Rio: Largo do Boticário vai ser revitalizado e ganhar um hostel aberto à cidade

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Largo do Boticário revitalização

Uma vila de casarões quase centenários, cercada pela mata atlântica que ainda resiste no bairro do Cosme Velho: assim é o Largo do Boticário, um dos lugares mais encantadores do Rio. Escondido atrás de um beco, a salvo do burburinho da rua Cosme Velho, o largo preserva o sossego da época em que foi ocupado, a década de 20 do século passado.

O casario, porém, estava decrépito há alguns anos. As casas, fechadas (uma chegou a ser invadida), esperavam em vão por compradores que se dispusessem a fazer reformas e morar ali. Em abril de 2018, uma lei municipal finalmente autorizou a mudança de uso e a reforma do espaço, desde que mantida a arquitetura original.

A nova lei era o que o megagrupo hoteleiro francês Accor (leia-se: Ibis, Mercure, Novotel, Sofitel) esperava para fechar a compra de todas as casas, por R$ 20 milhões, e anunciar um plano de reformas de mais R$ 50 milhões para instalar ali um hostel multiuso que promete reabrir o Largo do Boticário para os cariocas.

Jo & Joe, o hostel 3.0 do Largo do Boticário

Largo do Boticário revitalização

O Largo do Boticário vai receber a primeira unidade da rede de hostels Jo & Joe, a mais nova bandeira da rede Accor. Desta vez, em vez de comprar marcas já existentes (como foi o caso com Mama Shelter, Fairmont, Raffles e Swissôtel), a companhia desenvolveu o conceito do zero.

O material de divulgação define o Jo & Joe como uma 'open house' -- um lugar aberto à convivência entre visitantes e moradores da cidade. O lugar vai combinar hostel, hotel, espaço de co-working, bar, restaurante e balada. A idéia é criar um pequeno bairro com pegada millennial.

O hostel vai oferecer grandes dormitórios compartilhados, e também dormitórios menores que podem ser reservados inteiros por grupos de amigos ou famílias, além de quartos privativos, como num hotel. As diárias das camas, a preços de hoje, custariam entre R$ 80 e R$ 100 nas reservas individuais, e entre R$ 40 e R$ 50 nos dormitórios fechados em grupo -- sempre incluindo o café da manhã.

Como o Largo do Boticário fica longe da orla (mas a passos do Trem do Corcovado), o hostel vai oferecer vans para as praias urbanas (Copacabana, Ipanema) e também para as praias de surf da Zona Oeste (Prainha, Grumari). O Largo é bem servido por ônibus que levam em menos de 10 minutos à estação Largo do Machado do metrô, de onde se chega rapidinho ao Centro (conectando com o VLT na estação Cinelândia) e aos outros bairros da Zona Sul.

O complexo deve abrir entre 80 e 100 vagas de trabalho. O 'casting' dos funcionários vai priorizar a carioquice e a diversidade (mas virar-se em inglês será um requisito fundamental).

O projeto de reforma está a cargo do escritório de Ernani Freire, especialista em renovação de patrimônio histórico, que já recuperou a Casa Daros em Botafogo e o Parque das Ruínas em Santa Teresa.

A abertura está prevista para 2020.

Jo & Joe em Paris ainda em 2018

O primeiro Jo & Joe foi inaugurado em 2017, em Hossegor, um vilarejo de praia perto de Biarritz, na costa atlântica da França (point clássico de surfistas).

Até o fim de 2018 deve abrir o primeiro dos três Jo & Joes previstos para Paris. Vai se localizar na Porte de Gentilly, no limite sul de Paris, junto ao Boulevard Péripherique que contorna a cidade. Serão 600 camas, acompanhadas por espaços de co-working, alimentação e diversão que devem atrair os 10.000 estudantes residentes na Cidade Universitária Internacional que fica a 10 minutos de caminhada. O hostel vai estar a 5 minutos da estação servida pela linha RER B, que é mais expressa que o metrô e está a 5 paradas de Saint-Michel, próximo ao Quartier Latin, e 6 paradas de Châtelet-Les Halles, já na Rive Droite.

Rio: luz no fim do túnel?

Se você quer ter esperança de que o Rio de Janeiro vai sair do buraco, é só prestar atenção nos movimentos no grupo Accor. Em meio à maior crise de imagem do Rio de todos os tempos, a Accor mantém inúmeras frentes simultâneas de investimento -- fazendo hedge para quando a economia do turismo se recuperar.

A companhia continua investindo mesmo depois de vários anos ampliando sua presença na cidade para Copa e Olimpíada, com novos Ibis na Praia do Pepê, Posto 5 em Copacabana, Porto Maravilha e Parque Olímpico; novos Ibis Budget no Posto 4 em Copacabana e em Botafogo; novos Novotel em Botafogo, na Barra da Tijuca, no Parque Olímpico e no Porto Maravilha; novos Mercure na Praia do Pepê e no Riocentro (um Grand Mercure); e dois hotéis em Santa Teresa, o luxuoso Hotel Santa Teresa MGallery by Sofitel e o moderninho Mama Shelter.

Recentemente -- já com a crise instalada -- a Accor assumiu um lote de hotéis do grupo BHG, que inclui quatro unidades no Rio. O Continental, no Leme, virou Novotel Leme; o Golden Tulip Regente Copacabana se tornou Grand Mercure Copacabana; o Tulip Inn Copacabana passou a ser Mercure Copacabana; e o Royal Tulip, em São Conrado, está fechado para total renovação e reabertura como Pullman Rio.

No front de luxo, além do Pullman Rio, o grupo deu uma arejada total no sisudo Caesar Park Ipanema para se tornar o Sofitel Ipanema com espírito mais praiano, e está há mais de um ano recondicionando o antigo Sofitel Rio para reabrir como o primeiro hotel Fairmont do país.

Largo do Boticário revitalização

De tudo isso, no entanto, a revitalização do Largo do Boticário para a implantação de um novo conceito de hospedagem é a notícia mais alvissareira.

O Viaje na Viagem também não desiste do Rio. Eu estou há dois anos dividindo meu tempo entre São Paulo e Rio, e cada vez mais apaixonado pela cidade. Se você quer saber o que está perdendo, veja aqui.

(Ah, sim: comentários riofóbicos não serão publicados. Obrigado.)

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7 comentários

Mô Gribel
Mô GribelPermalinkResponder

Quando me mudei pra SP 20 anos atrás, o Largo do Boticário já estava feio e precisando de restauração. Era vizinha dele e estava no meu caminho de todos os dias.
Fiquei bem feliz com a notícia.

Julio Cesar Goncalves Correa

Nenhuma capital brasileira passou pelo o que o Rio passou. Dormiu capital federal, acordou como todas as outras; com uma canetada, deixou de ser capital de um estado pequeno e rico (Guanabara) para ser capital de um monstrengo atrasado e pobre; foi tubo de ensaio para políticos que não entendiam nada da cidade e saqueada por outros, que fingiam que a amavam. Mas o Rio tem vocação de volta por cima. Pois, parece que dar certo estar no seu DNA e este parece ser o seu destino. Você pode saquear um estado ou uma cidade, mas não ninguém rouba a criatividade e a beleza de seu povo. Sou carioca da gemae também estou otimista. Abraço!

Dani Rotti
Dani RottiPermalinkResponder

"Se você quer ter esperança de que o Rio de Janeiro vai sair do buraco, é só prestar atenção nos movimentos no grupo Accor." Eu acredito! Rio, eu te amo!

Patricia Veras

Nossa, pense numa noticia boa!! Acho esse largo a coisa mais linda, sempre achei desperdiçado e adoraria ver aquelas casinhas por dentro. Amei a notícia! Obrigada, Riq.
Tb não desisto dessa cidade linda! já morei e adoro passear. Aliás, no ultimo finde finalmente conheci o Museu de Belas Artes. Vale a visita. Vários quadros dos nossos livros de história, telas imensas, muito bacana.

Maryanne
MaryannePermalinkResponder

Que projeto interessante do grupo Accor. Vai ficar maravilhoso. Eu também torço muito pelo Rio, mas não sou tão otimista. Vamos aguardar.

JULIANO ALMEIDA

Projeto muito interessante! Tomara que seja um sucesso!

Clarindo Velasque Gama

Acho q todos os lugares q marcaram época no Brasil deveriam ser mantidos e não abandonados como esse largo q marcou a história do Rio!

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