Beleza interior

Minha crônica de hoje no Guia do Estadão.                       

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O Ibirapuera e o corpo humano foram feitos um para o outro. É no Ibirapuera que os humanos que moram em São Paulo vão exercitar e, por que não, exibir os seus corpos. Mas nunca o corpo humano foi tão explicitamente devassado no parque como na exposição que entrou em cartaz agora na Oca: O Corpo Humano, Real e Fascinante.

Você certamente já leu sobre o assunto. Trata-se de uma exposição meio altamente científica, meio bastante macabra que mostra o corpo humano por dentro, usando para isso cadáveres embalsamados por uma técnica moderníssima que parece plastificar os modelos.

Tendo no currículo um desmaio numa aula de laboratório de biologia (em que os alunos precisavam extrair sangue da ponta do seu próprio dedo indicador e em seguida examinar no microscópio), eu não faço exatamente parte do público-alvo da exposição. Mesmo assim, precisei ir, para fazer uma matéria para o meu quadro no Planeta Cidade da TV Cultura. Ossos – e músculos, veias, nervos, glândulas e órgãos – do ofício.

Eu pensei que não ia ter estômago (nem fígado, coração, cérebro e rim) para ver a exposição inteira, mas não é que agüentei firme? O começo é chocante, mas logo a gente se acostuma. Mais um pouquinho, e talvez eu até tivesse encontrado aquilo que os poetas chamam de beleza interior.

Enquanto os outros visitantes se maravilhavam ante à perfeição com que nervos, artérias e vísceras são mostrados, eu ficava pensando o que levaria alguém a querer passar para a posteridade desta maneira. Doar órgãos eu entendo e apóio. Mas doar o corpo todo, para que estranhos fiquem admirando partes da minha intimidade que eu não mostrei nem para a minha mãe? É muita falta de pudor.

Imagino a disciplina exigida aos participantes do projeto. Chocolate? Desculpa, não posso – depois que eu morrer vão me embalsamar e abrir minha barriga para mostrar o meu estômago, e por isso preciso me cuidar. Já outros foram selecionados justamente pela vida desregrada: há vários pulmões de fumantes e fígados com cirrose ao longo da exposição. Depois dessa, aquelas fotos nas embalagens de cigarro se tornam inofensivas.

E essa espinha de peixe, o que é? Oh – é um sistema nervoso completo de uma criança de cinco anos, devidamente ligado ao cérebro, que vai ocupar meus sonhos nas noites seguintes.

Normalmente eu recomendaria combinar a sua ida à Oca com um almoço no ótimo restaurante do MAM, que está localizado ao lado. Mas – fica pra próxima, né?

Foto: divulgação, só que afanada do Terra.

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