De Canavieiras a Belmonte, pelo delta do Jequitinhonha

No estuário

O objetivo do meu périplo de ônibus pela Bahia era esmiuçar as conexões pela Costa do Dendê, entre Salvador e Itacaré. Depois de começada a epopéia, no entanto, eu me lembrei um passeio um pouco mais ao sul que eu nunca tinha conseguido fazer por estar sempre de carro nas minhas andanças baianas.

Falo da travessia de lancha voadeira entre os antigos centros cacaueiros de Canavieiras e Belmonte, pelos canais e igarapés que ligam o rio Pardo, em Canavieiras, ao Jequitinhonha, que deságua em Belmonte. Não há balsa para fazer a travessia; quem está de carro precisa dar a volta até a BR 101 e voltar à costa por Eunápolis e Porto Seguro.

Só com uma maletinha e as duas bolsas de equipamento, eu estava suficientemente leve para seguir viagem pelo estuário. Peguei um ônibus de Itacaré a Ilhéus (1h30, R$ 10), esperei uma hora na rodoviária, então peguei o primeiro ônibus a Canavieiras (2h50h de viagem, R$ 16). Cheguei ao entardecer.

Canavieiras: pracinha próxima ao porto

Fui arrastando minha malinha da rodoviária ao porto (uma caminhada e tanto; se me lembrasse como Canavieiras era grande, teria pego um táxi) na esperança de combinar a travessia para a manhã seguinte. Quando eu estava me aproximando do cais, um homem já veio em minha direção, perguntando: “Belmonte?” Eu disse que sim, e ele já foi informando: “Amanhã, 6h30 aqui”. Quanto é? “20 reais”. Me deu um cartãozinho. Eu perguntei onde era a pousada mais próxima, ele indicou uma que ficava a umas quatro quadras dali — eu já tinha passado por ela na vinda.

No centro histórico de Canavieiras

(Só que essa informação foi furada. A pousada mais próxima do cais, e que também tem cara de ser a melhorzinha do centro, é a Frederic.)

Canavieiras foi uma cidade riquíssima no auge do cacau. Mas hoje ainda aparenta alguma prosperidade. O centrinho comercial é movimentado, e o centro histórico limpo e, no geral, muito bem conservado. (O casario principal foi restaurado no fim da década de 90 pela Bahiatursa.) A cidade é pólo de pesca oceânica — a região é uma das melhores do mundo para pescar marlim azul — e atrai brasileiros e gringos endinheirados (alguns acabam ficando).

No portoNo portoNo porto

À noite jantei na beira-rio, onde há vários restaurantes (e onde se ouve bastante alemão). Às 6 da manhã eu já estava fora da pousada, para fazer essas fotinhos da cidade. No porto, o dono da minha lancha já estava lá, mas os outros passageiros, ainda não. A maior movimentação era de uma superlancha de pesca que estava sendo carregada com gelo para uma saída.

Pesca oceânica x lanchas de passageiros

A balança do porto

A travessia pelos canais só pode acontecer durante a maré alta. Por isso o horário tão cedo: naquele dia o auge da maré alta seria às 7h30, e a lancha ainda teria que voltar a Canavieiras na mesma maré.

Quando embarquei, estava um pouco arrependido de não ter conversado mais com o cara que me atendeu no porto. Será que, fazendo a travessia de passageiros, eu veria a paisagem mais bonita? Será que eu passaria por trechos realmente estreitos, por igarapés? Não teria sido melhor eu fretar uma lanchinha só para mim e pedir um passeio com tudo a que eu tinha direito?

Saindo...

Agora era tarde. E o começo da travessia não era animador: um rio largo, como qualquer outro que eu já tivesse navegado nesse Nordeste em direção a alguma ilha ou praia.

Na direção contrária

O início da travessia

Mas então, lá pelos dezoito minutos do primeiro tempo, os canais começam a se estreitar.

Afinando...

Afinando...

E então, mais adiante — sim! Me senti no passeio que eu queria fazer.

Estreitou!

Cuidado com a cabeça!

Estradinha boa...

É um deslumbre. A viagem leva uma hora, mas em nenhum momento você se cansa de contemplar o manguezal e ficar curioso com o que vem depois da próxima curva.

O mangue

E daí apareceu o solzinho

Claro que deve haver passeios específicos ainda mais impressionantes, que se embrenhem ainda mais pelas ilhotas — mas adorei saber que essa é a paisagem básica que enfeita o caminho da senhorinha de Canavieiras que vai visitar a prima em Belmonte. Nem no Rio de Janeiro fazem linhas de transporte coletivo tão bonitas…

O mangueO mangueO mangue

À medida que nos aproximamos do Jequitinhonha propriamente dito as águas vão se tornando mais barrentas. Os últimos cinco minutos transcorrem já no rio largo, com a beira-rio arborizada de Belmonte se aproximando lentamente.

Chegando em Belmonte

Chegamos, paguei meus 20 reais, a senhorinha também. Não apenas fiz o trajeto dos moradores, como me cobraram igual 😎

Belmonte

Belmonte é menor e bem mais pacata do que Canavieiras. É uma cidade isolada: não há ligação asfaltada com a BR 101 (é preciso atravessar a balsa do rio João de Tiba para ir a Cabrália e Porto Seguro, e daí sim ir a Eunápolis), e não há os sinais exteriores de riqueza e renovação recente que se vê do outro lado do estuário. Mas é uma cidade que tem aquela beleza melancólica dos lugares que decaíram mas não se corromperam. É uma cidade que dá vontade de adotar; não há quem não fale com carinho de Belmonte.

Belmonte

Não pude ficar muito. Ou eu pegava o ônibus das 11h50, ou depois só o das 16h20 — e tinha trabalho para terminar.

Mas no fim declarei missão cumpridíssima. Não acredito que exista no Brasil outro passeio tão bonito que possa ser feito por 20 reais.

99 comentários

Ric, sobre esta maravilha que é Belmonte só faltou contar que a cidade se intitula ‘a capital mundial do Guaiamum(primo distante do carangueijo)’. Se voce chega pela estrada depois da balsa de Cabrália é recepcionado pelo monumento ao Guaiamum que é o pórtico da cidade. Ao ser avistado de longe parece um Transformer(aquele caminhão duble de robô). Outra coisa interessante de Belmonte é o mar que vem retomando a praia, da última vez que lá estive há 3 anos, as barracas e quiosques estavam todos derrubados pelo marzão.

blogueiro , voce nao tem nenhum flickr nao?
senti falta de ver mais fotos suas aqui, em especial de belmonte!
abç

Ai, ai… E agora? Eu me prometo que minha próxima viagem para o litoral não será para a Bahia, que eu vou explorar os estados lá de cima, mas chego aqui e mudo de idéia tão rapidinho… 😕

Ricardo,

Podia ter pegado uma moto-táxi na rodoviária de Canavieiras e entrar no clima da cidade. Pena vc ter ficado tão pouco, minha terra tem muito mais a oferecer.
Pessoal, quando passarem por lá (com mais um tempinho), não deixem de ir à praia, comer caranguejo e guaiamun. Nesse porto pega-se a lancha para um passeio pelas ilhas e para tomar banho na lama negra (muito bacana). Quem preferir, pode ir pescar Marlin em alto mar. Pela praia pode-se ir até a Barra de Albino, onde tem o encontro com o rio, um paraíso totalmente conservado e lindo.

Abços !

    Nilma, eu já tinha ido à praia e comido caranguejo em outra ocasião. Sem carro, o meu objetivo era mesmo a travessia, que estava em pauta há muitos anos.

Adoro essas cidadezinhas e vilas com suas casinhas coloniais da Bahia.
E mais ainda da excelente composição que fazem com as árvores, imensas, majestosas e ancestrais.
Tive oportunidade de ver algumas e agora mais essa excelente sugestão!
Fui cinco vezes consecutivas à Bahia e pelo jeito preciso continuar voltando…rsrs
Delícia de post, parabéns!

Olá Ricardo ,gosto muito do teu BLOG !!!!
Moro no Rio de Janeiro , mas minha mãe e todo omeu lado materno nasceram em Canavieiras , onde fui muitas vx. passar férias maravilhosas na minha infância , a cidade é uma graçinha !!!
Meu avô tinha fazendas de cacau na região !!!!
No mes de julho tem muitas festividades por conta da festa de São Boa Ventura padroiro da cidade !!!!
Quem quiser visitar a cidade indico a POUSADA MARA ,a propietária é minha prima Maria Luiza , vcs. vão ficar satisfeitos com o serviço !!!!
Um abraço !
Márcia Cintra

Olá, Ricardo!
Moro em Santo André há 3 anos e estou adorando essa sua proximidade de nossa praia.
Só para lembrar que existe uma boa estrada de asfalto entre a BR 101 e o litoral. Ela é mais útil para quem vem na BR na direção Norte-Sul. Foi construída pela Veracel. Na BR, a entrada é próxima a Itapebi e vem desembocar no balão perto do vilarejo de Mojiquiçaba, ao sul de Belmonte.
Quando mudamos para cá, colocamos o caminhão na estrada de terra que o André Lot mencionou… aí o caminhão atolou, com toda a nossa tralha do Planalto Central. Foi um (lento) Deus-nos-acuda.
Ah, sim, coloquei um postinho no meu blog hoje (faço um microblog sobre Santo André e eteceteraetal) com link para o seu post do Jequitinhonha — justamente porque gosto de colecionar notícias sobre a região.
abraços, espero conhecê-lo quando estiver em Santo André

olimpia

    Obrigado pela informação, Olimpia!

    Dei uma passada extra-oficial por aí na vinda, mas aparecerei oficialmente neste fim de semana 🙂

    Vou consertar a info do asfalto, ótimo saber que já tem.

Riq, acho Belmonte um lugar único, com um enorme potencial se for desenvolvido da maneira correta. O conjunto de casarios históricos lá é muito grande. As tuas em formato todo organizado também são bem diferentes de lugares que foram se “ajuntando” como Porto Seguro.

Tem uma estrada de terra que liga um ponto na rodovia Belmonte-Cabrália à BR-101. Ela é até boazinha, pois por lá passam os caminhões que transportam madeira de umas plantações bem grandes de eucaliptos que tem por ali (está no nível da estada BR-101-Caraíva, ou estava quando fui pra lá).

Tem umas praias muito interessantes (paisagisticamente, e com trechos em que a água amarronzada dá espaço a um azul bem escuro e areia grossa) entre Belmonte e Cabrália. Até porque o acesso é difícil e exige duas balsas desde Porto Seguro, o lugar ficou a salvo, por ora, de projetos mal feitos.

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