Condé Nast Traveler faz guia de praias do Brasil lamentável :-(

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Assim como a Lea, fiquei supercontente ao ver que a minha revista de viagem favorita, a Traveler americana, chamava na capa para de abril para o capítulo sul-americano d’As Melhores Praias do Mundo.

Pensei: ahá! Finalmente eles vão reunir diquinhas esparsas do Brasil que já deram aqui e ali, organizando a vida do americano que quer pegar um bronze no patropi. Jeri certamente, Noronha sem dúvida, quem sabe falem de alguma coisa entre Recife e Maceió, então as boas da Bahia, Boipeba biensûr, Barra Grande ou Itacaré, sul da Bahia, Búzios ou Arraial do Cabo, Costa Verde, litoral norte paulista, alguma boa de Floripa, Rosa.

Nhé.

As 9 praias brasileiras da lista estão concentradas em 4 míseros pontos do litoral. Três (na verdade, quatro) delas não emplacaram nem a minha lista de “100 mais“. E o serviço é RUIM DE DOER. A moça que assina a matéria, Hanya Yanagihara, diz que andou por aqui — mas se veio, passou cinco minutos em cada um desses lugares.

Tá com tempo? Vamos examinar caso a caso.

A primeira da lista, por ordem geográfica de norte a sul, é Sibaúma, perto de Pipa. A única razão para alguém ficar em Sibaúma e não em Pipa é um hotelzinho pretensioso que abriu por lá, o Kilombo Villas. Mas a própria matéria não fala muito bem do hotel (“um lugar com boas intenções mas pouco refinamento”). Eu não ficaria nessa praia porque a água quase sempre está turva. Ah, sim, a matéria também diz isso! “A água, apesar de limpa e quase tão quente quanto o ar, fica barrenta por causa da arrebentação”. Por quê, então, meu São Cristóvão, colocar esta praia na lista?

Next: Praia dos Nativos, Trancoso. Para mim, é a praia menos boa do lugar (prefiro a praia do Rio Verde, a dos Coqueiros e da Itapororoca). A água é a primeira a turvar, por causa do Rio da Barra. Mas, enfim, pôr Trancoso na lista merece elogios. A descrição da praia no artigo é, no mínimo, engraçada — a Traveler diz que suas areias são povoadas por “cafés que tocam remixes de Bob Marley”. Hahahaha. A Praia dos Nativos tem três bares: o da Estrela d’Água, o Tostex na esquina do rio e uma megabarraca bagaceirésima que recebe a farofa organizada de Porto Seguro. Eu não chamaria nenhum desses lugares de “café” 😆

A próxima da lista é a Praia do Espelho. Acertaram na praia, claro, mas o serviço é simplesmente lamentável. Diz que “durante a maré baixa (da manhã até o meio da tarde), o mar….”. Cuma? DURANTE A MARÉ BAIXA, DA MANHÃ ATÉ O MEIO DA TARDE? A Traveler acaba de inventar a maré com hora marcada, uma exclusividade da Praia do Espelho, Brazil! O único hotel indicado é a Pousada Etnia, em Trancoso — excelente; mas custava dar um endereço pé-na-areia no próprio Espelho? (Ainda mais que a Etnia já estava devidamente recomendada na praia anterior…) Para terminar o desastre, a Silvinha é indicada como “o único restaurante da praia”. Jesus me abane.

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(Ah, sim: e a foto do argentino fantasiado de gautcho ilustrando a matéria também não ajuda muito.)

Da Bahia, direto para a Costa Verde fluminense, onde estão as três próximas praias.

A primeira é a Lagoa Azul, em Ilha Grande. É lindíssima, sem dúvida. Mas a minha implicância vê dois probleminhas que me fariam tirar o lugar da lista. Primeiro — e a matéria também reconhece isso — a Lagoa Azul não é uma praia, e sim um local de mergulho. E depois, a Lagoa Azul está sempre apinhada de escunas lotadas até a tampa. Pra você e eu, que não temos esse tipo de água à beira-mar na praia que freqüentamos, o passeio vale. Mas pra um gringo que tenha ido ao Caribe (provavelmente 100% dos leitores da Traveler) é programa de índio.

Seguindo a lista, a Praia do Dentista, na Gipóia. Ponto positivo: a revista não esconde que no verão o lugar vira uma “marina” (eu sou mais cáustico: digo que vira um estacionamentão de lanchas). Mas a praia é realmente excepcional, e a farofa de rico é engraçada de ver. Ponto negativo: a opção de pernoite recomendada é a Pousada Pardieiro, em… Paraty! A 100 km de distância (pelo menos 1h30 no trânsito da Rio-Santos). Se a revista tivesse entrevistado algum guardador de carro em Angra, saberia que um turista com grana para alugar uma lancha e ir pro Dentista se hospedaria num bangalô do Pestana e embarcaria no píer do hotel.

Terminando a região, ufa, Lopes Mendes — finalmente, uma praia que vale o esforço e a viagem de gringo de qualquer lugar do mundo. A descrição está nos conformes, e o serviço, OK. Quer dizer: para não perder o costume, a matéria comenta que as maiores ondas acontecem durante o “inverno equatorial”. Eu não sabia que lugares na linha do Equador, como o Rio de Janeiro 😆 tinham um inverno para chamar de seu.

A lista continua abruptamente para o sul. E abrindo a seleção de Santa Catarina, a praia do… Siriú. Siriú, gente! Em Garopaba! Minha família tem casa lá. Passei a adolescência caminhando pela praia até o Siriú. É linda de ver. Superdeserta. Com dunas à la Joaquina, onde se faz sandboard. Mas… pípols… se eu tivesse nove chances de apresentar o litoral brasileiro a um leitor da Traveler, ramás en mi bida eu desperdiçaria uma delas com o Siriú. Ô dona Trávela, já ouviu falar da Guarda do Embaú? (Gente, essa matéria tá fazendo mal pro meu fígado. Vou até ali tomar uma Eparema e já volto.)

Na seqüência — com trema, sempre — vem a Ferrugem. A Ferrugem é bacana. Tá nas minhas 100 praias. Mas, de novo, eu não selecionaria a Ferrugem entre as 9 praias da parte brasileira do guia “As melhores praias do mundo” se a minha opinião sobre ela fizesse com que o início do meu texto fosse o seguinte: “Às vezes a Ferrugem parece um Frankenstein — um saco de elementos disparatados juntados de maneira pouco convincente”. Não discordo — mas custava falar da Mole instead?

Fechando a lista, a Praia do Rosa, outra escolha irrepreensível. Sem querer ser chato, mas sendo, custava variar um pouquinho a recomendação de hotel? Para as três praias da região, a mesma indicação é repetida: a Fazenda Verde do Rosa. Eu usaria o precioso espaço desperdiçado com repeteco de informação para dar outras pousadas bacanas no Rosa. #prontofalei

A matéria continua até José Ignacio (onde três hotéis são — justamente — recomendados) e termina em mais um sacrifício inútil de celulose, ao incluir duas praias na Patagônia argentina num guia de praias. Ah, tenha a santa paciência de cássia.

Era isso. Obrigado pela atenção, eu precisava desopilar.

Só não cancelo a minha assinatura porque… bem, porque não assino a revista.

36 comentários

Pessoal, moro em Pipa e estou aqui para defender a Praia de Sibaúma. O lugar é super nativo, tem estrada de acesso há menos de 10 anos, mas as belezas naturais são irrepreensíveis. Rio, mangue, piscinas naturais e vistas de tirar o fôlego.
Nós que aqui moramos, fugimos regularmente para Sibaúma em busca de uma praia tranquila e sossegada, sem ambulantes por todos os lados como já acontece em Pipa.
Cor da água, temperatura, etc… variam muito de acordo com a maré e a época do ano.
A todos que não gostaram da praia, sugiro mais uma visita. (posso Sibaúma pode não estar entre as top 10 brasileiras, mas certamente está próxima.

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