Calorias

Minha crônica no Guia do Estadão de hoje.

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Estou passando por uma fase recorrente da minha vida, que costuma render momentos hilariantes. Não exatamente para mim, mas ao menos para quem me lê. De todas as desgraças que podem acometer um cronista, a dieta é, disparada, a mais divertida.

Minha última dieta, em 2002, foi particularmente bem-sucedida – rendeu um livro inteiro, batizado com o fenômeno da natureza que governa a minha existência (“O Efeito Sanfona”), combinado com um subtítulo de reality show (“Confissões de um dependente químico de comida”). Claro que tudo o que emagreci foi recuperado imediatamente em seguida, mas pelo menos teve um monte de gente que deu risada do episódio. (Assim espero.)

Algo estranho está acontecendo com a minha dieta atual. Vou entrar na oitava semana e não há absolutamente nada de engraçado para contar.

Talvez porque esta seja uma dieta séria. Não daquele tipo de dieta séria que deixa você seriamente privado de todos os alimentos consumidos pelo resto dos humanos – e causa tantos transtornos de humor, que a única maneira de recuperar a sanidade é rindo de si mesmo.

Estou fazendo uma dieta séria do tipo que mistura seriamente todos os nutrientes de que o meu organismo precisa para funcionar. Venho perdendo um quilo por semana sem sacrifício nenhum, e sem remédio. Como arroz, feijão, abacate, castanhas, frutas secas – só para mencionar coisas que as minhas dietas anteriores sonegavam.

Por sinal, passo o dia comendo. Já cansei de perder a hora dos lanchinhos. O segundo lanche da tarde, por exemplo, vira e mexe encavala com o jantar. E já que o cardápio muda toda semana, não dá tempo nem de enjoar.

É a primeira vez que uma dieta me deixa de bom humor. Minto: me deixa com um humor melhor do que estava antes de começar. Isso pode ser muito bom e tal – mas, convenhamos, não tem graça nenhuma.

O que é que eu posso dizer? Que meu rosto voltou a ser oval? Quá quá quá. Que toda noite antes de dormir eu como um triangulinho de Toblerone amargo? Huahuahua.

Não sinto falta nem de amidos nem de gorduras – minha dieta está repleta deles, sempre nas versões mais saudáveis. Sinto falta é dos insights que a brusca diminuição de calorias proporciona.

Será esse o segredo da qualidade do humor judaico – os jejuns?

Preciso arranjar alguma coisa que faça minha vida voltar a ser motivo de risadas. Em último caso, acho que vou precisar me matricular numa academia.

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