Carregando o Karma

Karma, o nosso guiaDe uma viagem à Ásia em janeiro de 93. Originalmente publicado em Postais por escrito.

De sarong e tudo, ele estava à nossa espera no aeroporto. Cartaz na mão, “Mr. Freire”, Escort branco com ar condicionado e motorista unilíngüe a seu lado. “I’m your guide during your stay in Bali”, disse ele, enquanto eu, vindo da civilizadíssima Cingapura, ainda me recuperava da volta abrupta ao Terceiro Mundo.

Esquisito: o que eu tinha pedido no fax da reserva era um simples trânsfer do aeroporto até o hotel; não sabia que vinha um guia grátis. Hã — não vinha um guia grátis. A função daquele sujeito que foi nos buscar no aeroporto era nos constranger, e por que não nos obrigar, a agüentar a sua companhia e comprar seus pacotes pelo resto da nossa estada.

Como ele se ofereceu para reconfirmar a passagem, achei que alugar seus serviços por um dia seria uma boa troca. Mas um dia só. E um passeio só. E só depois de amanhã, que amanhã a gente quer ficar no hotel tomando sol.

No dia combinado — depois de amanhã — é que eu reparei no nome que estava escrito no crachá dele: Karma.

Karma já tinha um itinerário pré-estabelecido. Demonstração de dança barong, demonstração de ourivesaria, demonstração de entalhe, demonstração de pintura, demonstração de sei lá o quê mais e passeio a Monte Batur, com vista do vulcão.

Consegui trocar, de cara, a ida ao Monte Batur por uma excursão até Besakih, o templo principal da ilha.

Antes de chegar lá, no entanto, como gostei do ar condicionado do Escort, não vi nada de mal em tratar também um passeio para o dia seguinte, para os templos de Ulu Watu e Tanah Lot (foto abaixo).

Carregamos o nosso Karma, então, por dois dias, pra cima e pra baixo. Ele logo viu que não estávamos para demonstrações disso ou daquilo (na verdade, armadilhas para o turista comprar coisas que não quer e o guia faturar as comissões que quer) — e cooperou, mesmo desapontado, nos levando por estradinhas des-lum-bran-tes pelo campo balinês.

(Aliás, ir a Báli e só ficar na praia é como ir à Itália ver show do Toquinho — no gênero, a gente tem coisa muito melhor em casa. Agora: subir a montanha é ascender ao nirvana. Terraços de arroz, coqueiros e bananeiras se misturam num imenso jardim como que cenografado pelo mais talentoso dos burle-marxes japoneses.)

No último dia, não apenas pagamos o nosso Karma, como ainda demos uma bela gorjeta para o nosso Karma. E então, libertos do nosso Karma, fomos jantar sob a lua e sobre a areia, em mesa de mármore e cadeira de palhinha, no restaurante do Tandjung Sari.

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28 comentários

Riq, se procurares nas tuas fotinhos preto e branco de quando
eras beeem pequeninho vais encontrar uma em que estás sorrindo
sentado numa cadeira com mesa anã de madeira , e outra fazendo
biquinho de choro empurrando uma cadeira anã de plástico 😆

Riq: 😆
Cada um com sua bandeira, mesmo, é coisa arraigada…a minha é ‘Fora, jabá!’ 🙄 😛

Taí! Agora que percebi! Minha primeira referência ao que se tornaria uma obsessão anti-plástico na praia:

“…fomos jantar sob a lua e sobre a areia, em mesa de mármore e cadeira de palhinha, no restaurante do Tandjung Sari.”

1993, pessoas! 1993!!!!!

Riq, uma tentação! Pena que a passagem aérea tb não é a mais barata do mundo.. 🙁
Fiquei apaixonada pelo lugar. Ah, imagina na alta…..

Ivana,
Em Copacabana eu indico muito o Majestic que fica na Rua 5 de julho que é uma rua sem saída, sem trânsito, tranqüila. http://www.majestichotel.com.br/apre_port.htm
É uma opção mais barata que Ipanema e Leblon. Eu indico bastante no meu trabalho para quem vem de fora. Telefone e peça para cadastrar o seu endereço profissional que tem desconto. Precisará enviar um fax com os dados da empresa, só isso.

Riq e Hugo,

Obrigada pelas dicas. Será que se eu fizer a reserva por meio de agência, no caso dos Hoteis Othon, a tarifa sai mais barata?