Rio de Janeiro: como visitar com segurança

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Rio de Janeiro segurança

Basta mencionar o Rio de Janeiro, e instantaneamente aparece a pergunta: "E a segurança?". As belezas, o charme e os tesouros cariocas não são suficientes para impressionar quem está obcecado com arrastões, balas perdidas, tráfico de drogas, crise sem fim. Os cariocas parecem ser os primeiros a desaconselhar visitas à sua cidade.

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No entanto, basta caminhar por Copacabana, Ipanema ou Leblon para perceber que há mais moradores de classe média caminhando na rua e usando a cidade (fora de carros ou de shoppings!) do que em qualquer outra metropóle brasileira. Não existe lugar do país com tantas mesas nas calçadas e com um comércio de rua tão forte fora do Centro. Se o Rio é tão perigoso assim, por que tanta gente ainda está nas ruas?

Num dia de sol e calor -- em qualquer fim de semana do ano -- as praias do Rio lotam, do Leme ao Pontal. Por que centenas de milhares de pessoas insistem em se expor a arrastões?

O contra-senso continua quando você examina o turismo. A Olimpíada ocorreu na maior tranqüilidade. Não houve nenhum caso de violência contra turistas durante o Rock in Rio 2017. E o Réveillon de 2018 foi um enorme sucesso, com alta de 11% no número de visitantes e ocupação quase total dos hotéis (pela primeira vez desde a expansão da rede hoteleira para os Jogos). Os argentinos estão por toda parte, nas praias, nos pontos turísticos, nos supermercados, felizes como mineiros e Guarapari.

O Carnaval 2018, como se sabe, escapou ao controle -- tanto que acabou dando a deixa para a intervenção. Mas mesmo nesses dias conturbados, os episódios de violência foram localizados, ao final de blocos gigantescos e numa madrugada na Vieira Souto. O instagram dos seus amigos que foram passar o Carnaval no Rio atesta como se divertiram e, pelo jeito, voltaram com seus celulares intactos. (Claro que todo mundo também conhece alguém que teve o celular roubado no Carnaval -- mas aconteceu aos montes também nas ruas de São Paulo, Salvador ou Olinda.)

É assim há 30 anos

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Eu viajo ao Rio como turista há pelo menos 30 anos, e desde o fim de 2015 moro durante parte do ano na cidade. Não me lembro de nenhum momento em que viajar ao Rio ou morar no Rio não incluísse adotar um pacote de precauções de segurança. A insegurança e a violência sempre existiram. Nos lugares mais violentos da cidade, a violência de fato aumentou. Morar no Rio está de fato mais inseguro. Mas visitar o Rio, por incrível que pareça, está mais seguro -- ou menos inseguro, se você preferir -- do que antes da Olimpíada.

Continue lendo, que eu explico.

Insegurança do morador x Insegurança do turista

O Rio sofreu a crise brasileira de uma maneira muito mais intensa do que o resto do país. O estado foi à falência, o funcionalismo e os aposentados deixaram de receber, a recessão foi brutal, a população de rua aumentou. A falta de continuidade do projeto das UPPs (as unidades de polícia pacificadora, instaladas nas favelas) fez recrudescer a violência em morros e comunidades. O estado de espírito que define o carioca passou de 'descontração' para 'desalento'.

Se você precisa mandar seus filhos para a escola todos os dias; se você tem que cruzar um túnel (ou a Linha Vermelha) todos os dias para trabalhar; se o único meio de transporte que serve para você todos os dias é o ônibus; se você passa todas as suas noites num apartamento de fundos para um morro onde há tiroteios -- realmente, não está fácil.

Mas você, como turista, tem o privilégio de não precisar passar por nada disso. E ainda pode aproveitar uma série de novidades olímpicas que, de fato, aumentaram a segurança de quem visita a cidade.

A segurança do turista

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As obras de mobilidade urbana feitas para a Olimpíada cobrem quase todo o território percorrido pelo visitante e proporcionam deslocamento com toda a segurança.

O metrô, que é o lugar mais seguro do Rio de Janeiro, agora leva também ao coração de Ipanema, ao Leblon e também à Barra da Tijuca (de quebra, evitando passar pelo túnel engarrafado). Já o simpático VLT trouxe segurança aos deslocamentos pelo Centro. Use esses dois meios de transporte sempre que puder, e seus deslocamentos serão mais seguros do que aí na sua cidade.

(O exemplo mais agudo: na primeira noite do Rock in Rio 2017 aconteceu o evento mais violento daquele ano na Rocinha. O morro foi invadido por uma facção em busca do controle do tráfico local. Os moradores ficaram ilhados e correram risco de vida. Os bairros vizinhos de São Conrado e Gávea, assim como quem passava de carro na auto-estrada Lagoa-Barra, viveram uma noite de tensão insuportável. Mas nesta mesma noite, porém, milhares de espectadores do Rock in Rio passaram por ali em total segurança, na ida e na volta, alheios ao que acontecia -- por baixo da terra, no metrô.)

O novo pólo turístico da cidade -- o Boulevard Olímpico, reunindo quase duas dezenas de atrações -- é bem policiado e não registra incidentes de segurança.

O acesso ao Cristo Redentor, que era uma bandalha, está civilizado -- compre seu ingresso antecipadamente para não esperar na fila. (A propósito, dá para comprar ingresso antecipado também para o Pão de Açúcar, o AquaRio e o Museu do Amanhã.)

Com o chegada dos aplicativos de transporte (incluindo Uber & cia.), andar de táxi ficou não só mais barato, como mais seguro. A chance de um taxista dar voltas com você ou usar taxímetro adulterado (algo comum em cidades turísticas do mundo inteiro, de Budapeste a Buenos Aires) hoje é muitíssimo menor do que já foi.

A probabilidade de ser ludibriado na praia também é pequena: desde a operação Choque de Ordem, no início da década, os clientes das barracas têm fichas de consumo com preços discriminados.

Vai por mim: tome as precauções que você tomaria há dois, três ou dez anos, e você vai curtir a cidade muito mais do que há dois, três ou dez anos.

Assaltos x furtos

O risco mais comum corrido pelo turista nas áreas em que circula no Rio é o de ser assaltado. Mas não é muito mais alto do que em qualquer outra metrópole brasileira. Em São Paulo, Porto Alegre ou Fortaleza também não é recomendável andar por ruas ermas, nem usar o celular displicentemente na calçada. Em que grande cidade não temos receio de parar à noite no sinal vermelho, ou ficar preso no engarrafamento com celular ou bolsa à mostra? Não deixe de ir ao Rio por causa de um problema que também existe na sua cidade.

Em compensação, turistas brasileiros e estrangeiros estão praticamente a salvo no Rio de um contratempo muito freqüente em destinos não têm fama de inseguros: os furtos. Não há, no Rio (e no Brasil em geral) as quadrilhas de mãos-leves que surrupiam dinheiro, carteira e celulares nas aglomerações e nos transportes públicos de cidades como Paris, Barcelona, Lisboa ou Santiago. Só há furto sistemático no Rio em mega-shows e no Carnaval de rua. O metrô e as atrações turísticas, porém, são seguros.

(Se você quer conhecer histórias tristes de furtos a turistas brasileiros no exterior, clique neste post sobre golpes na Europa e neste outro sobre problemas nos táxis e metrô de Santiago.)

E a intervenção?

  • Bem-recebida pela maioria da opinião pública, a intervenção federal na segurança do Rio teve um efeito psicológico inicial positivo. Sem entrar no mérito das medidas, a mera noção de que 'algo está sendo feito' é reconfortante para muita gente, e isso se reflete no humor da cidade. A sensação de vale-tudo incontrolável deixada pelo noticiário do Carnaval se dissipou. Relacionado ou não à intervenção, o fato é que dá para perceber um aumento do policiamento nas áreas turísticas da Zona Sul, sobretudo ao longo da praia e na av. N. Srª de Copacabana.

Dicas para reduzir a sua sensação de insegurança

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Hospede-se perto do metrô

O segredo de curtir o Rio é diminuir a sensação de insegurança. E isso acontece naturalmente quando você toma as precauções adequadas e vai percebendo que há vida normal ao seu redor.

Muitas dessas precauções são exageradas, mas ao seguir esse receituário você vai se sentir mais tranqüilo (e, de fato, vai reduzir riscos, por pequenos que sejam).

O kit básico de precauções é o mesmo que você já usa na cidade onde mora (e se não usa, deveria passar a usar):

  • Saia para andar na rua sem correntinha ou relógio
  • Não fique de bobeira na calçada com o celular
  • Leve a câmera numa bolsa (trespassada no corpo) e tire só na hora de usar
  • Se não tiver nada para carregar, saia sem bolsa. Cada penduricalho a menos é uma tranqüilidade a mais
  • Não caminhe à noite por lugares ermos
  • Espere o táxi ou Uber chegar para então sair da portaria ou do restaurante

Acrescente essas dicas específicas para o Rio, que vão ajudar você a reduzir sua sensação de insegurança ao mínimo:

  • Identidade + 1 cartão de crédito (ou débito) + o cartão do plano de saúde + uns trocados: isso é o suficiente para qualquer saída ou passeio no Rio. Deixe a carteira no cofre do hotel, e você sairá à rua com mais tranqüilidade
  • Use sempre que puder o metrô e o VLT -- ambos, mais seguros do que andar de bonde e metrô na Europa...
  • Até a situação voltar a sossegar, não faça passeios em comunidade, tipo favela tour
  • Ao andar de carro (ou de táxi ou Uber), prefira o GPS do Google Maps, que escolhe o mais rápido entre percursos convencionais, ao Waze, que na ânsia de descobrir a rota mais curta pode mandar passar por quebradas inseguras
  • Caso precise transitar pela Linha Vermelha, túnel Rebouças, túnel Zuzu Angel, avenida Brasil ou Linha Amarela, não se estresse por antecipação. É verdade que são os corredores de trânsito mais vulneráveis a tumulto na cidade. Mas lembre que pelo menos 150.000 carros passam por dia por cada uma dessas vias -- 99,99% das vezes sem ocorrências mais graves que um engarrafamento
  • Hospede-se perto do metrô (veja indicações aqui). Além de mais seguro, é mais conveniente para turistar
  • Precisa sacar dinheiro? Existem caixas do Banco 24 Horas na maioria das estações do metrô. Faça o saque quando estiver voltando para o seu hotel. Você elimina o receio de alguém ver você entrar e sair da agência do banco. (É mais seguro do que sacar dinheiro num caixa aí da sua cidade)
  • Em Ipanema e Leblon, evite caminhar por ruas de passagem que não tenham comércio, como Prudente de Moraes e Joaquim Nabuco (Ipanema) e General San Martin (Leblon). Para deslocamentos a pé entre os dois bairros, use as ruas principais, Visconde de Pirajá e Ataulfo de Paiva
  • A rua Francisco Otaviano, entre o Arpoador e Copacabana, deve ser evitada na saída da praia nos fins de semana
  • Ao usar a saída D da estação de metrô General Osório, evite passar pela rua Sá Ferreira, que tem dois pontos críticos. Use a rua paralela (a Sousa Lima) e seu caminho será bem mais sossegado
  • Sábado à tarde e domingo, evite cruzar a região dos Arcos da Lapa e também o Largo da Carioca a pé. Nesses dias, visite a Escadaria Selarón de táxi ou Uber

Segurança na praia

Rio de Janeiro segurança

Calma no Brasil. A praia do Rio não é o lugar conturbado que tantos (incluindo cariocas) pensam.

Arrastão na praia é evento raríssimo

Arrastões na areia existem -- mas são tão raros que, quando acontecem, saem no jornal. São eventos traumáticos (um corre-corre dos diabos, provocado sobretudo pela reação aos pivetes). No entanto, em comparação a outras modalidades de arrastão (no túnel, no engarrafamento, no ônibus), os arrastões na praia se encaixam mais na categoria tumulto do que na de assalto. E repito: são raríssimos. O momento crítico é o fim da tarde de domingo durante o verão, no Arpoador. Vá à praia no meio da manhã, em dias de semana, e você supera esse pânico rapidinho.

A insegurança está no calçadão

O calçadão de Copacabana (dos dois lados da avenida) é o campo de atuação dos pivetes que praticam pequenos assaltos, em qualquer dia, a qualquer hora. O método é comum: os moleques 'marcam' sua vítima e, na primeira chance, dão o bote (seja correndo, seja de bicicleta), arrancando o que querem roubar. A maneira de evitar ser a próxima vítima é não dar motivos para ser 'marcado'. Não é difícil: basta tomar exatamente as mesmas precauções que você tomaria ao andar na rua em qualquer grande cidade do Brasil. Não caminhe pelo calçadão portando correntinha ou relógio. Não fique despreocupadamente ao celular. Na hora de tirar sua selfie ou usar sua câmera, escolha um ponto junto a um quiosque. Carregue a câmera dentro da bolsa, e leve a bolsa trespassada no corpo. Andando junto à ciclovia você estará vulnerável a pivetes que passem de bicicleta; é mais seguro caminhar na faixa da calçada junto à areia.

À noite, evite o calçadão de Ipanema, que fica totalmente ermo.

Na areia é sussa

Na areia você está mais seguro do que imagina. Furtos (quando você é roubado sem perceber) podem acontecer, mas no Brasil não temos profissionais com a qualidade dos que surrupiam carteiras e celulares a rodo no metrô de Paris ou da rambla de Barcelona. Evidentemente, não dá para deixar seus objetos de bobeira. Leve uma bolsinha tipo saco para o celular e dinheiro, e amarre na cadeira ou nos aros do guarda-sol. E deixe com um vizinho quando for cair n'água. Carregue o mínimo de tralha para a praia (pra que levar a carteira inteira? não precisa!) e seus dias serão mais tranqüilos. Se precisar, use o guarda-volumes do posto salva-vidas mais próximo. Na terceira ida à praia a paranóia já vai ter passado.

As praias mais seguras

Rio de Janeiro praias: Barra

Barra da Tijuca (hotel Hyatt)

Na Zona Sul, Praia Vermelha, na bem-policiada Urca, e Leblon, sem comunidades ou ponto final de ônibus por perto, estão fora do perímetro dos arrastões.

A Zona Oeste há muito serve de refúgio aos cariocas paranóicos com segurnça nas areias. Considere as praias da Barra da Tijuca e além (Reserva, Recreio, Prainha, Grumari).

Clique para dicas de segurança no Réveillon aqui.

Clique para dicas de segurança no Carnaval aqui.

Leia mais:

2 comentários

Rafael
RafaelPermalinkResponder

Enquanto nosso guru Ricardo Freire disser que vale a pena, vou continuar indo pra lá, pois mineiro também é muito feliz no Rio de Janeiro!

Tabita
TabitaPermalinkResponder

Amo suas dicas! Obrigadaa!!!

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