Ado(p)ção (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Rotas & Destinos, Portugal

Na ida e na volta de minha expedição turístico-futebolística a Dubai (a parte antes do hífen correu à maravilha) aproveitei para dar um rolezinho pela Europa. Passei um frio dos diabos (um clichê inteiramente desprovido de sentido, já que no lugar onde os diabos moram faz um calor dos infernos), mas vivi ótimos momentos.

Tive a felicidade de passar por Munique e Viena e constatar, extasiado, que nem a Alemanha e tampouco a Áustria aboliram o trema.

Voltei a Praga – onde a neve conseguiu espantar até mesmo os vendedores de quinquilharias que estragam as fotos na Ponte Carlos – e mais uma vez fiquei com vontade de aprender tcheco, esse esplêndido idioma em que até as consoantes levam acento.

No caminho de volta, fiz uma rápida paradinha em Lisboa para uma conexão – tempo suficiente para encher uma sacola de jornais e revistas portugueses e ver que a esperança ainda não morreu.

Qual esperança? A minha esperança de que Portugal nunca venha a ado(p)tar o acordo ortográfico. (Sim, eu ainda não virei esta página.)

Todos os jornais e revistas que comprei para ler no vôo (sem acento, snif) continuavam a usar aquelas deliciosas consoantes mudas que dão cor ao texto luso. Sinceramente não acredito que eles aceitem todos ao mesmo tempo jogar todinhas fora –  um, dois, três, já.

Pressinto que no dia marcado para a ortografia antiga entrar para a ilegalidade haverá jornais, revistas e editoras portuguesas que peitarão a ordem estabelecida. À diferença de nós brazucas, que aceitamos tudo passivamente (e hoje não podemos mais conjugar o verbo parar na terceira pessoa do singular, sob pena de não sermos compreendidos), os tugas hão de resistir (e com hífen entre o “hão” e o “de”).

Enquanto os brasileiros de vez em quando se confundem na hora de escrever uma ou outra palavrinha numa ortografia que para nós é apenas nova, os portugueses vão precisar aprender a escrever centenas de palavras numa ortografia que para eles não é nada nova: é brasileira. Pense no contrário: o Itamaraty jamais permitiria que o Brasil passasse por semelhante humilhação.

Só a desobediência civil ortográfica salva. Alô, Portugal! Não me deixe só!

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26 comentários

Era eu um garotinho que começava apenas a juntar letras quando o Governo decidiu fazer uma reforma ortográfica (1971), agora imagina que as minhas professoras nos próximos anos senhoras já bem habituadas ao escrever, demoraram a aprender e apreender este novo idioma que acabava, entre outras coisas com acentos diferenciais.
Mas nenhuma reforma imposta pelo Governo foi igual àquela que alterou a minha, e de tantas outras pessoas, identidade cultural, impondo-me uma nova, e quando eu faço a minha declaração confundo as pessoas porque digo que sou nascido e criado em Aracaju, mas não sou nordestino, porque me tornaram nordestino.
Explico-me sou da mesma safra do Riq, quando nasci Sergipe, assim como a Bahia, pertencia à extinta Região Leste (SE, BA, MG, ES, RJ e GB=Guanabara), mas em 1970 mudaram a geografia Regional e passaram Sergipe e Bahia para a Região Nordeste. Aliás, voltando à vaca fria da reforma, Sergipe e Bahia são exemplos de rebeldia à ortografia, pois pelas regras Sergipe deveria ser escrito com “j”, já que é palavra de origem tupi-guarani, e Bahia sem o “h”

Ricardo Freire

Fiquei duplamente satisfeita pela sua posição em relação ao acordo: 1º porque, ostensivamente, recuso a sua adopção, mesmo sendo professora (declarei aos alunos que nos trabalhos deverão declarar a sua adopção ou não, para que eu possa distinguir os erros ortográficos da adopção do acordo)e 2ª por ser um brasileiro a ter uma posição crítica face a esta submissão a que, nós portugueses,temos que nos sujeitar. Ou seja, louvo a sua imparcialidade. De facto (“fato”, para nós é “terno”…imagine numa frase dizer-se “De terno hoje está frio” :-)) alguma da imprensa portuguesa já adoptou o acordo mas, em entrevistas, acontece, não raras vezes, os entrevistados exigirem, naquele texto, manter a escrita pré-acordo.
Um abraço e votos de Um Ano Novo, Velho na escrita!

Perfeito – só para variar!
Eu não suportei esse acordo ortográfico e continuo a escrever tudo como era antes… pode parecer burrice ou desatualização, mas é teimosia mesmo! rs Achei um absurdo td isso, só que sempre que reclamava, me sentia sozinha. Estou com Portugal e aplaudo os jornais, revistas e td mais que continue usando a escrita antes da reforma!
Bjs,
Manddy
http://tourdubaiguide.blogspot.com

Em o meu pais também há trocos.
Em Espanha a RAE (real academia española de la lengua) quere unificar um idioma que fala muitos pessoas fora do meu pais. Unficado eles têm uma série de palavras faladas na América do Sul. Em Espanha foi sempre com acento “guión” y “truhán”, mas agora essas palavras perdem acento, porque em outros países de língua espanhola, tais palavras são pronunciadas de maneira diferente e são escritas sem acento, exemplo “sólo” com acento de “solamente” e solo sem acento de pessoa sozinha ou sozinho. Uma confusão total!

Mesmo com suas falhas, acho positivo o Acordo Ortográfico e sou favorável à uniformização da linguagem entre a lusofonia. Os francófonos fizeram isso há mais tempo (embora, por motivos particulares, de forma totalmente distinta).

Quando mais homogênea a língua, tanto melhor. Sou até favorável, aqui já no domínio da mera preferência individual que dificilmente se realizará, que sotaques regionais deixem de ser valorizados no Brasil e que o tempo em que falar “diferente” do padrão (primeiro do Rio, depois de São Paulo junto com o Rio) era visto como algo jeca, atrasado.

Ricardo, não devemos ler a mesma imprensa – a que me chega às mãos já capitulou… até o canal estatal RTP1. Por aqui nós achamos que vocês não perdem nada (o que é um tremazinho comparado com as nossas milhentas consoantes mudas?) e que todo este acordo é um 1822 invertido (sério!!).
Como já escrevi há tempos, o que é mais curioso é que a imprensa aparece muito prestimosa a ir atrás do dono, mas o próprio Ministério da Educação não enviou até ao momento nenhuma indicação para introduzir nas escolas o Acordo. Não é um bocado esquizofrénico?
Como ensino Português, espero (não) ansiosamente o momento em que tenha que corrigir textos com o Acordo ao lado, pois não vou conseguir interiorizar as mudanças de um dia para o outro. Para piorar também vão ser alterados imensos aspectos da gramática e outros aspectos do Programa da disciplina (novas designações e modos de proceder). Ou seja tempos muito difíceis se avizinham. MEDO!!!

    Comprei o “Público”, um outro jornal que não guardei (acho que era o Diário de Notícias), uma “Rotas & Destinos” e a “Time Out Lisboa”. Todos ainda na ortografia pré-acordo.

    Na internet eu já estava acostumado a encontrar textos da Agência Lusa já reformados, sempre terminados com a ressalva, quase a desculpa, de seguir as novas regras.

    O que eu acho mais bizarro nessa “uniformização” é que, além de manter várias grafias opcionais (crônica/crónica, equipe/equipa, registro/registo, fato/facto), o acordo cria palavras em Portugal que não existem no Brasil (“receção”, “aspeto”…).

    Só falta o “pessoal” do acordo ortográfico dedicir que o Riq deverá ser chamado de Ric na escrita! 😛

    Por isso é que é difícil ensinar…
    Mas tem razão quanto ao Público, eu leio-o diariamente na escola. Estava-me a esquecer.

Ricardo,óptima crónica, como sempre…haja forças para resistir a este disparate em que os dois lados estão descontentes!
Isto já para não falar nos países africanos de língua portuguesa, esses mal têm recursos para dar manuais à população, quanto mais para os mudar!
Infelizmente, já se perderam batalhas aqui em Portugal: algumas televisões e jornais já estão a usar o acordo ortográfico 🙁

Marcie,

Sejamos todos desobedientes. Sou professora mas, espertinha e turrona, me aposentei assim que soube das novas regras ortográficas (não só por isso, claro). Vou ficar antiga e falar para os meus netos, quando vierem, “no meu tempo havia o trema, acentos diferenciais…”

Desobediência já!! E plagiando o Alexandre, eu também não quero ser reformado ortograficamente. 😆

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