Buzum (minha crônica no Guia do Estadão)

Buzum na Bahia

“Senhores passageiros, bom dia. Meu nome é Fredson, e eu irei conduzi-los hoje até Ilhéus, com paradas.” Estou no terminal rodoviário de Bom Despacho, na ilha de Itaparica. Tratando-se de Bahia e de rodoviária, Bom Despacho soa como uma dupla piada pronta. Não ria, porém. O esquema funciona que é uma beleza.

É em Bom Despacho que aportam os ferry-boats que vêm do terminal de São Joaquim, em Salvador. A cada ferry (ou, com sotaque, ferribôtchi) que chega há uma fartura de ônibus com conexão imediata para todos os povoados da Costa do Dendê e para algumas cidades importantes do interior, como Jequié e Conquista.

Comprei minha passagem de ônibus do trecho Bom Despacho-Valença pela internet e, sulista estressado, acabei embarcando um ferribôtchi antes do necessário. Bobagem. Mesmo que o ferry atrase, os ônibus vão esperar os passageiros. Se tivesse embarcado no horário certo para o meu ônibus, teria viajado no Ivete Sangalo, o mais rápido e moderno dos ferribôtchis.

(Não é apelido, não. É nome. Está escrito na proa. Entre os ferries mais antigos há um Maria Bethânia.)

A hora e pouco que fiquei esperando pelo ônibus da minha companhia, porém, passou rápido. Um dos bares da rodoviária exibia um combo pirata dos especiais de fim de ano de Roberto Carlos – incluindo o programa das cantoras e o Globo Repórter.

“Este veículo possui seis saídas de emergência: quatro nas laterais e duas no teto.”

Confesso que não gostei da informação. Me soou mais aflitiva do que “máscaras de oxigênio cairão à altura de suas cabeças”. Felizmente o percurso de 1h45 até Valença oferece poucas oportunidades para o passageiro precisar escapulir pelo teto.

“Faremos uma parada de almoço de meia hora em Camamu. Nosso tempo de viagem até Ilhéus é de seis horas e meia. Que Deus nos acompanhe.”

Meu ônibus, da companhia Águia Branca – a única que vende pela internet –, além de motoristas educados e treinados como o Fredson, tem ar condicionado e poltronas confortáveis. Só tem um defeito: não vai até Itacaré pela estrada nova, que poupa uma grande volta até Ilhéus.

Acabei fazendo esse trecho entre Camamu e Itacaré dois dias mais tarde – com outra viação, a Cidade Sol. O ônibus não tinha ar condicionado e o motorista não mencionou a serventia dos basculantes no teto. As janelas, todas abertas, turbinavam a brisa natural da Bahia.

E eu pensava: carro, pra quê?

4 comentários

Como pessoa-que-não-dirige-e-nem-pretende, estou adorando essa sua viagem! Principalmente por ser uma pessoa-que-não-dirige-e-nem-pretende-e-adora-a-Bahia. Está dando a maior vontade de voltar.

E não se esqueça que, se pegar o Ivete Sangalo, há a classe éxécutiva, com ar condicionado, poltronas confortáveis e lanchonete própria por R$4,90.

E eu acho que nesse verão, ser roots é super in 🙂

beijos

Só vc mesmo Riq. Eu continuo achando ônibus no Brasil algo que, depois de ter minha CNH, devo usar apenas para ir do portão ao avião no aeroporto 🙂

Não dá, não dá.

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