendo solta e dissídio é uma palavra que vem sempre seguida de 4,6%.

Arthur | Agora vai mesmo

Brastel, Ultralar, Garson, Arapuã (essa é um pouquinho mais nova), Sears, Slopper, Sandiz, Bemoreira... Não é a idade, é a experiência.

Ah, e eu ainda tenho cartão de milhagem da Transbrasil e da Varig. Catzo!

Victor Hugo
Victor HugoPermalinkResponder

E os meus pais que no início do Plano Real resolveram comprar uma televisão em dezenas de parcelas de R$ 20,00 pra "pagar com as moedas"?!?!?! Resultado, as Lojas Arapuã fecharam e as parcelas tinham que ser pagas em um escritoriozinho mequetrefeque ficava lotado todo dia 10!!!

Lena
LenaPermalinkResponder

Luv U!! <3 lol

Lena
LenaPermalinkResponder

A propósito, de um colega gringo que trabalhou comigo: "Por que vocês abrem o holerite pra olhar, se o salário é sempre o mesmo?" Vício da época de "grande mobilidade social", quando só se sabia o valor do salário no momento de abertura do holerite!

Naila Soares
Naila SoaresPermalinkResponder

Que palavra estranha: holerite! Seria contra-cheque em paulistês?

Luquésio
LuquésioPermalinkResponder

Exatamente... por aqui raramente se ouve "contra-cheque".

Débora
DéboraPermalinkResponder

Gente, adorei ler os comentários acima! Voltei no tempo. Eu comecei a trabalhar numa empresa que ficava na sobre-loja do Mappin São João e na hora do almoço ia passear nessas lojas (Ducal, Peter, Babuch, Mesbla etc)... Lembro bem de todas essas lojas citadas pelos colegas...

Lili-CE
Lili-CEPermalinkResponder

Nossa, peguei isso tudo, mas de uma perspectiva diferente, menos independente. O máximo do planejamento era sacar o dinheiro do estágio e ir à casa de câmbio mais próxima converter tudo em dólar para o dinheiro durar mais.

Jackie
JackiePermalinkResponder

Ah, eu lembro que qd eu queria lago eu pedia à minha mãe, aí dizia qt custava e se ela demorava uma semana pra responder eu tinha que ir lá ver de novo qt já era pra ela me dar o dinheiro rsrs péssimos tempos o da inflação!

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