Bilbao & San Sebastián pra Eneida

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A Eneida e o maridão vão estar na Inglaterra em julho e querem dar um pulinho em Bilbao e San Sebastián por quatro ou cinco dias — por isso, pedem dicas.

Eneida, não conheço San Sebastián, mas tenho certeza de que é muito mais bacana e divertida que Bilbao. O Guggenheim é imperdível, claro, mas o centro histórico de San Sebastián deve ser mais bonito, os pintxos (os elaboradíssimos tapas bascos) devem ser tão bons quanto, e ainda vai dar pra pegar uma praia 🙂

San Sebastián tem uma doppelgänger do outro lado da fronteira, Biarritz, que anda com tudo, redescoberta por surfistas. (Sou louco para ver isso: um balneário belle-époque repovoado por jovens.)

Não há companhias low-fare operando entre Londres e San Sebastián. No Kayak, a tarifa ida e volta mais em conta é da Iberia, US$ 284 ida e volta, com taxas.

(Uma outra opção é deixar essa viagem para o finzinho das férias. Cotem uma passagem Brasil-Londres-San Sebastián-Brasil; talvez valha a pena.)

No Skyscanner, porém, encontrei vôos baratos da EasyJet para Bilbao (desde 40 euros) e da RyanAir para Biarritz (mais caros, tipo 80 euros).

O esquema mais civilizado é ir direto pra San Sebastián, fazer QG por lá (a viagem é curta demais para ficar trocando de hotel, concorda?) e fazer o bate-e-volta de ônibus para Bilbao (1h10 cada perna, a 17 euros ida e volta), pela Pesa. Os ônibus saem a cada meia hora durante o dia (atenção: para pesquisar os horários, veja que San Sebastián está na letra “D”, de Donostia/San Sebastián — Donostia é o nome da cidade em euskera, o idioma basco).

A Pesa também opera a linha para Biarritz (1h, com dois ônibus por dia fora de temporada; não sei se no verão eles põem mais; ida e volta por 12 euros).

De trem, a linha Bilbao-San Sebastián é operada por uma ferrovia regional lenta; a viagem semi-expressa leva 2h20. (San Sebastián-Biarritz por via ferroviária é feita com uma conexão em Irun, e leva, na melhor das hipóteses, 2h.)

Aproveitando os vôos baratos de/para Bilbao, daria para deixar a visita ao museu para o dia de chegada ou de saída. O complicômetro é a falta de guarda-volumes no aeroporto de Bilbao. Vasculhando a rede, só descobri guarda-volumes na estação de trem de Abando (onde vocês não passarão, já que ela serve à Renfe, a rede ferroviária nacional). Mas se vocês não levarem malas grandes, podem usar o guarda-volumes do próprio Museu.

Uma outra viagem possível para esses quatro/cinco dias é alugar um carro em Bilbao, passear por La Rioja (escolhendo uma cidade como base), dormir uma noite em San Sebastián e devolver o carro em Bilbao.

Alguém tem dicas recentes de Bilbao, San Sebastián, La Rioja ou Biarritz? Divide com a gente, vai!

Enquanto isso, deixo com vocês o relato do dia em que eu passei em Bilbao, em dezembro de 98, numa escala que eu inventei entre Paris e Madri só para dar uma chegadinha no Guggenheim.

(Acho que o Frank Gehry vulgarizou o estilo ao fazer tantos clones espalhados pelo mundo; mas não acho que o original tenha perdido o seu valor. Até porque nenhum dos outros está numa localização tão espetacular — praticamente dentro do rio, e com uma ponte que lhe serve de camarote.)

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Peixe fora d’água
 
A moça das reservas da Varig em Paris não acreditou quando eu liguei para reconfirmar meu vôo de volta para o Brasil. “Parri-Borrrdô-Bilbaô-Madride-Saô Polô, c’est ça?”

Era ça, sim. “C’est pour voir le musée”, eu tentei explicar. O normal, eu sei, teria sido pegar o vôo direto Paris-Bilbao, de Fokker 50, que chega às 4 da tarde; então sair para jantar num restaurante bacana (como seriam as sobremesas na cozinha basca? Bombas de chocolate? Brincadeirinha), dormir uma noite na cidade, ir ao museu no dia seguinte, e só então prosseguir viagem. Mas se eu fosse um sujeito normal eu também não ficaria publicando postal por escrito na Internet.

O engraçado é que esse vôo já tinha me causado 10 minutos a mais de constrangimento em Tel-Aviv, no embarque para Amman, durante o interrogatório a que são submetidos os passageiros que vão de Israel para a Jordânia.  A estagiária da Mossad que me investigava simplesmente não podia compreender por que o meu roteiro previa um vôo para dali a quase um mês que me deixaria por algumas horas numa cidade suspeitíssima como Bilbao, para então seguir viagem para o Brasil.

“It’s for the museum”, eu tentei explicar, mas parece que na Escola Preparatória de Torturadores Mentais de Turistas que Tentam Sair de Israel ninguém ensina que a Fundação Guggenheim construiu o museu mais lindo do mundo lá em Bilbao. Mas ela não se conformava: “Por que de avião? Por que não de trem? Não é muito mais barato?”. Eu consegui manter a calma e até mesmo adquirir ares professorais: “Porque, quando acoplados a uma passagem intercontinental, os trechos aéreos regionais saem mais barato do que se fossem feitos de trem”, disse eu, citando um livro que eu tinha lido, um tal de “Viaje na viagem, auto-ajuda para turistas“.

Como eu desconfiava, tudo deu absolutamente certo. O vôo de Paris para Bordeaux saiu lotado de executivos, e a conexão para o teco-teco que faz a linha Bordeaux-Bilbao-Lisboa foi imediata e sem enrolações. Peguei minha mala na esteira em Bilbao às 9h50 da manhã, e como não existia guarda-volumes no aeroporto, a moça da Iberia foi uma gracinha e me deixou fazer o check-in às 10 horas da manhã para o vôo das 9 da noite para Madri — despachando a mala diretamente para São Paulo.

“Al museo, por favor”, eu disse para o taxista. Ele olhou para trás: “Cómo?”. E eu: “al museo. Museo Guggenheim”, tentei explicar. Pelo jeito, não devem existir muitos outros malucos que chegam ao aeroporto e já vão direto ao museu, sem passar num hotel primeiro.

Não que eu tivesse pensado nisso antes, mas faz todo o sentido do mundo visitar o Guggenheim de Bilbao na mesma viagem das pirâmides. Se algum faraó ainda fosse vivo, certamente contrataria Frank Gehry como seu arquiteto.

Como um navio ancorado à beira-rio — ou, como prefere Frank Gehry, como um peixe fora d’água, recoberto por placas de titânio que imitam escamas — o museu é um objeto absolutamente sedutor (convenhamos, uma qualidade rara de se encontrar na arquitetura moderna). Você pode passar horas contemplando o prédio de todos os ângulos possíveis — na frente, do lado, do alto da ponte, do outro lado do rio –, admirando a resposta de cada curva e de cada ondulação à incidência da luz, sem sentir absolutamente nenhuma curiosidade de entrar no museu. É possível até mesmo que você vá embora e esqueça de que o interior está ali para ser visitado. Compreende-se: é muito difícil colocar ali dentro algo que faça pela Arte o que o prédio fez pela Arquitetura.

Mas deve-se entrar de todo jeito. Talvez não pela arquitetura interior. Tampouco pelas exposições. Alguns de meus cyberleitores certamente saberão que Robert Rauschenberg é um dos papas da arte deste século, mas devo confessar que nutro pela arte moderna a indiferença que as pessoas ajuizadas sentem por viagens tipo as que eu faço.

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Mas mesmo alguém artisticamente inculto como eu recomendaria que você entrasse. Porque entrar no Guggenheim Bilbao é a única maneira de ter acesso a um telefoninho modernoso que você aluga por 5 dólares, e que proporciona uma interessantíssima visita guiada, tanto do interior quanto do exterior do prédio, comentando cada aspecto do projeto e da construção, inclusive com transcrições de declarações do Frank Gehry. Fiquei fã do velhinho, e agora vou pesquisar se ele não se envolveu em nenhum projeto que tenha uma utilização mais interessante — tipo assim um aeroporto.

(Postado originalmente no Viaje na Viagem jurássico, e depois publicado no meu livrinho Postais por Escrito, de 1999.)

41 comentários

Eu amei San Sebastian e recomendo a cidade, apesar de ser um pouquinho cara. Peguei um ônibus da Alsa de Santander a San Sebastian. O ticket comprei no site da cia. Talvez seja essa cia que Sandra esteja procurando.

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