A Copa do turismo

Minha coluna na Época desta semana.

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Esta semana muita gente ficou contrariada ao se confirmar que o mesmo país que realiza os carnavais do Rio, de Salvador, do Recife e de Olinda, que organiza o réveillon de Copacabana, que sedia o Grande Prêmio de Interlagos, que promove o Círio de Nazaré, que monta o Festival de Parintins, que faz a maior Parada Gay do planeta e que exporta o Rock in Rio foi escolhido para realizar a Copa do Mundo de 2014. Quer saber minha opinião sobre a Copa no Brasil? Já não era sem tempo! Tradição futebolística à parte, não existe nenhum país mais apto do que o Brasil para sediar uma Copa do Mundo, hoje.

Juro que não estou sendo cínico. Não há uma ponta sequer de ironia no parágrafo acima. O fato é que a Alemanha, em 2006, implantou um novo paradigma para as copas. Na Alemanha o futebol foi apenas uma desculpa para uma grande festa. As cidades-sede transformaram-se em palcos de uma espécie de carnaval que durou um mês inteiro. Alguém aí conhece um lugar do planeta com mais tecnologia para realizar um carnaval de um mês de duração?

A lambança das contas do Pan do Rio pode servir como mau presságio ao que virá por aí, mas ainda assim é um paralelo imperfeito. Cada cidade-sede vai precisar construir ou remodelar um estádio, dar-lhe um acesso civilizado, organizar um festódromo permanente e pôr a polícia ostensivamente na rua. Nada tão impossível (nem tão caro) assim. O grande problema não está em como deslocar a massa de visitantes entre seus hotéis e os estádios. O maior desafio – e também a maior oportunidade da Copa – está em como deslocar a massa de visitantes Brasil afora, entre um jogo e outro.

Como levar todos os que vão querer passar em Foz do Iguaçu? Como conciliar a agenda do torcedor italiano com uma excursão aos Lençóis Maranhenses, ou do torcedor japonês com um pulinho no Pantanal? Surpresa: a Copa não vai ser disputada só nas cidades-sede (algumas delas, por sinal, sem atrativos ao turista estrangeiro). Durante um mês o Brasil vai ter a chance de fazer-se degustar. Ganhando ou perdendo no campo, não deixaremos de ser uma potência futebolística. Mas se ganharmos os jornalistas e torcedores que vierem nos visitar, podemos finalmente nos tornar uma potência turística.

Qual é a importância disso? Faz décadas que o Brasil investe em infra-estrutura de turismo. Mas de nada adianta montar um parque turístico que seja usado apenas entre o Natal e o Carnaval por brasileiros em férias escolares. Para um país com o nosso clima, temos a baixa temporada mais injustificavelmente longa do mundo. Para fazer frutificar os investimentos feitos nessa área, precisamos de gringos de março a dezembro.

Claro que não dá para esquecer que o Brasil é também o país do apagão aéreo, de “Tropa de Elite”, da avalanche do Rebouças, dos cardápios e placas monolíngües e dos taxistas que não sabem nem os números em espanhol. Nada que não possa ser melhorado nos próximos seis anos e meio.

A Copa pode inclusive dar a deixa para uma série de medidas modernizantes – como a privatização dos aeroportos, por exemplo. Cidades com legislações hoteleiras ultrapassadas, como o Rio de Janeiro, podem se ver obrigadas a buscar soluções para estimular a construção de novos hotéis. Numa situação dessas, é mais fácil abolir – ao menos temporariamente – a exigência de vistos a turistas de mercados importantes, como Japão, Estados Unidos, México e Austrália.

Há muito que ser feito, e seis anos passam rápido. Mas para quem faz o Réveillon de Copacabana, uma Copa do Mundo é fichinha.

 

40 comentários

Tomara que as perspectivas otimistas se confirmem. Torço sinceramente por isso. Queria estar errado, mas acho que mesmo com toda fiscalização, mesmo com uma atuação rigorosa do Ministério Público e das autoridades fiscalizadoras (já vejo notícias e comentários de que elas estão “atravancando” a realização das obras necessárias à Copa), creio que a Copa 2014 vai ser encarada como mais uma oportunidade de se adotar medidas “maquiagem”, isto é, aquelas que não duram ou duram pouquíssimo, sempre com superfaturamento, ou seja, assalto aos cofres públicos. É duro de ouvir e difícil de aceitar, mas o mal do Brasil somos nós, os brasileiros, que sempre queremos faturar (o tão criticado mas sempre presente “jeitinho”).

Penso como alguns acima. Quem não tem governantes sérios nem honestos, não tem saúde, rodovias, aeroportos, educação, ferrovias e ainda padece com muitas outras mazelas não tem condições – nem merece – sediar um evento grandioso como uma Copa do Mundo de futebol. Mas a coisa já está resolvida e agora resta a cada um de nós fazer nossa parte (sem querer levar vantagem, espera-se).

Reconheço que sou minoria e, como já disse antes, quero muito estar errado. Mas, por enquanto, é o que penso, apesar da coluna do Ricardo Freire na Época.

Paulo Sérgio

Bem, se vc conhece o Brasil, sabe dos sérios problemas que temos aqui. E é pensando nos que mais precisam que acho que o Brasil não deveria gastar tanto (pois vai gastar) com a minoria vai aproveitar.
E depois, tenho certeza que só mesmo qas zonas turísticas serão protegidas como Exército. Passada a Copa, nós, brasileiros, continuaremos perdendo nossos entes queridos com bala perdida, dengue hemorrágica, sequestros, assaltos à luz do dia e sem dinheiro para sairmos para um país melhor.
Desculpa se pareço tão pessimista mas é a relidade brasileira que me faz ser assim. Adoraria poder vibrar quando anunciaram sobre a Copa aqui. Mas um dia antes, vimos uma reportagem sobre a seca no Nordeste onde pessoas sofrem sem condições e me coloquei no lugar delas. Será que elas preferem assistir a Copa (na tv, se tiverem uma, claro) ou ter água e comida ?
É um caso a pensar, né?
Mas gostei do seu texto.
Beijocas.

Caros,

Li a matéria e adorei. Há algum tempo tinha refletido sobre isto e esta é a razão de eu comentar o artigo.

Discordo 100% do nosso amigo Bruno, já que um evento como este traz muitos investimentos ao país, gera emprego e reflete positivamente a imagem do Brasil. São negócios de curto e a longo prazo. Movimentam a economia e beneficia a sociedade como um todo.

O Brasil não explora e não conhece o seu potencial para o turismo. O país ainda é muito caro para o estrangeiro e o próprio brasileiro conhecer. Já muitos não vêm por causa do custo. Sem contar alguns que reclamam da exploração quando se percebe que você é um “gringo”.
As distorções de preços entre alta e baixa temporadas são impressionantes.

Capitais como Buenos Aires, há turistas por todas as partes o ano todo. Ponto para eles.

Muitas vezes investimos para atrair americanos e europeus quando poderíamos explorar a proximidade e divulgar o Brasil entre nossos vizinhos.

Infelizmente, há uma série de desafios descritos anteriormente que necessitam de soluções. Segurança pública e transportes públicos são apenas alguns deles.

Talvez o maior desafio para realização da copa seja o próprio brasileiro. Creio que o próximo passo, além de obras, é envolver a população. Seja campanhas publicitárias, escolas, mídia.

Apesar de alguns acharem absurdo e engraçado o que a China tem feito para educar a população para as Olimpíadas. Acredito que deve servir de modelo para o Brasil se preparar para 2014. Campanhas para não furar filas, não cuspir e jogar lixo no chão fazem parte dos preparativos. Eu incluiria campanhas de transito também.

(segue o link)
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/02/070211_china_olimpiadas_pu.shtml

Ótimo artigo!
Um abraço!
Marcos

Ricardo, Boa Tarde!

Sou assinante da Revista Época e li sua materia dessa semana, e gostei
muito e achei muito interessante. Mas têm um porém, gostaria de saber sua
opnião sobre a seguinte questões: Copa no Brasil.

O Brasil irá gastar + ou – 5 Bilhões de reais para ser realizado a Copa
aqui. Agora eu te faço minha pergunta: Com todo esse dinheiro não poderiamos
acabar com a Fome, Desemprego, e o principal, melhorar 99,9% a saúde pública
? e será usado sim, o dinheiro público para acontecer esse evento aqui no
Brasil.

Bom, é só essa minha pergunta.
Eu AMO de paixão futebol, mas a Copa do Mundo aqui no Brasil… isso me deixa
muito nervoso. “O povo brasileiro é muito BURRO”

Obrigado,
Bruno!

A Copa do Mundo em 2014 será uma ótima oportunidade para o Brasil divulgar mais seus destinos turísticos e quem sabe os amazônicos e do Pantanal.

Das possíveis sedes eu não vejo infra-estrutura em São Paulo para receber uma Copa. O trânsito é um verdadeiro inferno e os serviços péssimos. Não existe nem estação de trem e metrô nas portas do Morumbi – como existe no Estádio do Maracanã.
O sofrimento dos turistas começa na falta de orientação nos aeroportos e refém dos mesmos na volta pra casa. Tenho medo também de algum atentado do PCC ou de terroristas mesmo aproveitando o péssimo controle de viajantes. Caso recente do garoto que viajou de avião para São Paulo sem pagar se quer passagem.

O Pan Rio 2007 foi um grande teste para o Rio de Janeiro e ele passou com louvor. Foram 1.9 milhões de ingressos em 332 eventos e nenhuma futura sede da Copa receberá metade da metade desta quantidade de ingressos. O sistema de transportes também funcionou muito bem. Parte da mídia torceu contra, mas os Estádios ficaram prontos, não aconteceu nenhum caos no trânsito e o público foi um show, com exceção de um “peladeiro do basquete” e reclamações isoladas num evento deste porte.

No resto é uma ótima oportunidade para o Brasil facilitar o visto de visitantes internacionais.
Turistas são pacifistas por natureza. É um absurdo tratar turistas dos EUA com exigências desnecessárias enquanto na outra ponta se facilita visto de trabalho e dos empresários que aqui aportam somente para explorar boa mão-de-obra barata.
A desculpa de reciprocidade, respeito e tratamento igual ao que sofremos nos EUA , é sem sentido, já que aqui dentro não sofremos ações de terrorismo ou invasões de trabalhadores desequilibrando nosso mercado interno.

Pior que isso é um juiz posar de defensor da constituição e pedir respeito dos turistas internacionais, quando não somos respeitados em nossos direitos aqui mesmo no Brasil e pelos três poderes.

Sempre adorei teu estilo positivo, otimista. Mas gastar dinheiro em uma festa dessa – lembrando que o Pan foi superfaturado por 7x – enquanto o país não tem hospitais, aeroportos, escolas, estradas, portos, combustível, eletricidade, bem… não consigo concordar contigo.

E, juro, eu tentei 😉

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