Dans mon île

ilestouis
Île Saint-Louis, Paris

A ilha mais linda do planeta não tem praia, não tem coqueiro, não tem montanha nem atrativo natural de nenhuma espécie. Até pouco tempo atrás (coisa de uns 200 anos) ela não passava de um pântano e era conhecida como Ilha das Vacas. Foi então que a nobreza da época resolveu encher a ilha de predinhos, todos bonitos mas nenhum particularmente memorável, que hoje abrigam, ao rés-do-chão (é como os franceses e os lusitanos chamam o andar térreo), lojas interessantes mas nenhuma assim terrivelmente famosa, restaurantes simpáticos mas em sua maioria desconhecidos, e hotéis bacaninhas mas nenhum de primeiríssima categoria.

Como se vê, a ilha mais linda do planeta tem o bom-gosto de ser também a ilha mais discreta do planeta — o que com certeza deve ser o segredo do seu charme. Calma, recatada, introspectiva, a île Saint-Louis passa desapercebida do grosso (em todos os sentidos) dos visitantes. Mas quem anda meia horinha que seja pelas suas oito ruas e quatro quais não tem como discordar: é a ilha mais linda do planeta.

O que faz da île Saint-Louis um lugar especial é que, em primeiro lugar, trata-se de uma ilha cercada de Paris por todos os lados. Com suas ruelinhas, predinhos, restaurantezinhos, lojinhas e hoteizinhos, a île Saint-Louis é assim um bibelozinho de Paris. Só não se pode dizer que é uma miniatura de Paris porque lhe falta algum monumento — um monumentozinho que fosse. Mas não seja por isso: os cafés do quai d’Orléans oferecem belíssimas vistas da catedral de Notre-Dame.

Sem estação própria de metrô nem lugar para estacionamento de ônibus, a île Saint-Louis conseguiu se manter a salvo do turismo predatório. Aliás, a única evidência de que se trata de um lugar turístico é o fato de você ouvir italiano e holandês e alemão e espanhol na rua o tempo todo.

Isso porque as lojas se dão ao respeito de não vender absolutamente nada que tenha “Paris” escrito — apesar de estarmos a apenas uma ponte de distância de Notre-Dame, que é notoriamente um dos maiores centros mundiais de tráfico de souvenirs.

Eles são finos a ponto de manter um açouguezinho, uma merceariazinha e um supermercadinho na rua principal, só para a gente acreditar que a île Saint-Louis é de verdade, e não cenário. Hoje de manhã eu passei por duas senhoras que se cumprimentaram efusivamente dos dois lados da calçada — “bonjour, madame!!!” — como se fossem vizinhas! Só podem ser figurantes. Pensam que vão me enganar, é?

O footing acontece na rue Saint-Louis-en-l’île, que corta a ilha longitudinalmente, feito uma banana para fazer banana split. É aqui que ficam os hotéis, as lojinhas, e o único restaurante metido da ilha, o l’Orangerie.

Ao longo da rua, várias portinhas vendem sorvete de casquinha da casa Berthillon, tido e havido como o melhor de Paris (eu peço sempre “chocolat et chocolat blanc, s’il vous plaît”). A própria Maison Berthillon fica na rua, passando a esquina da rue des Deux-Ponts, mas sua decoração é tão sem-graça que é melhor entrar numa das filas em frente às portinhas e comer na calçada mesmo. Existem vários restaurantezinhos charmosos com mesas à luz de velas que você pode escolher de tarde e reservar para de noite.

E se passear na île Saint-Louis já é bárbaro, se hospedar aqui é o maior presente que um viajante a Paris pode se dar.

A 10 minutos a pé do bairro mais interessante da Rive Droite, o Marais, e a 20 do pedaço mais bacana da Rive Gauche, Saint-Germain-des-Prés, a île Saint-Louis é o centro geográfico perfeito para você se dedicar ao mais parisiense dos passatempos — flâner, verbo que a língua portuguesa teve a elegância de incorporar como “flanar”.

Você só precisa entrar no metrô para peruar em bairros com dois dígitos no arrondissement. Táxi, então, só na hora de voltar para o aeroporto. O que me faz lembrar de o meu táxi vai passar daqui a 4 horas e meia, e eu ainda tenho que dormir.

Quel dommage. Porque só existe uma coisa pior do que deixar Paris: deixar a île Saint-Louis.

(Originalmente escrito para o viajenaviagem.com.br em 1998, num hotel da île St.-Louis, em Paris. Fazia parte do projeto “Postais por escrito”.)

90 comentários

E nesssa ilha tem 2 lojinhas da Pylones, aquela marcar de badulaques irresistíveis, e mais uma outra sorveteria maravilhosa, e uma lojinhas que vendem chocolates tentadores.
É uma delícia flanar por lá!!! 😉

…(suspiros)…
Saudades de Paris. E da Île Saint-Louis.
(Riq, uma das suas peças mais preciosas, tiro meu chapéu. De novo 😉 )

é meu lugar predileto em Paris tambem.Sempre que posso visitar a cidade passo horas passeando por lá,compro confit de pato na ruinha principal(direto do fornecedor de Sarlat) e vinho na cave da mesma rua.Da última vez deparei com um bilhete escrito a mão na vitrine explicando que “Seu fornecedor de vinhos saiu em viagem pelo mundo ;se precisar falar comigo ou quiser acompanhar minha aventura veja a minha página wwww……Existe algo mais poético?

Infelizmente, agora há, sim, uma estação de metrô na ilha. E é daquelas fundas, que leva meia hora pra subir. Mas por enquanto não tirou nada nem da beleza nem da semi-privacidade do local.

    Marcie, a estação de metrô é na ilha vizinha/gêmea… a Ile de la Cité. É menos residencial, com a Notre-Dame, Consiergerie, Hopital Hotel-Dieu, Sainte-Chapelle e um momento mágico no meu passeio pela margem do Sena: a Place Duphine (quase do lado da Pont-Neuf). Não sei se foi o cansaço, as cores do entardecer de setembro, mas amamos essa paisagem…..

Pra quem acabou de voltar de um footing + almoco pela ilha mais bonita do mundo e que anda dando umas voltinhas por la quase todo dia, o post caiu perfeitamente :mrgreen:
(e acredita que eu ja cantarolei essa musiquinha aqui – heranca da aula de frances! – uma duzia de vezes???) 😆

Ah … sonho de consumo é um apezinho , não um studio-zinho , por uns 10 dias corridos , pra degustar sem pressa , na ilha .

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