Identidade (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Sempre que eu vou comprar um notebook, o vendedor tenta me empurrar uma garantia estendida. Como você deve ter intuído, eu compro notebooks com uma freqüência fora dos padrões. Dificilmente um notebook dura na minha mão o tempo suficiente para aproveitar uma garantia estendida. Obrigado, não quero. Mas juro que não é muquiranice da minha parte, moço.

Se soubesse o que vem pela frente, computador nenhum ia querer trabalhar comigo. O que para mim é uma viagem, para o pobre é poeira, sacolejo, abre-fecha, liga-desliga, reinicia. Por que diabos esse careca não seleciona as fotos antes de descarregar? E dê-lhe processamento. Não há Intel que dê conta.

Perdi mais um notebook domingo passado – e de repente me vi nostálgico, relembrando os falecidos, feito uma viúva serial. A história do fim dos relacionamentos com meus ex-laptops daria um livro. No mínimo, um guia de viagem.

O primeiro que pifou foi um Mac, em 1998, tão logo desembarcamos na Turquia: o teclado endoidou com a beleza de Istambul e se recusou a funcionar. O segundo – um MacBook daquela série que parecia lancheira de criança – morreu afogado por uma taça de vinho branco. Depois daquilo parei total com Chardonnay (devo essa evolução pessoal a Steve Jobs).

Mudei para PC, mas não tomei jeito. Perdi um laptop numa pane elétrica em Olinda. Um outro foi para o espaço, apagando todo o HD, logo depois de uma visita a Inhotim. Ano passado a tela de um notebook ainda novo empastelou em Lisboa, e quase levou junto dois meses de fotos que eu não tinha becapeado.

O notebook que se foi esta semana não morreu: foi surrupiado por um gatuno em Goiânia, durante um embarque na rodoviária. Foi então que aprendi: perder um laptop nessas circunstâncias é ainda pior do que quando o bichinho simplesmente morre.

Desta vez, à tristeza de comprar um equipamento novo somaram-se as agruras de camelar de site em site para trocar as senhas que estavam gravadas no computador. Senão eu corria o risco de um impostor assumir a minha vida no Facebook. Somos mantidos vivos por instrumentos. Esse Gmail é meu, ninguém tasca, eu criei primeiro!


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26 comentários

Marcie
MarciePermalinkResponder

Nossa total dependência na tecnologia ainda vai nos levar à loucura... wink

RABUGENTO (@RABUGENTO)

Os vendedores também pensam que ninguém sabe que o cartão de crédito dá a garantia extendida sem que você pague a mais por isso... wink

Anita
AnitaPermalinkResponder

Sério?! Não sabia... Quais cartões oferecem? Como funciona?

Fernando Castro

Normalmente os cartões platinum têm esse benefício. Basta comprar com o bendito cartão de crédito que já tá valendo. Sempre vale perder um tempinho nos sites pra descobrir tudo o que existe de vantagem, e bem sempre os bancos contam. O mesmo vale para apólices de seguro de carro. Sempre têm benefícios que não têm nada a ver com o carro em si, tipo bombeiro eletricista. smile

Débora M.
Débora M.PermalinkResponder

Bah, também não sabia!

Zé Maria
Zé MariaPermalinkResponder

Esse tipo de ladrão-canalha, como o que assaltou minha filha em frente o Mackenzie, não quer sua senha. Esses desgraçados não sabem ler, muito menos escrever.

RABUGENTO (@RABUGENTO)

Mas devemos estar sempre prevenidos contra quem possa comprar o aparelho de algum ladrão.

JotaPê
JotaPêPermalinkResponder

Muito bom, Ricardo smile
A minha perda preferida é sem dúvida a do Chardonnay... No seu caso, o computador não fez um barulhinho sinistro quando o liquido foi despejado? Meeeedo...
Quanto ao roubo, os meus sentimentos, a sensação é muito chata mesmo!

Deixo hoje o Rio de regresso a Lisboa e aproveito para avisar que o Mercure Leblon está subindo os preços tão vertiginosamente quanto a qualidade do alojamento e do serviço está descendo sad
Um abraço e continuação de boa expedição

Elisa
ElisaPermalinkResponder

Perder laptop para uma taça de Chardonnay é bem mais chic do que perder para uma gota que escorreu do copo de coca cola, caiu sobre o teclado e se alojou lá dentro, na parte elétrica do bicho...

Ila Fox
Ila FoxPermalinkResponder

JotaPê, também senti isso na ultima viagem ao Rio, ficamos no Mercure Leblon, o preço está um absurdo enquanto os serviços estão piores que nunca (imagina na Copa!!! hehe)

Nívia
NíviaPermalinkResponder

Também, apesar da triste e nostálgica narrativa, só fiquei pensando no Chardonnay... Mas pelo menos substituiu por um Salvignon Blanc ou simplesmente aboliu os brancos da existência? smile

Eduardo
EduardoPermalinkResponder

Se roubam é porque tem que compre depois...

Marilia Pierre

HD VIRTUAL: fica a dica
backup em qualquer parte do mundo

Majô
MajôPermalinkResponder

Muito boa a crônica Riq, como estamos reféns da tecnologia e de senhas mrgreen
Lembrei que um laptop seu se salvou numa excursão pé na areia, strictu sensu, quando você foi surpreendido por uma onda, mas foram-se os óculos, lembra ?

Lili-CE
Lili-CEPermalinkResponder

Quero curtir o comentário da Majô! grin grin grin

zuzu
zuzuPermalinkResponder

Boa sorte com seu novo lap!

Ila Fox
Ila FoxPermalinkResponder

Eu só perdi um notebook, pois só tive um! hahaha, e foi da pior forma possível:

Voltando do Japão, esqueci minha câmera no avião (culpa dos remédios de dormir que me deixaram grogue, nhé). Junto com a camera se foram as fotos dos ultimos dias de viagem. Chegando em casa liguei o notebook com a tranquilidade de ter feito backup, mas... ele pifou! ai que zica! tentei recuperar o HD mas não rolou... a minha sorte é que havia um 3º backup num pendrive! ufa!

Mas fiquei tão apegada ao notebook que fiquei com dó de jogar fora, simplesmente fui lá e comprei outro HD. wink

Philipp
PhilippPermalinkResponder

Eu quase perdi meu iMac ha algumas semanas, mas foi somente a placa de video. Fiquei desesperado pois havia muita coisa sem backup. Agora esta tudo guardado e o principal tambem em "cloud".

Concordo com a Marcie, somos "dependentes digitais", logo comecarao a apaarecer os "Digicolicos Anonimos".

Parou com o Chardonnay? Nem mesmo os de Chablis?
Proxima vez que estive na California, va ao Sonoma Valley e prove o Viognier da Sebastiani, na vai se arrepender.

ana
anaPermalinkResponder

ricardo, concordo com o philipp, não deixe os bons chardonnays de lado, pois eles combinam à perfeição com uma porção de pratos, em especial os de frutos do mar, ao contrário da maioria dos tintos, que podem deixar um gosto metálico na boca.
quanto à selecionar as fotos antes de descarregar, por mais prático que isso pareça, não é recomendado, pois pode contribuir para pifar os cartões de memória. o melhor mesmo é não apagar nada do cartão, selecionar no computador e só depois de ter um backup formatar o cartão na própria câmera.

Hugo Loureiro
Hugo LoureiroPermalinkResponder

Oi Riq, como o Philipp mencionou no post ai em cima, sugiro a você utilizar uma nuvenzinha para colocar suas fotos e documentos. Pode começar a testar com Google Drive ou o Apple ICloud.

Philipp
PhilippPermalinkResponder

Eu uso o Dropbox e gosto muito.

Carlos Henrique Loyo

Depois da descoberta do Dropbox, tenho backup em todo computador e também no celular!

George
GeorgePermalinkResponder

Rabugento,Anita,Fernando Castro,Debora M. alguém aí já tentou usar os beneficios da garantia estendida do cartao de crédito? Eu TENTEI... vc tem que ter o boleto de pagamento do cartao,a nota fiscal constando que o produto foi pago com cartao de credito,a garantia original do fabricante,a estimativa do valor do reparo....tem que escanear tudo e mandar para www.mycardbenefits.com. Ai vc recebe um nº de protocolo por email. Eu mandei tudo e até agora,quase 1 mes depois nao recebi nenhum resposta...

Clara
ClaraPermalinkResponder

Parou com o Chardonnay e mudou de Apple para PC?? Noooossssa! sad

Riq, você soube do jornalista da Wired (acho até que foi o editor) que foi totalmente raqueado via social engineering? Muito pior que a perda do laptop. Ele teve a conta do gmail, picasa, facebook deletados e o twitter roubado. Foi odiabo, que ele contou numa reportagem recente da Wired. O iphone e o computador tiveram todo o conteúdo deletado à distância, uma capacidade que os usuarios tem de fazer se tiverem o laptop, ipad ou iphone roubados justamente para proteger os dados - mas foi feito para o usuário fazer, não um hacker.

Leia essa história verdadeira e voce se sentirá muito melhor e mais esperto. Depois me conta.

Lea Dorf
Lea DorfPermalinkResponder

As malas de mao, os laptops, os guias... Cada um dos fieis escudeiros (alguns nem tao fieis) devem ter belas historias pra contar, Riq!

Celina
CelinaPermalinkResponder

Eu nem sei o quê e como comentar! Aliás, só estou aqui por pura solidariedade. Senti a dor de cada "device"que se foi e o tanto de história que tinha para contar. E isso dá o que pensar... a gente não é só mais um RG e um CPF (e para os viajantes, no de passaporte). Hoje somos um embrólio de senhas e @s . E qual a segurança de uma nuvem?

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