Pelo interfone (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Minha amiga Martha Medeiros começa seu último best-seller, “Um lugar na janela”, com o relato de uma viagem de seis semanas pela Europa hospedada em casas de amigos dos amigos – que só ficavam sabendo que seriam seus anfitriões quando já era tarde demais para negar abrigo a uma mochileira indefesa ligando do telefone público da estação de trem.

É o retrato fiel de uma época e de um povo.

A época é o finzinho dos anos 80, quando o exterior era um lugar que ficava praticamente em outro planeta, e o meio de comunicação mais usado para falar com alguém que não morasse na sua cidade era a carta.

No meu próprio mochilão, feito três ou quatro anos antes do da Martha, eu fui um habituê da Posta Restante – uma espécie de Gmail do paleolítico. Seus amigos imaginavam onde você estaria e então, duas semanas antes, mandavam uma carta no seu nome para a Posta Restante do lugar. Daí você ia até a agência central dos Correios para, digamos, checar o seu inbox.

Mochileiros ou não, é admirável como naquela época a gente saísse por aí sem nenhuma reserva de hospedagem (seja hotel, albergue ou casa de amigos). Se você não tivesse a cara de pau da Martha, mofaria na fila do posto de turismo até a moça do balcão arranjar uma vaga num hotelzinho. E pensar que hoje você fica examinando centenas de resenhas de hóspedes, eliminando hotéis ao menor sinal de mau humor do recepcionista...

Mas eu estava dizendo que a história da Martha era o retrato de um povo. O povo gaúcho, bem entendido. Até pouco tempo atrás, acreditávamos que a casa de um gaúcho era território avançado (e socializado) do Rio Grande. Um lugar com mate, sofá-cama e um “sobe!” sempre a postos do outro lado do interfone.


Quando emigrei para São Paulo, fiquei quase um mês na casa da minha amiga Graça, achando que pagava a hospedagem trazendo presunto e queijo fresquinhos da padaria todo dia. Depois de estabelecido, hospedei mais três conterrâneos – que por sua vez, hospedaram muitos outros. Não passavam dois meses sem que aparecesse uma cara nova.

Esta coluna adverte: não tente fazer isso com a sua lista de amigos do Facebook.

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16 comentários

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Amigos no FB , nao tenho nenhum.
Mas amigos VnV sao os melhores anfritrioes
que existem !!

gabebritto
gabebrittoPermalinkResponder

É lendo (ou lembrando de) coisas assim que a gente vê como é fácil viajar hoje.

Zé Maria
Zé MariaPermalinkResponder

Praticamente as todas armações que faço hoje em dia são armadas no inbox do facebook. Não saio de casa sem ele.

Natalia M Gastão - Ziga da Zuca

Adorei o Gmail paleolítico!!! As aventuras e perrengues devem ter rendido boas histórias e muuuitas gargalhadas!! Sem contar os amigos dos amigos que acabam virando nossos também.
E de fato, viajar hoje, ficou mole mole!!!

Joao Lucena
Joao LucenaPermalinkResponder

Na mina primeira viagem internacional, o suposto amigo que me receberia, Era um americano que eu conheci atravez da minha amiga Gaúcha e Guia de Turismo em Fortaleza Eliza de Mesquita. O cara me deu um enderço que não existia e, claro terminei num hotel sem dinheiro... essa e muitas outras histórias, está no livro ainda sem título!

A.L.
A.L.PermalinkResponder

Tive que ir ao Google para verificar que raios é posta restante.

Hugo Loureiro
Hugo LoureiroPermalinkResponder

Como era divertido viajar anos atrás, amigo meu, saiu nos anos 70 de Cachoeiro de Itapemirim/ES (Terra do Rei) e foi com dois amigos para o Chile de carro, um VW Passat. Com passaporte, dinheiro e um mapa e nada mais. Sem celular, internet, skype, cartão de crédito/debito, nada. É, realmente, e tem gente com receio de ir ali na esquina desempacotado.

Quanto ao Facebook, fico com a frase do José Simão da Folha de S. Paulo:

"E ser famoso no Facebook é como ser rico no banco imobiliário"

Adriana Pasello

Minha última vez na casa de amigos na Europa foi em 2005... espero repetir a dose e poder contar com a camaradagem deles novamente, em breve...kkk Ah, sim, em tempo... nenhum deles é meu Face friend...kk

JB
JBPermalinkResponder

Haha, eu levava escrito o nome e endereço de uns 3 ou 4 hoteis, retirados do Frommer's, que ficavam na mesma área (normalmente nas imediações da estação de trem que era para economizar no transporte)e rezava para ter vaga em um deles. Nunca deu errado, mas hj parece mesmo uma temeridade, kamikaze mesmo diria...

Cristina L.
Cristina L.PermalinkResponder

adorei o trecho sobre o povo gaúcho - sabe que quando vou visitar amigas que moram no Paraná e Santa Catarina (e são gaúchas), sou proibida de ficar em hotel! rsrsrs independentemente de quantas ou quais pessoas estão comigo.
A última foi no Carnaval passado, nos abancamos maridão, filhota e eu na casa de uma amiga de Blumenau (querida) pelo feriadão inteiro!

Michele - PlanejandoaViagem

Adorei o "sobe!" nunca tinha me dado conta disso!!! Só tu mesmo Riq, sempre muito atento aos pequens detalhes que fazem toda a diferença!

Carmen
CarmenPermalinkResponder

Na década de oitenta, fui para ver uma amiga a Rotterdam. Eu só fui por uma semana a sua casa... mais fiquei três meses!!!

Sonia Pompermaier

Quem conheceu o minitel na França? acredito que tenha sido o precursor Da internet de hoje. Dava para fazer reservas nos trens, consultar lista telefonica e outras bobagens que nem lembro!!!morei na França de 1989 a 1993 e realmente o que chegava de conhecidos de amigos era impressionante! Tivemos filhos gemeos e viajamos pela Europa toda com eles bebes, sem internet, sem reservas de hotéis, sem blogs para consultas...e pior ou melhor que tudo sem Gps....fomos da Finlandia a Portugal e o mais mpressionante nos perdemos muito menos que nas viagens atuais com Gps!.,

Lena
LenaPermalinkResponder

Lembro bem do Minitel na França smile Meu "mochilão" foi em 89.
Mas nunca tina ouvido falar dessa Posta Restante, Ri! Puxa! Perdi isso smile

Já sobre os gaúchos, eu chamava a casa aqui em São Paulo, de um grande amigo meu, gaúcho, de albergue. Sempre tina gente! E, btw, durante meu mochilão na Europa, passei 3 semanas na casa de amigos gaúchos grin

Tiza
TizaPermalinkResponder

E sem cartão de crédito. De débito, então, nem existia. Sinto saudade daquela época. Viajar era uma aventura. Agora sofro um pouco com o excesso de informação. Parece que o assunto não se esgota. Sempre tem uma novidade, mais uma informação imprescíndivel, mas uma dica imperdível... Hoje o dificil é saber quando parar!

Rafael
RafaelPermalinkResponder

Bem legal essa crônica. Justamente ontem li esta passagem no livro da Martha.

Fico pensando na forma com que planejamos a viagem meticulosamente hoje em dia e como era antigamente, com pouquíssimo suporte e informação disponíveis. Em cada lugar uma garantia de aventura... hehe

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