Sonido (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Saí de “O som ao redor” estarrecido. Na minha cabeça – que é dada a esse tipo de simplificação grosseira – eu tinha acabado de ver um filme argentino made in Pernambuco.


Saí estarrecido, mas não rendido. Eu sabia que tinha assistido à execução de um roteiro inteligentíssimo, mas ainda era cedo para esquecer as várias vezes em que precisei trocar de posição na poltrona por causa da edição arrastada. A direção tinha grande o mérito de não deixar os atores escorregarem para o overacting típico da televisão, mas será que precisavam ser tão desanimados? O sotaque era pernambucano, mas o tom, escandinavo.

Dormi uma noite, e o filme ficou muito melhor. Há quanto tempo eu não acordava pensando no filme que vi na véspera? Eu sei que a essa altura é ocioso falar de um filme que toda a crítica já elogiou, e que até o New York Times incluiu na lista dos 10 melhores do ano passado (na companhia de “Amor”, “Lincoln”, “Django” e nenhum argentino). Mas dei uma busca no amansa-burro 2.0, o Google, para ver se ia ser redundante demais.

Se o roteiro de “O som ao redor” não for brilhante, pelo menos me enganou direitinho. O que parecia um painel sobre as relações sociais no Brasil (a promiscuidade de classes, as portas dos fundos, os uniformes, as grades, o enclausuramento ) servindo de pano de fundo para uma história de amor blasé era, na verdade, um thriller muitíssimo bem urdido. (Sim, só eu não sabia – ao contrário de você, eu não leio críticas antes de ir ao cinema.)

O que mais me impressionou na hora, e continua me impressionando agora, é a capacidade do diretor Kleber Mendonça Filhode captar a feiúra do universo da classe média alta, a duas quadras da praia. E sem forjar nenhum ângulo, nem cometer nenhum exagero de (des)produção. Confirmei por que acho Recife tão parecida com Porto Alegre. A verdade das locações e dos ambientes é espantosa, e torna ainda mais críveis todos os personagens.

Já não acho mais o filme arrastado ou desanimado. Mas um incômodo persiste. Num filme em que o som é personagem, o sotaque do protagonista não me soou pernambucano. Fui à internet. Gustavo Jahn é catarinense.

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3 comentários

marcos
marcosPermalinkResponder

adorei este filme
e como vc
acho que ele vai ficando melhor
a cada dia
parabéns ao diretor e todo o elenco !

Ana Bete
Ana BetePermalinkResponder

Puxa, eu fiquei impactada exatamente como voce se descreve na manhã seguinte. Essa é a melhor crítica que li sobre o filme, que é mesmo muito bom. Obrigada por "viajar" por ele. Ah, eu também só leio as críticas depois... Abraços!

joana
joanaPermalinkResponder

Eu acabei de sair... vamos ver se amanhã melhora, mas por enquanto as impressões são as dos 2 primeiros parágrafos.

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