Volta (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Nos encontramos em Paris. Mas não foi amor à primeira vista. Eu estava à procura de outra, mais famosa. Só que o preço estava impraticável; então, depois de muito hesitar, acabei levando a segunda opção.

Nunca cheguei a saber o seu nome. No entanto, ela tinha tudo o que um homem pode procurar numa mala: quatro rodinhas giratórias independentes, alça retrátil com duas alturas, casco levíssimo de última geração. Possuía apenas um defeito meio grave: uma única divisória interna. O que você pusesse na metade desprotegida ficava sambando lá dentro -- e quase sempre pulava para fora assim que a mala fosse aberta.

Mas desde o início relevei esse detalhe, e rapidamente me afeiçoei à bichinha. Ela era bonita. Tinha presença. No dia a dia, revelou-se superparceira. Rodas potentíssimas, equilíbrio nota 10: praticamente andava sozinha. Só não subia escada.

Para todos os efeitos, era a companheira perfeita. Googla lá: “A mala ideal”. Você vai nos ver em ação. (Eu sou o careca.)






Juro que nunca contei para ninguém esse lance da divisória. Isso era uma coisa entre nós dois. Imagino que ela também fosse discreta e não saísse por aí falando do monte de camiseta preta repetida que ela tinha que carregar.

No fundo, porém, acho que ela percebia que não era a mala da minha vida. E então aconteceu. Semana passada, numa conexão mal-enjambrada entre Nova York e Amã, ela resolveu ficar pelo caminho. Onde? Ora: em Paris. Me reembarcaram via Frankfurt, mas ela ficou lá na cidade em que começamos a nossa vida em comum.

Por quatro dias perambulei maltrapilho pelos cafundós da Jordânia, já que não podia desviar o tour de convidados para uma tarde num shopping da capital. Ela conseguiu se esconder por 48 horas, e então foi localizada, ainda no aeroporto. Mas até agora não houve força que fizesse a danada sair do lugar.

Desencanei. Ela que fique com as minhas camisetas pretas, que eu vou partir pra outra.

Só que de vez em quando penso nela, coitadinha, extraviada num depósito do Charles de Gaulle, e na vida inteira de viagens que ainda teríamos pela frente.

Dona Lufthansa, quer por favor convencer minha mala a voltar pra mim?


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32 comentários

Juliano Marcondes

Ricardo, Bóia e demais leitores do blog,

Sou advogado em Curitiba, tenho atuado bastante com ações judiciais contras as Cias. Aéreas: cancelamento de voo, overbooking, perda de bagagem (temporária ou permanente), atraso de voo, perda de conexão, entre outros!

No seu caso específico, a situação é muito simples, e aí vai a dica para todos: chegou ao seu destino, a mala não veio no seu voo, sem problemas, compre tudo que é necessário até sua bagagem aparecer!

Caso encontrem sua bagagem 1, 2, 3, 10 dias após sua chegada, ou, sendo pessimista, tenham perdido em definitivo sua mala e seus pertences, procure um advogado de sua confiança e processe a Cia. Aérea por danos morais e danos materiais, é causa ganha!

Abraço e boa sorte!!

Lucas
LucasPermalinkResponder

Um acréscimo: como danos materiais devem ser comprovados e não há inversão do ônus da prova que altere isso, aconselho a todos que forem viajar que tirem foto de toda peça que for colocada no interior da mala, durante a montagem, até que ela esteja pronta.

Isso facilita na hora de comprovar o que tinha no interior da mala e, apesar de não ser um comprovante de pagamento/recibo/nota fiscal, já funciona como indício de prova na hora de comprovar os seus danos materiais.

Abraços,

Lucas

Juliano Marcondes

Oi Lucas, com certeza ajuda e facilita muito, principalmente para produtos que foram perdidos sem nota fiscal, aqueles itens que o viajante leva de casa já na viagem de IDA!

Além das fotos, o que também deve ser feito é apresentar orçamentos dos objetos pessoais perdidos para pedir o ressarcimento perante as Cias. Aéreas!

Abraço a todos e boas viagens!

val
valPermalinkResponder

chorei lendo hoje de manhã....que tristeza!

Marcie
MarciePermalinkResponder

Ainda tenho esperança de que vocês se reencontrem e viajem muito juntos. E se isto não acontecer, este terá sido um lindo tributo a ela. wink

Ana Claudia
Ana ClaudiaPermalinkResponder

Ela vai voltar, Riq. Tenha fe!
Adorei a cronica.

Cristina L.
Cristina L.PermalinkResponder

engraçado ouvir que foi a Lufthansa, pois minha vizinha voltou com eles este ano de Budapeste, também teve uma conexão trocada, e também ficou a ver navios com a mala.
menos mal que foi na volta, mas mesmo assim todos os presentinhos e a maquiagem ficaram na mala extraviada. daí ela não sabia se comprava mais maquiagem ou aguardava - sabia-se lá quando a mala iria aparecer novamente. acho que demorou mais de um mês, mas chegou no Brasil.
é, parece que o departamento de malas extraviadas da Lufthansa deixa desejar (ou deve ser criado ainda!).

Mariana Amaral

Partiu meu coração!

Natalie
NataliePermalinkResponder

<3

quem nunca?

Elisa
ElisaPermalinkResponder

lágrimas nos olhos wink

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

Morri de tristeza...acho que tô sensível! :ó(

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Ai, genial o texto! Quem já fez uma viagem todinha sem a mala por causa de extravio sabe bem dessa dorzinha no peito pensando em onde/como estará a bichinha.
Tenho certeza que vcs ainda voltarão um pro outro. Talvez não seja mais a mesma relação, talvez vc já esteja com outra até lá e ela tenha que se contentar com canto de armário ou ser passada adiante como segunda mão, mas estou segura que haverá um reencontro grin
(e a ilustração do Kondo tá liiiinda!)

petter
petterPermalinkResponder

Um texto desses cheio de sentimentos merece promover um reencontro!grin

Diogo
DiogoPermalinkResponder

Essa história merece até uma trilha sonora do Lupicínio Rodrigues, conterrâneo do Riq:
"Volta, vem viver outra vez ao meu lado..."
http://www.youtube.com/watch?v=UGboJzHO-fY

Silvia Maria
Silvia MariaPermalinkResponder

Gente, fiquei fã da mala! rsrs Adoro esta história e vamos acompanhar. Será que vai ter reencontro, cada um de um lado, correndo pros braços (rodas) um do outro? Imagina a foto-legenda em um site de fofocas: "O turista profissional Riq Freire é flagrado maltrapilho na Jordânia depois da separação causada pela Lufthansa. A mala, nem aí, resolveu morar em Paris".

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Ela volta sim !
Paixão tatuada some por uns dias e reapareçe a qualquer momento.

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Chorando de rir com os comentários, após quase chorar de tristeza com a notícia do some-acha-some de novo

Carmen
CarmenPermalinkResponder

... ela temia o calor que pode ter na Jordânia e decidiu que Paris vale bem a viagem...

Georgia
GeorgiaPermalinkResponder

A melhor parte: ( Eu sou o careca). wink

Silvia Andrade

Riq,
pelo que vi o lance da "falta da divisória" não ficou muito bem resolvido entre vcs. Ela, ardilosamente, esperou a chance de se vingar e achou a hora certa - justo quando vc resolveu dar chance ao azar e abandonando suas regras de ouro, não levou sua muda de roupa na mala de mão (tudo isso por causa daquela almofadinha de pescoço). Ela fez greve e em Paris com suas preciosas camisetas pretas. Já imagino ela rodopiando as suas rodinhas 360o. e saboreando a retaliação: "bem feito, quem manda ele reparar na minha falta da divisória, agora deve estar sentindo falta de mim todinha..."
Para o reencontro faça uma agrado - compre um tag ou um cadeado novo coloridinho para amansar a fera. beijos cariocas.

Claudia Matoso

Que do também das camisetas pretas, dançando fora da divisória!
Faço votos que todos, a mala, as camisetas pretas e o barbeador da careca, voltem para você sãs e salvos! wink

Anna Francisca

Ela também deve estar sofrendo. Sozinha, no aeroporto, pensando onde estará o careca que a empurrava prá cá e prá lá, sempre bem humorado. Que mal terá feito para ser abandonada? Só porque não tinha divisória interna? Não é fácil ser mala.

Gerson
GersonPermalinkResponder

Ricardo.
Ela sentiu que voçê não podia amá-la e por isso deixou-o.

Nivia
NiviaPermalinkResponder

Acho que já vi este vídeo umas 5 vezes, também estou de luto pela pretinha! #devolvelufthansa

Manu tessinari

E eu só fico pensando nas camisetas pretas. Será q elas também estavam preparadas para te deixar?? As coitadas nao tiveram nem tempo de se despedir... #devolvelufthansa

Érica França

Tadinha...triste a sina da sua mala! Me comovi...

Joao Barcelos
Joao BarcelosPermalinkResponder

Ouvi uma vez de uma atendente da Finnair na Finlândia a descrição perfeita do Charles de Gaulle: um buraco negro de malas. Acho que é o aeroporto onde mais se perdem malas no mundo....

Fábio Erasmo
Fábio ErasmoPermalinkResponder

Eu tenho uma proposta, vamos fazer um leilão da mala, o dinheiro pode ser revertido para uma instituição de caridade e sempre que o Ric quiser pode matar a saudade dela, quem vencer o leilão, rifa, deve ser obrigado a dar o endereço para que haja visitas íntimas.

Andrea
AndreaPermalinkResponder

ela voltouuuu, ah o amor que vos une, tao lindo!

joao Lucena
joao LucenaPermalinkResponder

Ninguém está fora de perder o seu amor em uma de suas viagens de avião. Quem ainda nao passou por isso?

Marcia Garcia
Marcia GarciaPermalinkResponder

Ola, tive meu voo cancelado, voltando de NY, minha passagem era para
29-05 as 9:35, cheguei no balcao da companhia Tam as 6eeko e depois de
2 horas esperando, apareceu uma funcionaria nos dizendo que, o voo foi cancelado ha tres semanas, porem nao recebi notificaçao alguma da
companhia avisando a alteraçao. Gostaria de saber quais sao os meus direitos, pois fiquei 12 horas esperando para sair no proximo voo.

Obrigada

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Marcia! A cia. aérea precisa informar ao cliente sobre qualquer alteração. Procure entrar em contato com a empresa e com órgãos de defesa do consumidor para mais esclarecimentos.

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
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