O barraco das barracas: precisamos de leis sensatas sobre ocupação das praias

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

João Pessoa

Pôr do sol na praia do Jacaré, Cabedelo

Texto originalmente publicado na minha coluna Turista Profissional, que aparece todas as terças no suplemento Viagem do Estadão.

No começo de julho, os bares sobre palafitas da praia do Jacaré, perto de João Pessoa, pararam de funcionar, por ordem judicial. Nos últimos 16 anos os bares serviram de camarote para assistir ao espetáculo do pôr do sol ao som do bolero de Ravel, tocado pelo músico Jurandy do Sax a bordo de um barquinho.

Praia do Jacaré

Bar na praia do Jacaré, Cabedelo (foto: 2013)

Todos serão demolidos: o local é simultaneamente terra da União e área de preservação ambiental. O show de Jurandy vai continuar, mas só poderá ser assistido a bordo de outros barcos. E lá se foi a maior atração turística da Paraíba.

Guarderia Brasil

Barraca Guarderia Brasil, Fortaleza

Os mesmos argumentos, totalmente procedentes -- terras da União, ocupação irregular -– têm sido usados pelo ministério público para derrubar barracas de praia em todo o Brasil. As de Salvador foram ao chão -- e os entulhos ficaram dois verões na areia. As da Praia do Futuro em Fortaleza só não vieram abaixo porque a Justiça estadual decidiu que estão no “pós-praia” (o ministério público já interpôs recurso, alegando que a área é de “uso do povo”).

Que as barracas de praia ocupam terreno da Marinha é indiscutível. Que muitas fizeram edificações irregulares, poluem o ambiente e são feias de doer, não há dúvidas. Mas tampouco dá para ignorar o fato de que na cultura brasileira a praia funciona como a sala de estar. Barracas são equipamentos necessários para o tal “uso do povo”.
A questão das barracas de praia recai num velho problema nacional: ou pode tudo, ou não pode nada. É evidente que a ocupação das praias por barracas precisa ser regularizada, disciplinada e tributada. Mas proibida totalmente? É fora da realidade.

Salvador

Stella Maris, Salvador

O caso de Salvador é emblemático: as barracas eram horrendas e em número demasiado, mas o que veio depois foi pior: a invasão de ambulantes e montanhas de cadeiras empilhadas na orla, acorrentadas a coqueiros, para serem postas na areia no dia seguinte.

Bombinhas

Quatro ilhas, Bombinhas (SC)

Só em Santa Catarina a retirada foi conseqüente: mata de restinga foi replantada em toda a costa, cuidadosamente protegida por decks de acesso à areia. (Ainda assim, as barracas que resistem em Jurerê querem mostrar que podem funcionar e proteger a restinga ao mesmo tempo.)

O fim das barracas não democratiza a praia: apenas afasta banhistas e tira emprego de quem precisa. Alô, Ministério do Turismo: não está na hora de sentar com Marinha, Ministério Público e Legislativo e resolver esse barraco?

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17 comentários

Tânia
TâniaPermalinkResponder

Estive em Salvador no início do ano e fiquei decepcionada com a falta de barracas nas praias. Resultado: acabei não aproveitando o local do jeito que pretendia. Em Fortaleza, as barracas são lindas e com bom atendimento. Espero que não sejam retiradas, mas sim melhorem cada vez mais.

Daniel
DanielPermalinkResponder

Ficou decepcionada por que foi na praia e encontrou.... praia. Se gostas de ir a bar, buteco, boate, piscina, vá a um bar, boteco, boate ou piscina. Gosto de todos estes lugares mas sei que o lugar de nenhum deles é na praia. Finalmente quando as pessoas forem à praia encontrarão praia. Areia, água. Isso é praia. Ah, e não levar a farofa pra praia também ajuda. Vamos dar um passinho a mais no rumo do respeito ao meio ambiente e ao espaço alheio. O que essas barracas que lhe pareciam "lindas" representavam pra mim era um mega desrespeito e um atentado ao bom gosto, à natureza, e a quem quer.... praia. Buteco tem do outro lado da rua, é só ir.

Walfrido Pinto

Nossa, você tem razão! Não existia absolutamente nenhum trecho livre de barracas em toda orla! Era impossível achar um ponto de areia para estender sua toalha ou abrir seu guarda-sol! Da Barra ao Flamengo, tudo lotado de barracas, sem nenhum respiro! Agora você tem ido todos os fins de semana à praia para aproveitar, né?

Maria Ines Vargas

Alô !!!!
Ricardo Freire para ministro do Turismo !!!
Já falei aqui e repito !!!!
Forte Abraço !!!!

ione luzia bento

Realmente, Salvador, sem barraca é totalmente fora da realidade local.

Patricia
PatriciaPermalinkResponder

As as barracas com cadeiras de plástico horríveis!
Saudade da Austrália, praias limpas e sem nenhuma barraca, puro sossego!

A. L.
A. L.PermalinkResponder

Sou até favorável a barracas adjacentes à praia, mas nunca sobre a areia molhada (a parte que é afetada rotineiramente por marés). Lá, sobre a areia, deveria haver, no máximo, espriguiçadeiras, guarda-sois, cadeiras.

O problema é a ocupação tenebrosa que fizeram em várias áreas interessantes do litoral, ou loteando tudo e deixando umas nesgas de acesso público só, ou então construindo uma avenida muito próxima à area, sem área intermediária. Só onde há a presença de falésias ou dunas esse modelo de planejamento urbano tosco não prosperou por óbvios motivos.

Imaginemos por um só momento se o padrão de ocupação construtiva da Costa do Sauípe fosse a regra, e não a exceção, no litoral do Nordeste oriental.

Barraca sobre a areia é quase sempre sinônimo de sujeira, o lixo acaba atraindo insetos e roedores que transmitem doenças, em muitos locais não há qualquer conexão entre barraca com sistema esgoto e o mesmo é jogado ali mesmo na areia.

Além disso, a área é pública, e 95% das barracas são invasoras de terra. Podem tentar fazer licitações para uso de pequenas faixas de praia, se for o caso, mas com exigências draconianas de limpeza, iguais às dos países de legislação mais rígida na Europa, proibição de preparação de alimentos no local, proibição do cerceamento do acesso à faixa de "areia molhada" da praia, e licitação/concessão por prazos relativamente curtos, entregues para quem pagar mais.

De forma pessoal, prefiro um litoral livre tanto de barracas de praia como também de bugues, vendedores ambulantes, camionetes com sol alto estacionadas na areia e afins.

Thiago Ventura

Precisa mesmo de uma regulamentação! Estou no Sul da Bahia e o desrespeito ao ir e vir é gritante: muitas praias, mangues e falésias ficam exclusivas de barraqueiros, pousadas e resorts. O acesso é limitado e... cobrado! Desisti de passeios ao saber de taxas de até R$50. Sem falar da obrigação de taxa mínima de consumo.

Murilo
MuriloPermalinkResponder

Para mim não faz diferença manter essas barracas de praia, ao contrário: na minha opinião poderiam sumir do mapa, porque, além de usarem um bem de uso comum do povo, muitas ofendem a natureza, poluindo - a inclusive de forma visual e sonora.

Praia pra mim a praia sempre foi sinônimo de paz e tranquilidade. Bastam apenas cadeira, guarda-sol, umas garrafas de água filtrada e um pequeno lanche...

Hugo
HugoPermalinkResponder

O problema é que simplesmente proibir é muito mais fácil do que elaborar uma regulamentação criteriosa e atenta aos interesses públicos e à proteção ambiental.

Barracas montadas no local correto e bem organizadas são muito bem vindas. É impraticável para o turista levar cadeiras, isopores, água, lanches toda a vez que for viajar para uma praia. Se estiver indo de avião então, pior ainda.

Daniel
DanielPermalinkResponder

Acho que o certo é fazer seu lanche em local de comer. Vá a praia, e depois vá embora e carregue tudo consigo. Se está difícil de carregar, é que exagerou na farofa.

Gustavo - Viajar e Pensar

Boa polêmica!
Apesar de "Exemplar" as barracas aqui em Floripa, que são gourmet chamadas de Beach Clubs, sofrem também do mesmo problema e correm o risco de serem demolidas.
http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2014/12/mpf-pede-demolicao-de-beach-clubs-e-hotel-em-jurere-internacional.html

E viva o Braziu!!!
@GusBelli

Malu
MaluPermalinkResponder

A. L. , concordo e assino embaixo. Mesmo em Copacabana, onde eu já nao ia há algum tempo, me espantou. O calcadao junto à praia virou área de todo tipo de vendas com quiosque moderno e tudo o mais. Nao digo que ficou feio, isso nao, mas a gente agora precisa procurar "a entrada da praia". Se bobear, qualquer dia desses, vao cobrar entrada para se chegar até a areia. Como em Cannes e outras praias européias. Isso seria triste pois é a única diversao que o pobre tem (tinha) de graca.
E quanto a carregar cadeiras e outras coisas, as geracoes novas estao acostumadas com muito conforto. Gente, conforto demais engorda e enferruja!
E mesmo viajando-se de aviao nao é problema, a maioria dos hotéis fornece quase tudo.

Walfrido Pinto

Nossa, você é GÊNIA! Realmente todos os hotéis e pousadas do Brasil oferecem cadeiras e guarda-sóis para os hóspedes levarem para praias longe do hotel. Inclusive é bastante prático 35 passageiros levarem cadeiras e guarda-sois nos onibus de tours que vão de Maceió para Maragogi, de Fortaleza para Morro Branco, de Natal para Pipa e de Porto de Galinhas para Carneiros. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Sugestão para o Viaje na Viagem: imprimir mapas mostrando as entradas para a praia em Copacabana, já que realmente é impossível discernir a olho nu onde dá para descer para a areia, visto que o calçadão é um paredão de quisoques colados uns nos outros sem oferecer acesso à praia (não dá para imaginar como todas aquelas pessoas descem; provavelmente chegam de helicóptero, ou a nado, vindas da África).

E você tem razão: a situação na Europa é um absurdo. Tinha que haver alguma intervenção do Ministério Publico Federal do Brasil para acabar com os clubes de praia na Cote d'Azur, na Costa Amalfitana, em Capri, em Mykonos, na Sicília. Os chiringuitos da Espanha, pode coisa mais Terceiro Mundo? Poluindo Barcelona, Ibiza, a Costa Brava...

O bacana é que quando não houver mais nenhuma barraca de praia no Brasil, você poderá ficar de consciência tranquila aí onde você mora na Europa, sabendo que todas as praias brasileiras (que você não pretende frequentar nem tão cedo) estarão livres de barracas! Parabéns!

Ricardo Freire

Os chiringuitos da Espanha são uma ótima lembrança!!!! São um modelo perfeito para seguirmos por aqui. Acho que vou emendar no texto...

Malu
MaluPermalinkResponder

Problemas no fígado, Walfrido Pinto?
Pois enganou-se muitíssimo, no comeco de dezembro estarei chegando por aí para ficar 6 meses perambulando pelas praias brasileiras (seguindo as dicas do vnv smile) e os outros 6 meses pelas montanhas e lagos europeus. Em 5 semanas farei um tour (de carro) à Floresta Negra, ao Lago Constanca (Bodensee), ao Ammersee e uma "visitinha de médico" ao Oktoberfest de Munique.
Se der tempo, antes de ir para o Brasil (a malaiada já estou despachando pelo correio, toda semana uma), ainda vou fazer umas "comprinhas de natal" lá no Sentier (http://www.le-sentier-paris.com/index.php) ou em outro lugar (http://help-tourists-in-paris.com/shoppingtipps-paris/) e também visitar algumas vinícolas ao longo do Rio Mosel pra comprar o champagnezinho do Ano Novo.
Cuide bem do seu fígado, a saúde é o bem maior que a gente tem smile

Ricardo Freire

Haha, acho o comentário do Walfrido excessivamente ~irônico, mas não discordo no varejo, não.

Acho inclusive que minhas dicas de praia serão bem pouco aproveitadas por você, porque praticamente todas as praias que recomendo têm barracas bacanas (ou são recomendadas exatamente por causa delas). Se você pretende ficar seis meses na praia sem recorrer a elas, vai precisar estar sempre em pousadas pé na areia (ou ir todo dia à praia do Sancho).

Tenha cuidado ao se fixar em praias ermas ou trechos ermos de praias movimentadas. Em muitos pontos, tanto nas capitais como fora delas, as barracas proporcionam, além de sombra, refresco e comida, segurança.

Não é preciso consumir nem usar a estrutura das barracas. A areia é pública e você pode estender sua toalha ou plantar seu guarda-sol onde quiser.

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