África do Sul 2010: como vai ser a Copa do turista brasileiro

Versão ampliada de um artigo originalmente publicado na minha página Turista Profissional do caderno Viagem & Aventura do Estadão.

Cidade do Cabo: a torcida fica metade do tempo aqui; o Brasil só vem jogar no dia 29 de junho ou 6 de julho
Cidade do Cabo: o Brasil joga aqui em 29 de junho ou 6 de julho

A Copa do torcedor todo mundo sabe como é: ansiedade, sofrimento, paixão e, se tudo der certo, festa. Quem viaja para ver a Copa ao vivo, porém, não é um torcedor comum. O investimento é muito alto. Mesmo que acabe não fazendo toda a festa que espera, o torcedor-viajante quer saber como vai aproveitar turisticamente a sua estada.

INDEPENDÊNCIA OU PACOTE?
A Copa da Alemanha foi a melhor dos últimos tempos para o turista independente. Havia um passe ilimitado de trem pela duração do campeonato, uma rede complementar de hospedagem em casas particulares e festas em todas as cidades-sede para os sem-ingresso.

Nada disso vale para a África do Sul. Por causa da extensão do país, a maior parte dos deslocamentos vai precisar ser feita de avião. A rede hoteleira estará absorvida pelos visitantes, digamos, oficiais. Os ingressos para os jogos do Brasil já estão esgotados; a maioria foi atrelada aos pacotes vendidos pelas operadoras oficiais brasileiras. (Quem quiser tentar a sorte pode tentar a loteria da Fifa; no fim deste post eu conto como.) Mesmo se você quiser ir à África do Sul para fazer turismo e descolar algum ingresso no câmbio negro, vai enfrentar preços altos e dificuldade de deslocamento. Em resumo: procure uma agência de viagens.

QUARTÉIS-GENERAIS
A estratégia das operadoras brazucas para 2010 é parecida com a que deu certo na Copa de 2006. Na Alemanha, a torcida oficial brasileira ficou hospedada numa cidade onde o Brasil não jogou nenhuma vez sequer: Colônia. A escolha foi feita devido à posição geográfica — e ao fato da cidade ser bem mais animada que Frankfurt, que talvez fosse a escolha logística ideal. De Colônia a torcida ia em vagões fretados de trem às cidades dos jogos, nos dias das partidas.

Na África do Sul, os QGs brasileiros serão dois: a Cidade do Cabo, onde os oceanos Atlântico e Índico se encontram, e Durban, na costa leste. Desses dois pontos a torcida fará viagens bate-volta aos locais dos jogos. Serão vôos fretados, em aviões já contratados, que ficarão à disposição do pool brasileiro durante toda a duração do campeonato.

Os pacotes de dois jogos prevêem hospedagem ou na Cidade do Cabo ou em Durban. A partir de três jogos, porém, a hospedagem é dividida igualmente entre as duas cidades.

Apesar de ser apontada nos bastidores como barbada para sediar a Seleção (o que acabou se confirmando no sorteio), Johannesburgo foi descartada de cara pelo pool, por ser perigosa e pouco atraente. “Combinando Cidade do Cabo com Durban, o brasileiro terá a experiência mais completa da África do Sul”, argumenta Douglas de Presto, diretor de Copa do Mundo da operadora Stella Barros.

Eu concordo. Na Cidade do Cabo o torcedor verá uma África do Sul européia e sofisticada. Aproveite a estada para visitar o bairro malaio de Bo Kaap, o Cabo da Boa Esperança e a região de vinhedos de Stellenbosch e Franschhoek. Vai estar muito frio para pegar praia, mas você vai fotografar pingüins em Boulders Beach.

Durban, ao contrário, tem invernos bem agradáveis: vai dar até para entrar no mar. Os hotéis ficam em Umhlanga (diga: “Umjanga”), um bairro praiano chique. A cidade abriga a maior população de origem indiana do país, mas a verdadeira África está ao lado. Você pode visitar um protótipo de aldeia zulu e fazer um safári: o parque de Hluhluwe fica a três horas de carro e permite avistar os famosos e cobiçados “cinco grandes”: elefante, rinoceronte, búfalo, leão e leopardo.

ANTES E DEPOIS
É possível programar pequenas viagens entre os jogos, mas não há compensação pelas noites não dormidas nas bases. O melhor é programar esticadas antes ou depois da Copa. As paisagens desérticas da Namíbia, as Cataratas de Victoria e as praias paradisíacas de Moçambique, de Maurício e das Ilhas Seychelles estão a vôos curtos de distância (quer dizer: as Seychelles, nem tão curtos assim).

QUANTO CUSTA
Os pacotes começam em US$ 9 mil (para dois jogos) e vão até US$ 23 mil (a Copa inteira). Os ingressos são cobrados à parte (custam entre US$ 80 e US$ 400) e são vendidos pelas operadoras oficiais: Agaxtur, Ambiental, Marsans, Pallas, Stella Barros, TAM Viagens e nas agências de viagens.

POR CONTA PRÓPRIA (ESPECIAL PARA O BLOG)
Como eu disse no início deste texto, não acho uma idéia sensata ir para a Copa da África do Sul sem ingresso na mão e apoio logístico. No pior nos cenários, você pode gastar uma grana federal e dar com os burros n’água, vendo a Copa pela TV e ficando em hotéis onde Judas perdeu as botas pagando diária de cinco estrelas.

Quais são as chances de uma aventura independente dar certo? Bom. Em primeiro lugar você precisa torcer para surgir um mercado secundário confiável de ingressos para os jogos do Brasil. A fonte mais segura seriam os ingressos corporativos, distribuídos aos patrocinadores, e que nem sempre acabam utilizados — sobretudo num evento num país distante. Comprar pela internet parece arriscado. Há muitas empresas que se oferecem para achar ingressos, como a World Ticket Shop — mas basta dar uma googladinha para ficar arrepiado com o que tem de gente reclamando de trambique.

A outra possibilidade é tentar a sorte na Loteria de Ingressos da Fifa. Até o dia 22 de janeiro você pode se registrar e solicitar ingressos para os jogos do Brasil na primeira fase, e também para os jogos das oitavas, quartas, semifinais e finais (o problema aí é que não dá para saber quais serão os jogos do Brasil, pois depende da colocação na primeira fase). No dia 8 de dezembro, três dias depois de iniciada esta loteria, já havia 220.000 pedidos cadastrados. Todos os que se inscreverem até dia 22 de janeiro têm condições iguais. O sorteio vai ser feito dia 5 de fevereiro, quando os sorteados então terão que pagar pelos ingressos, ao preço oficial. O nome oficial, claro, não é “loteria” (e sim “terceira fase de vendas”), mas é bom que os participantes pensem nela como tal. Com tamanho número de participantes, não dá para considerar nenhum ingresso no papo.

Ainda dá para reservar vôos por preços não-extorsivos. O site metabuscador de vôos na África do Sul é o SA Flights, que traz também os vôos das cias. low-cost sul-africanas. Como o Brasil só vai jogar em cidades grandes (Johannesburgo, Durban, Cidade do Cabo — talvez em Port Elizabeth), o bicho da logística não é tão feio assim. (Mas quando você adiciona viagens de turismo entre um jogo e outro, a coisa complica.)

No quesito hospedagem a situação é crítica. A grande hotelaria está toda bloqueada, e a única chance do torcedor independente é a Copa da África do Sul se tornar uma espécie de Réveillon do Milênio: as operadoras do mundo inteiro micarem com os pacotes e os quartos serem revertidos ao mercado. Se isso acontecer, porém, vai ser mais perto da Copa. Alguém aí se arrisca a comprar passagem sem ter hotel garantido?

Há lugares disponíveis nos meios alternativos de hospedagem — pequenos hotéis, pousadas, bed & breakfasts, albergues, casas para alugar. Você pode pesquisar em sites como roomsforafrica.com, wheretostay.co.za e safarinow.com. Os preços também estão inflados: são comuns apartamentos de pousadas a 400 dólares. (No Booking eu achei uma cama em dormitório de albergue a 100 dólares.) Muito cuidado com a localização. Todos os sites estão alargando as sedes da Copa para englobar subúrbios e arredores nem tão próximos assim. Johannesburgo, particularmente, oferece um emaranhado de alternativas que eu não ousaria destrinchar sem a ajuda de alguém que conhecesse bem a cidade. Ao pesquisar “hotéis próximos ao Soccer City Stadium”, tenha em mente de que este é o estádio de Johannesburgo que fica próximo a Soweto.

A TABELA DO BRASIL
Para você se orientar, esses são os dias e locais dos jogos do Brasil:

Primeira fase
15/junho – Johannesburgo (Coréia do Norte)
20/junho – Johannesburgo (Costa do Marfim)
25/junho – Durban (Portugal)

Se o Brasil ficar em primeiro lugar no grupo:
28/junho – Johannesburgo
2/julho – Port Elizabeth
6/julho – Cidade do Cabo
11/julho – Johannesburgo

Se o Brasil ficar em segundo lugar no grupo:
29/junho – Cidade do Cabo
3/julho – Johannesburgo
7/julho – Durban
11/julho – Johannesburgo

Para fazer seus cálculos: 1 dólar vale 7,50 rands; 1 real vale 4,25 rands.

49 comentários

Olá Ricardo, acabei caindo no seu post durante uma pesquisa e fiquei com uma dúvida (espero que depois de tanto tempo ainda dê para lembrar! rsrs!): esses pacotes que variavam de U$9 a 23mil, incluíam tb a parte aérea? Ou só terrestre? Obrigada!

Vou para África agora em janeiro….vou para Johanesburg e pretendo ir també à Cape Town, gostaria de saber se fato vale a pena ir para Cape Town ou desencana…..!! Outra coisa, me falaram que o Kruger Park é um dos melhores para Safari….é verdade? Parabéns pelo artigo

Tô na Copa, enfim, e criei um blog pra tentar narrar a jornada: http://www.aozambezi.com

Até agora, me encantei com a Cidade do Cabo, tive dias bons e ruins em Joanesburgo, estou adorando Polokwane, e Bloemfontein é um grande nada. (E depois das quartas-de-final trocarei o futebol por uns dias em Jeffrey’s Bay e depois um safari em Botsuana e Victoria Falls.)

Riq,
Vou passar 22 dias na África durante a Copa. Pelo pacote 6 dias em Durban e o restante em Cape Town. Pergunta: Vale a pena eu separar uns 2 dias de Durban para visitar o Hluhluwe-Imfolozi ou é melhor passar uns 3 ou 4 dias no Kruger. Em resumo minha dúvida é a seguinte:O quanto o Kruger é “tão” mais legal que os outros? A diferença é grande?
Abraço
Rubys

    Hmmm… palpite de quem não foi a nenhum dos dois: se você tem esses quatro dias entre jogos do Brasil, vá ao Kruger. (Intuição, apenas.)

Acabei conseguindo na Loteria FIFA os sete jogos que tentei comprar lá. Incluindo dois do Brasil, e o Paraguai x Nova Zelândia 🙂

Tentando reservar hotéis/albergues, achei boas opções para as cidades menores (Bloemfontein, Nelspruit e Polokwane, que estão esgotadas no bookings.com e nem constam do hostelworld) no http://www.sleeping-out.co.za – só não sei o quanto posso confiar nesse site. Alguém já usou?

    Parabéns!

    Jogando “sleeping-out.co.za” e “complaint” no Google achei só um item relevante:
    http://www.hellopeter.com/sleeping-out-complaint-%5B384046%5D

    E mesmo assim com resposta do site, o que eu achei bem positivo.

    Acho que eles não teriam coragem de usar o slogan “South Africa’s favourite acommodation guide” à toa…

    Pra ter certeza, dá uma busca no Thorn Tree Forum do Lonely Planet, se rolar alguma baixaria deve estar lá.

    O sistema de reserva do Sleeping Out é meio complicado: o site mostra as vagas disponíveis e as tarifas básicas, mas o hotel tem que mandar uma mensagem confirmando a disponiblidade e o valor – e os preços são sempre mais altos que o que aparece no Sleeping Out, talvez por ser período de Copa do Mundo. Enfim, o Sleeping Out intermedia sua negociação com o hotel/B&B, não é um “faça a reserva em dois cliques”.

    Mas consegui reservar B&B’s aparentemente bons por preços dentro do que esperava pagar. (Centro de Bleomfontein, em dia de jogo, quarto individual, cerca de 120 reais.)

    Sobre a busca de acomodação pela web:

    – Albergues do Hostelworld.com estão enfiando a faca nos preços, conforme esperado. E cobrando pagamento 100% adiantado, sem devolução em caso de cancelamento.
    – Sleeping-out.co.za tem vários hoteis/B&Bs cobrando preços bem acima do anunciados, mas ainda assim é a melhor opção para as cidades menores (Polokwane, Nelspruit, Bloemfontein e mesmo Pretória).
    – Safarinow.com é bem semelhante ao Sleeping-out
    – No site da FIFA ainda restam hotéis a preços interessantes, mas é preciso atenção extra à localização
    – Achei, para Johanesburg, um hotel da rede City Lodge (tipo uma Accor sul-africana, http://www.citylodge.co.za) bem em conta, em Randburg.

Oi pessoal,

Meu nome é Irina Mayra Cremildo, operadora turística Moçambicana. Do Brasil para África do Sul não vos posso ajudar muito mas dentro da África do sul e de lá para Moçambique (para quem esteja interessado em visitar-nos, garantindo desde já que não se arrependerá) posso ser de grandessissima ajudar. Os interessados podem contactar-me via e-mail ou Facebook [email protected].

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