De São Luís a Fortaleza pra Flavia

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A Flavia Penido quer fazer agora em julho com o figliolo uma das viagens mais lindas do Brasil: de São Luís a Fortaleza, passando pelos Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e Jericoacoara. O problema — e ela já está consciente disso — é que 12 dias é pouco tempo para se fazer tudo. Ainda mais que ela faz questão de alguns desvios que são lindos, mas que complicam bastante a logística do roteiro (passar uma noite em Alcântara, ir a Santo Amaro do Maranhão, chegar de cavalo no restaurante da Luzia no Atins, dormir em Tatajuba e cumprir a promessa de encerrar o périplo levando o rebento ao Beach Park em Fortaleza).

A época é ótima: os Lençóis estão no ponto entre junho e o início de setembro (às vezes até o fim de setembro, se a época das chuvas tiver sido generosa).

O ritmo da viagem nem é tão problemático: não tem outro jeito de fazer os Lençóis senão num esquema-coelho. Não existe por lá nenhum lugarejo (nem hotel, nem pousada) agradável o bastante para ficar e relaxar; é melhor programar um passeio por dia do que ficar parado. O chato é que às vezes é inevitável ter que dormir só uma noite num lugar e já levantar acampamento. Quem tiver tempo sobrando pode (deve) descansar em São Luís e/ou em Jeri .

Existem quatro maneiras de resolver essa viagem, Flavinha.

1) Com uma operadora de ecoturismo. Sim, sou eu que estou escrevendo isso. Não entrou um hacker nem estou sendo pago pra fazer merchã. Acontece o seguinte: nos Lençóis e no Delta, a não ser que você vá num esquema supervip, todos os passeios vão ser em grupo. Estando já no grupo de uma boa operadora eco, você não vai esquentar a cabeça pra descobrir os horários do transporte público pros Lençóis, se encaixar em passeios quando chegar por lá nem conseguir traslados dos Lençóis pro Delta e depois pra Jeri. Um roteiro quase perfeito pra você é o de 11 noites da Freeway, que é superbem-resolvido. Se quiser (eu acho pesado), você pode usar o segundo dia em São Luís pra ir (e voltar no mesmo dia) a Alcântara. Ou tentar organizar com a própria operadora um traslado do Caburé (onde a voadeira do passeio pelo Preguiças chega por volta do meio-dia) ao Atins e dois cavalos e um guia pra almoçar na Luzia (acho complicado, e deve ficar caro, mas não custa perguntar…). Outra coisa é que você precisaria de uma noite extra em Fortaleza pra tal ida ao Beach Park negociada com o pimpolho (mas ficaria exatamente dentro das 12 noites que você tem disponíveis). Ainda com a Freeway, dá pra tentar fazer negócio com o roteiro de 7 noites em São Luís e nos Lençóis que eles têm. Você pode chegar um dia antes em São Luís (usando o segundo dia pra ir a Alcântara) e abandonar o grupo no quinto dia do programa oficial, em Barreirinhas, antes deles voltarem pra capital (alterando o vôo da volta pra Fortaleza-SP, e resolvendo a viagem Lençóis-Delta-Jeri com uma operadora local ou um jipeiro). Esse roteirinho da Freeway só nos Lençóis é campeão — tem Santo Amaro completo, um dia pro Caburé e outro pro Atins. (E uma outra opção: a Venturas tem um roteiro de 7 noites com pernoite em Alcântara e passeio no Atins; dá pra cair fora no penúltimo dia, antes do grupo voltar a São Luís.)

2) Fazendo um esquema vip com uma agência local. O Jorge Bernardes do Giramundo fez assim. Ligou pra melhor agência de Barreirinhas, a EcoDunas, e eles arranjaram a hospedagem, passeios e (o ponto crítico dessa viagem) os traslados. A parte piaúio-cearense (gostou do piaúio-? cabei de inventar) da epopéia foi repassada pela EcoDunas à Clip, que é a agência mais poderosa de Parnaíba (se você já foi a Pernambuco ou Noronha, pense na Clip como sendo a Luck do Piauí). Os pontos mais megavips do roteiro do Jorge foram os traslados privativos entre o Caburé e Tutóia (de bugue) e de Parnaíba a Jeri (de 4×4, pela areia).

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3) Tentando se encaixar em traslados com agências ou jipeiros da região. De São Luís a Barreirinhas e de Jeri a Fortaleza a oferta de transporte é farta (van e ônibus em São Luís, ônibus e 4×4 em Jeri). Entre Barreirinhas, Parnaíba e Jeri dá para tentar se encaixar em traslados organizados por agências locais (às vezes, terceirizados com jipeiros independentes). Alguns contatos: em Barreirinhas, Off-Road Adventure ( 98/3349-0625 ), Ecotrilha ( 98/3349-0372 ) e Tropical Adventure ( 98/3349-1987 ); em Parnaíba, a Eco Adventure Tour; em Jeri, Jeri Adventure e Jeri Off Road. Acho meio difícil confirmar alguma coisa com muita antecedência, porque no esquema não-vip você vai depender de outros passageiros pra fazer a lotação. As pousadas também costumam ter esquemas com agências e jipeiros; dá para pedir pra sua pousada no Caburé encaixar você num jipe pra Tutóia ou Parnaíba (o que pode acontecer é não aparecer outros passageiros e você acabar pagando a conta sozinha).

4) Indo com a cara e a coragem. Se você não estivesse com tempo reduzido, e carregando uma criança a tiracolo, essa seria a minha primeira opção. Com vinte dias na mão, daria pra fazer uma viagem sensacional e econômica, usando transporte roots (se você tem tempo, dá pra ir até pro Atins de Toyota de linha…) ou se encaixando em traslados que aparecerem na hora, e ficando esperto em Barreirinhas pra arranjar companheiros pra dividir um jipão pra parte mais complicada do trajeto, Caburé-Tutóia. Com pouco tempo, no entanto, fica difícil conciliar os horários do transporte regular (e a duração das viagens, sempre maior nos busões e congêneres) com os seus objetivos de estrada.

O único jeito que eu não recomendo fazer esse roteiro é do jeito que eu fiz: indo com o próprio carro. Entre Barreirinhas e Parnaíba um carro é um estorvo; eu precisei dar a maior volta pelo asfalto. (Indo de 4×4, porém, é outra história. Mesmo assim, você vai precisar de autorização do Ibama e contratar guia no local.)

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Vou então repassar o roteiro, resumindo a blogação ao vivo do ano retrasado e tentando fazer um quase-guia.

São Luís

portasamaz210.jpgSe é para ficar pouco tempo na cidade, eu já me hospedaria direto no centro histórico, que o pessoal de lá também conhece por “Praia Grande” (o nome oficial do bairro) ou “Reviver” (como se chamava o projeto de restauração do lugar). A pousada mais bacaninha é a Portas da Amazônia (foto ao lado) que fica numa das ruas mais, ahn, bem-apessoadas do centro velho, a rua do Giz (foto abaixo). O barulho à noite, porém, pode ser um problema; evite os quartos da frente.

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Atualização: o Ruy Neuber me chama a atenção para a reabertura do hotel Vila Rica, que estava fechado quando estive na cidade, agora totalmente reformado e rebatizado como Grand São Luís. É a pedida para quem quer ficar no centro histórico com conforto e estrutura.

O centro histórico é relativamente compacto. Eu começaria o passeio pela Casa das Tulhas, que é o mercado público da cidade antiga; as bancas que vendem alimentos fecham cedo, depois só ficam abertas as lojinhas de artesanato. Dois museus são imperdíveis: a Casa do Maranhão, ali pertinho, que é a mais bonita introdução que você pode ter ao universo do bumba-meu-boi, e a Casa da Festa (ou Centro de Cultura Popular), subindo a rua do Giz, onde há lindas salas sobre o tambor-de-mina (a forma maranhense do candomblé) e a Festa do Divino de Alcântara. Eu sempre digo que, depois de visitar esses dois museus, você entende porque tanto Joãosinho Trinta quanto Parintins foram gerados em São Luís.

Os restaurantes do centro histórico são mais para turista, mas eu não desdenharia (como não desdenhei; experimentei e gostei) o buffet do Antigamente, que fica ao lado da Casa das Tulhas, na rua da Estrela — se você não comer, você vai querer dar uma paradinha pra tomar alguma coisa gelada numa das mesas da calçada. O restaurante mais arrumado do bairro (e talvez o único freqüentado pelo soçaite local) é o Armazém da Estrela (rua da Estrela, 401), que tem ambiente refrigerado, música ao vivo e cardápio metidinho (foto da esquerda, abaixo). Eu comi um peixe que vinha com um marisco da região que dá nas pedras e cujo nome me escapa; aprovei).

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Mesmo com tempo exíguo, eu sairia do centro velho para comer no restaurante mais charmoso de São Luís, o Maracangalha. (Quer dizer, era o mais charmoso na época em que era na praia do Calhau; não vi ainda fotos de seu novo endereço, na Alameda Mearim, quadra 3, casa 13, no bairro de Renascença; tel.  98/3235-9305 .) O cardápio é muito parecido com o do restaurante de comida regional mais tradicional da cidade, o Cabana do Sol — mas, além do ambiente ser mais gostoso, o trunfo do Maracangalha é um pastelzinho de carne acompanhado de uma geléia morna de pimenta que é tudo nessa vida (foto da direita, aí em cima).

A zona da muvuca de bares, restaurantes e jipões fica nas redondezas da Lagoa da Jansen (foto abaixo) um parque em torno de um belo manguezal à altura da praia de Ponta d’Areia. Fora do circuito, tem um bar que eu estou muito curioso para conhecer, o Bar do Léo, que fica na antiga Cobal da cidade, o mercado das Vinhas (meio longinho). O bar é todo decorado com quinquilharias e o dono tem uma coleção de 10.000 vinis.

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No entardecer de sexta-feira sempre tem apresentação de tambor-de-crioula no centro histórico. Além disso, de 13 a 29 de junho é a época oficial do bumba-meu-boi nas ruas. Mas em julho a festa continua no pátio do Convento das Mercês, no centro histórico, de quinta a domingo. E durante o ano inteiro rola o reggae de radiola (uma parede de caixas e som que tocam reggae maranhense com letra de embromation). Às sextas e sábados tem no Bar do Nelson, na praia do Calhau; mais perto (e mais roots), tem o Trapiche e a Toca da Praia, na Ponta d’Areia; no centro antigo, o Bar do Porto e o Reggae Roots. O Otavio Rodrigues (colaborador da Viagem & Turismo, ex-morador e apaixonado por São Luís) recomenda, no Guia 4 Rodas deste ano, as radiolas Itamaraty ( 98/3232-6121 ) e FM Natty Nayfson (eita, o nome já soa embromation,  98/3222-7536 ); ligue para saber a agenda.

As praias de São Luís, se por um lado não são de jogar fora, por outro também jamais seriam a razão principal de alguém ir para lá. Se você ficar muitos dias na cidade, ótimo, vá à praia — a que eu gosto mais é São Marcos, que antecede a praia do Calhau. O calçadão é bacaninha, e alguns quiosques são maneiros. Mas não se dê ao trabalho de pegar praia nos arredores da cidade — a não ser que você queira fazer um estudo antropológico sobre o costume norte-nordestino de levar o carro para a areia, abrir a traseira hatch e fazer do seu automóvel um trio elétrico. Não faça isso. Fique por São Marcos mesmo, ou no máximo, pelo Calhau.

No front da hotelaria, eu não caí de amores por nenhum hotel ou pousada na cidade. No centro histórico, gostei da Portas da Amazônia até a página três e me decepcionei um pouco com a Pousada do Francês (luz branca, ambientes tristes). Dormi uma noite no São Luís Park Hotel, no Calhau, antes de virar Pestana, mas no site não há nenhum indício de terem mexido nos apartamentos, que estavam bem antiquados. Em Ponta d’Areia, perto da Lagoa da Jansen, existem flats decentes, como o Bellagio, o American Flat e o Number One, mas eu fiquei totalmente passado ao saber que o mesmo grupo é responsável pelo estrupício horrendo que eu tinha visto à beira do rio Preguiças, em Barreirinhas. Enfim. Eu me hospedaria no Grand São Luís ou compraria um par de tapa-ouvidos e ficaria na Portas da Amazônia.

Alcântara

Os barcos saem do terminal hidroviário do centro histórico às 7h e às 9h30, e voltam às 8h30 e 16h. A viagem dura uma hora. (Quando a maré é baixa demais nesse horário, os embarques ou desembarques podem ser transferidos para a Ponta d’Areia, com traslado em ônibus incluído. Às vezes também os horários mudam, então é bom ligar na véspera para saber direitinho:  98/3232-0692 ).

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Alcântara é um passeio pouco popular entre brazucas, que não gostam de passar tanto trabalho só “pra ver ruínas”. Mas é o ar de cidade colonial abandonada que faz valer a viagem. Para quem tem tempo e não se importa em dormir em alguma pousada simplérrrrrima (não há pousadas confortáveis em Alcântara; se você quiser abrir uma pousada de charme por lá, garanto ser um ótimo negócio), sugiro passar a noite. É por um preciosismo: acho que o visitante chega à cidade no pior horário, com o sol a pino; fica vagando sob aquele sol e tirando fotos lavadas; e quando a cidade começa a ficar mais bonita, vai embora (e ainda perde a revoada de guarás no fim da tarde).

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Mas se você não tem tempo, como a Flavia (viu, Flavia?), esqueça. (A quem se interessar em ficar: este é o link com o telefone das pousadas de Alcântara. A mais bem estruturadinha é justamente a que não está no centro — a Pousada dos Guarás, com microchalés na praia.)

Santo Amaro do Maranhão

Para quem está indo de São Luís na direção do Delta e Jeri, infelizmente faz mais sentido fazer de Santo Amaro a primeira parada nos Lençóis. Digo infelizmente porque as lagoas de Santo Amaro são, disparado, as mais impressionantes (e menos visitadas); depois delas, as lagoas do entorno de Barreirinhas vão parecer fracotas e crowdeadas. Mas como a entrada de Santo Amaro fica 50 km antes de Barreirinhas (depois ainda há mais 40 km pela areia), se o passeio for deixado para o final, significará 100 km rodados à toa. Primeira parada, Santo Amaro, entonces.

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Me lembro de ver SANTO AMARO anunciado em letreiros de várias agências de viagem do centro histórico de São Luís. Mas quem disse que eu entrei para perguntar o que era? Tanto podiam ser ofertas de fretamento de jipe até lá, como, quem sabe, passagens de ônibus ou van até Sangue, a parada no meio do nada onde se pega a Toyota de linha que liga Santo Amaro à civilização.  Segundo esta página aqui (que pode estar desatualizada…) os horários da Toyota de Sangue a Santo Amaro são às 8h e às 17h — o que me levaria a crer que os ônibus que partem de São Luís às 6h e às 14h são os mais indicados para fazer a conexão. Eu poderia ligar para a viação Cisne Branco ( 98/3243-2847  e 3245-1233 em São Luís,  98/3249-2488  em Barreirinhas) e confirmar, mas daí seria mais um horário desatualizável publicado na rede. É melhor ligar e confirmar.

Quando fui, formei um grupo com um casal paulista e fizemos o passeio às lagoas com a Turismo Santo Amaro ( 98/3369-1180 ). Em Santo Amaro e em qualquer canto dos Lençóis, deixe sempre para passear às lagoas à tarde; o sol mais baixo castiga menos e o entardecer deixa as fotos muito mais bonitas.

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Santo Amaro tem duas pousadas bem básicas (e outras que não chegam a isso). Uma é bonitinha, a Solar das Gaivotas ( 98/3369-1064 , à beira-rio, com um agradabilíssimo deck com vista para mangue e dunas; foto acima, à esquerda), e outra, eficiente, a Água Doce ( 98/3369-1105 , limpinha mas sem-graça, foto acima, à direita). Pela minha experiência — e pelos relatos que já ouvi –, por incrível que pareça, a que recomendo é a pousadinha sem-graça, a Água Doce. Eu pensava que a Solar das Gaivotas (a da fotinho da esquerda) tinha sido construída para hospedar o elenco de “Casas de Areia”, mas outro dia o Andrucha (se você me desculpa o name-dropping) me disse que, apesar dos atores principais terem se hospedado na Solar, a pousada construída pela produção foi a Água Doce, para hospedar o pessoal de apoio. Pois não é que a pousada feia acabou aprendendo a operação profissional da produção do filme? Informação equivocada. A Água Doce já existia antes do filme.

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Ao chegar à cidadezinha, passe no posto da Cisne Branco para comprar sua passagem a Barreirinhas. A Toyota da manhã sai de madrugada, mas passa em frente à pousada para pegar os passageiros. (Mas deve haver uma outra Toyota no início da tarde, também.) Se você quiser, divida os passeios às lagoas da região em dois dias, mas não fique muito mais do que isso, não — Santo Amaro não comporta. A areia das ruas da cidade é tão fofa e funda que qualquer caminhada à praça da igreja vira uma pequena maratona.  Siga para Barreirinhas, para subir o rio Preguiças.

Barreirinhas

O vilarejo ribeirinho de Barreirinhas é a grande metrópole dos Lençóis Maranhenses. É aqui que 98% dos visitantes ficam hospedados durante toda a sua estada na região, fazendo dali sua base para passear às lagoas próximas (Azul e Bonita) e subir de voadeira (lancha rápida) o Rio Preguiças, indo até o Caburé.

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Com exceção do hotel Porto Preguiças “resort”, que tem sua graça (foto acima), as alternativas de hospedagem em Barreirinhas são bem bregaldas. (Uma delas é nada menos do que uma afronta: o novo Lençóis Resort, um estrupício de um arranha-céu horrendo que conspurca as margens do Rio Preguiças.)

hotelriopreguicas210.jpgSe não der pra cacifar o Porto Preguiças, eu sugiro ficar no hotel Rio Preguiças ( 98/3349-0425 , foto ao lado), que fica na praça principal da cidadezinha e tem ar de hotel duas-estrelas antiguinho do interior. O restaurante mais sofisticado, claro, é o do Porto Preguiças; o cardápio mais interessante, do Restaurante do Carlão (perto da agência EcoDunas,  98/3349-0016 ), que prepara peixes ao molho de frutas da região. Na beira-rio você encontra uma franquia da pizzaria paulista Nômade e um restaurante típico de cardápio extensíssimo e um tanto inflacionado, o Terraço do Preguiças.

De Barreirinhas é possível visitar as lagoas Azul e Bonita — mas em passeios diferentes, já que cada uma é prum lado (eu não encavalaria as duas no mesmo dia; manteria a regra de fazer passeio de lagoa sempre à tarde). Se você já foi a Santo Amaro, talvez se ache vítima de um downgrade lagoal, já que o filé dos Lençóis fica praqueles lados. Uma maneira de continuar se embasbacando com as lagoas é fazer o sobrevôo do parque em monomotor. Custa R$ 150 por pessoa, dura meia hora e vem a calhar para quem não quer ir a nenhuma lagoa pela manhã.

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Mas Barreirinhas não é só lagoas — é também a porta de entrada do rio Preguiças, que tem um manguezal com árvores gigantes (tem uma hora em que você se sente na Amazônia…) e leva a igarapés e vilarejos rústicos até desembocar no mar. O passeio-padrão oferecido é um bate-e-volta de voadeira até o Caburé, com algumas paradas na ida, voltando direto depois do almoço (você sai às 9 e está de volta depois das 4 da tarde).

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É possível dormir no Caburé ou um pouco mais adiante, no Atins. Vale a pena? Resposta nos próximos parágrafos.

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Caburé

Um pouco antes da foz do Preguiças, na sua margem direita (leste), Caburé é um lugarejo habitado por restaurantes e pousadas que estão ali para receber o povo que faz o passeio pelo rio. O lugar é interessante por ser uma faixa estreita de areia (e nada mais do que areia) entre o rio e o mar. Ali fica também aquela que talvez seja a pousada mais arrumadinha de todos os Lençóis, a Porto Buriti.

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Dormir no Caburé é obrigatório para quem vai continuar a viagem pela areia até Tutóia, na extremidade leste do parque dos Lençóis. E é uma boa alternativa também para quem quer fazer o Atins, mas se hospedando com um pouquinho mais de conforto. Se você ficar por aqui, não deixe de fazer o passeio de barco até a foz do rio, para ver o pôr-do-sol e os guarás. (Também é possível — e até mais fácil — fazer esse passeio a partir do Atins.)

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Atins

É o último vilarejo ao longo do rio Preguiças, em sua margem oeste (esquerda). Tem um povoadinho de verdade (ou seja: à diferença do Caburé, tem mais moradores do que turistas…). Fica a 10 minutos de voadeira do Caburé — ou 3h30 de barco de linha de Barreirinhas (saídas de manhã cedinho, volta idem). Parece que tem também uma Toyota de linha (ou ônibus, não entendi muito bem) que faz de Barreirinhas ao Atins em duas horas e pouco.

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Atins é a parte mais pobrezinha do parque; quando estive lá, no ano retrasado, só havia uma Toyota em todo o povoado (na pousadinha menos básica, a Rancho dos Lençóis). Sem conseguir essa Toyota, os passeios só podem ser feitos a pé ou a cavalo. Como 2005 foi ano de poucas chuvas, quando cheguei ao Atins as lagoas estavam secas; me falaram muito de um tal Poço das Pedras, que seria belíssimo, mas não consigo achar fotos no Google Images. O que eu sei que vale a viagem ao Atins é o camarão da Luzia, os mais tenros e saborosos que já tive a sorte de provar.

Tutóia

Aqui falo de orelhada, porque eu fui de Barreirinhas a Parnaíba pelo asfalto, dando uma volta danada (deu quase 600 km; precisei voltar quase até São Luís). Bom. Mas quem sai do Caburé vai pela areia até Paulino Neves (onde a praxe é tomar banho de rio) e, de lá, em estrada precária, até Tutóia, que também tem suas dunas e lagoas, não tão bonitas quanto as que você já viu. De Tutóia você pode continuar pela estrada (150 km, asfalto precário, com o seu 4×4 fretado ou de busão de linha) até Parnaíba. Ou, se preferir, já pode começar sua viagem pelo Delta do Parnaíba — nas classes vip ou antropológica.

Delta vip a partir de Tutóia: vá de chalana fretada à Ilha do Caju (foto abaixo), um santuário ecológico privado que tem uma pousada charmosinha. Mas atenção: tudo é muuuito rústico, e ainda assim, não é propriamente barato; para aproveitar, você vai precisar gostar de caminhar, andar a cavalo e fazer observação de pássaros e animais (não se trata de um zoológico; é preciso paciência e gosto pela coisa). Se você é ecoturista ou aventureiro de carteirinha, pode se esbaldar. Senão, passe.

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Delta antropológico a partir de Tutóia: às 3as. 6as. e domingos (com volta às 2as., 5as. e sábados) sai um gaiola com destino a Parnaíba, passando por inúmeros vilarejos do Delta. Eu sou louco pra fazer. A viagem dura 10 horas, e lá pelas tantas deve virar um tédio. Mas vale por: uma travessia do Delta, um Globo Repórter e uma National Geographic TV. Essa alternativa não existe mais (obrigado pela dica, Genário).

[Atualização: já é possível fazer este trajeto de avião, em vôos regulares. Clique aqui.] 

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Parnaíba e Luís Correia

Parnaíba é uma cidade da maior simpatia; a antiga zona do porto foi restaurada e ficou uma belezinha — é o Porto das Barcas (foto abaixo). Se você chegar num fim de semana, pode se encaixar num dos passeios populares ao Delta, feitos em chalanas, com mesas (de plástico…) no deck, bebida e música. A outra opção de passeio é fretar uma voadeira numa das agências que eu listei lá em cima. Eu sei que eu sou um ser do asfalto que não sabe diferenciar uma samambaia de uma bromélia — mas, na minha leiguice, preciso dizer que não vi muuuita diferença entre a paisagem do Parnaíba e a do Preguiças. Mas, vá lá, talvez um passeio feito com um bom guia me resgatasse das trevas da ignorância…

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Luís Correia é onde fica a praia de Parnaíba. No verão do meio-norte (de julho a dezembro) as águas ficam azuis. A praia com melhor estrutura é a do Coqueiro, onde tem um boteco bacana à beira-mar (e onde também fica o restaurante mais famoso da região, o Dedé; peça o camarão ao molho branco). A paisagem mais bonita, pro meu gosto, é a da praia do Macapá, que tem um recorte bonito e um manguezal lá longe.

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A região tem duas opções bem recomendáveis de hospedagem: em Luís Correia, o hotel Islamar, pé-na-areia num trecho deserto da praia; e em Parnaíba, a Casa Inglesa, um casarão histórico dos mesmos donos da Ilha do Caju.

Camocim

Fica a 120 km de Parnaíba pela estrada; se você estiver num 4×4, provavelmente vai pela praia a partir de Bitupitá ou da Barra dos Remédios (foto abaixo). A cidade entrou para os guias depois que abriu o resort Boa Vista, de italianos, que é a ponta-de-lança de um grande empreendimento imobiliário de casas de veraneio para europeus.

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A meio caminho entre o Delta e Jeri, Camocim é vendida como uma base confortável e estratégica para explorar a região. Mas como quem faz o roteiro Lençóis-Jeri já está explorando a região, ficar em Camocim é dispensável. Ganhe mais um dia em Jeri que você faz melhor.

Tatajuba

Destino de passeios de bugue tanto de Jeri quanto de Camocim, Tatajuba tem uma concorrida (ou farofada, se você quiser ser crítico) lagoa de águas verdes. O lugar é lindo e, depois que os bugues vão embora, deve ser paradisíaco.

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No ano retrasado descobri uma pousada linda, de um espanhol, a Santa Maria ( 88/9925-7444 , foto abaixo), que continua secreta. Se você pode se dar ao luxo de dar um tempinho sem fazer absolutamente naaada, peça para o seu 4×4 deixar você aqui.

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Jeri

Quando escrevi sobre esse roteiro na Viagem & Turismo, disse que o sentido que fazia mais sentido era o oposto — saindo de Jeri e terminando nos Lençóis a paisagem vai ficando mais rica e diversificada, culminando com o deslumbre total das lagoas de Santo Amaro (e com direito ainda a alguns dias de história e agito em São Luís). Já o Jorge do Giramundo discorda: acha que Jeri é o fecho perfeito para descansar da maratona. Cada um olhando seu ângulo, acho que nós dois temos razão. 😆

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Vou escrever mais detalhadamente sobre Jeri outro dia — até porque desenrolei o novelo da tal matéria do Washington Post que fez a fama do lugar. Como eu sei que a Flavia já foi a Jeri, deixo aqui só as minhas indicações de hospedagem. Se não der pra cacifar uma palafita na Vila Kalango ou um apartamento no segundo andar (os térreos são muito devassados) no Mosquito Blue, eu ficaria na Ibirapuera, na Cabana ou na Jeribá. (Com orçamento mais apertado, eu gosto da Calanda.)

No front transportífero, o melhor, claro, é se encaixar num 4×4 (sai uns R$ 90 por pessoa). Mas a boa notícia que tenho a dar é que o ônibus (R$ 36) não é mau, não. Ele só é mais lento por causa do transbordo em Jijoca (se fosse direto do Preá para o asfalto economizaria uns 40 minutos), da parada para almoço e das duas paradas que faz pelo caminho para pegar passageiros — numa cidadezinha cujo nome esqueci e numa rodoviária da periferia de Fortaleza. No final, dá 7 horas (duas horas e meia a mais que de 4×4).

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Para quem fretou 4×4 com direito a parar pelo caminho: a única paisagem que acrescenta alguma coisa a tudo o que você já viu dos Lençóis até aqui é a vista da Lagoinha (100 km antes de Fortaleza; foto acima). A melhor parada gastronômica é em Taíba (70 km antes de Fortaleza); experimente os escargots criados pelos próprios donos no Volta ao Mundo.

Fortaleza

aquashow100.jpgVocê sabe, não é, Flavia, que o Beach Park fica no Porto das Dunas, 30km depois de Fortaleza, certo? Como o seu objetivo é só cumprir a promessa ao pequeno Penido, faz sentido você se hospedar direto lá. Se em julho o Beach Park Resort, o Oceani e o Aquaville estiverem cobrando os tubos, considere passar essa noite no Kalamari, um hotel mais simples que fica bem pertinho do parque.

Resumindo… Flavia, se você for fazer tudo por conta própria, eu recomendaria, nesses doze noites, você ficar duas em São Luís (fazendo o bate-e-volta a Alcântara, sem dormir lá), uma ou duas em Santo Amaro, uma em Barreirinhas, duas no Caburé (use um dia para ir ao Atins), uma em Parnaíba ou Luís Correia, uma em Tatajuba (ou nenhuma, se você ficou duas em Santo Amaro), três em Jeri e a última em Fortaleza. Ufa, cansei…

E você, tem alguma dica da região? Contato de jipeiros, dicas de transporte que eu não dei — toda informação é muitíssimo bem-vinda.

211 comentários

Seu roteiro parece ser maravilhoso,muitas dicas que ajudam muito os turistas,pretendo fazer o roteiro em março de 2015, em lua de mel,gostei da 4° opção ” indo com a cara e a coragem”, pois tenho em torno de 17 dias pra fazer esse percurso,não fico regrado a ficar os dias estipulados pelas agencias,assim aproveitando mais os lugares que eu e minha noiva gostarmos,assim passando alguns dias a mais,como jeri,santo amaro e fortaleza ,e acredito eu sai ate mais barato,estou certo ?,gostei de tudo e pretendo passar por todas as cidades e vilarejos citados, mas minha duvida ficou nos transportes,você cita lugares onde só chega de 4×4, eu não pretendo ter um 4×4 a minha dispo cisão, ate mesmo porque ficaria muito caro e inviável(600 a 1000 reais,acho que vi isso em algum lugar),teria alguma especia de 4×4 coletivo ?(possa ser que alguns passeios sejam inevitáveis e ate mesmo mais prazeroso usar o 4×4,onde pretendo alugar, Toyota de linha ? como funciona ? seria uma especie de “coletivo” kkk ? encontrarei ônibus de cidade para cidade ? se possível ,me de dicas especificas sobre o transporte em si,valores,variedades e sugestões , se possível também quanto me indicaria a levar por dia,para um casal curtir sua viagem comendo bem,ficando em lugares bacanas e os passeis com transporte, sem luxo exagerado e extravagancia ,desculpa minha ignorância,qual quer ajuda e conselho sera de grande valia.

Tenho 17 dias disponíveis agora em julho.

Gostaria de fazer o seguinte trajeto:

Lençóis Maranheses (ficando em Atins ou em alguma outra localização que vocês recomendem mais) – São Luiz – Barra Grande do Piauí – Jeri.

Preciso apenas das recomendações de transporte entre uma localização e outra.

Já sei onde vou me hospedar em Jeri, sendo que dos 17 dias, pretendo ficar 7 em Jeri.

Gostaria também de recomendações sobre localizações para me hospedar nas outras localidades, exceto em Jeri.

Obrigado!

    Olá, Paulo! De São Luís você vai de ônibus a Barreirinhas. No dia seguinte, vai de Barreirinhas vai de voadeira a Caburé (passeio comum) e combina um traslado de Caburé a Atins com a sua pousada de Atins. Volta para Barreirinhas de carro de linha, dorme em Barreirinhas e pega um carro de linha no dia seguinte a Paulino Neves e ônibus para Tutóia. (Ou atravessa de barco a Caburé e freta um carro de linha a Paulinho Neves a tempo de pegar o ônibus para Tutóia). De Tutóia segue de ônibus no mesmo dia a Parnaíba. De Parnaíba segue de ônibus ou táxi a Barra Grande do Piauí. De Barra Grande do Piauí volta de ônibus a Parnaíba e pega ônibus a Jijoca. De Jijoca vai de jardineira ou carro de linha a Jeri.

    Carro de linha são camionetes com bancos inteiriços na traseira, usados pelos moradores locais.

    A alternativa confortável (traslados em jipões) é comprar um pacote com uma das grandes operadoras de ecoturismo ou fretar 4×4 ao chegar (pense em R$ 600 a R$ 1.000 por dia).

Olá! Li e reli vários roteiros que falam da travessia Lençóis-Fortaleza, mas ainda estou um pouco perdida. Estarei em Fortaleza e tenho uma semana pra ir de lá para São Luís. Tenho interesse em conhecer Jeri, Delta do Parnaíba, Caburé, Barreirinhas e Santo Amaro. Será que dá? Sugestões pra eu me desenrolar pra fazer essa travessia no que diz respeito à transporte hospedagem. Somos duas amigas e não nos importamos em viajar em grupo!Sugestões de roteiros? Muito obrigada! Adoro o site, parabéns!!

    Olá, Marineide! Ou você compra um pacote com uma operadora para fazer a Rota das Emoções — e isso não será barato — ou terá que fretar um 4×4 com motorista, o que sairá mais caro ainda.

    Tente com operadoras como a Venturas ou a Freeway. Querendo fretar um jipe, orce antecipadamente com sua pousada de Jeri.

    Usando transporte local, que sai baratinho (“Toyotas de linha”), você precisaria do dobro de tempo para fazer esta viagem.

Boa noite pessoal,

Em barreirinhas as lagoas estao cheias em fevereiro?

Estou em Sao Luiz partindo de carro para la, alguem pode ajudar?

    Olá, Dioner! Para encontrar as lagoas cheias e tempo bom, vá entre junho e setembro. As chuvas voltam aos Lençóis normalmente em dezembro ou janeiro e leva um tempinho até as lagoas encherem novamente.

Puuuuxa…=;( Entrei no site hoje para olhar uma dica sobre hotel de Fortaleza e resolvi ver se vc tinha respondido… Sabe que estamos fechando o pacote já daqui de SP, com todo o trajeto de Fortaleza a São Luis e pedi propositalmente 2 dias em Santo Amaro. A agência, não me disse nada sobre a “ausência” das lagoas…. vamos rever o passeio então. Ainda bem que vc me deu a dica… senão seria “una grande delusione per tutta la famiglia”. Grazie mille!!!!

Olá Ricardo, Li que você faria de novo esse roteiro, agora em agosto. Fez? Eu farei em janeiro de 2014 com minha família (marido e filho de 6 anos), mas farei de maneira inversa…. aquela que vc sugere, de Fortaleza para São Luis. Aliás foi por sua recomendação que decidimos não alugar nosso “próprio” 4×4. Teremos, porém, 25 dias, estavamos pensando em reservar uns 5 dias em Fortaleza e outros 5 em São Luis. É muito? Óbvio que para o pequeno, a “esticada” no Beach Park é obrigatória. O que vc acha de fazer o roteiro em 15 dias? Onde vc recomenda uns “dias a mais”? Queremos fugir de lugares extremamente cheios e apresentar ao “figliolo” um Brasil mais nativo, nos encantou, Santo Amaro. Super obrigada por suas dicas, aqui.

    Olá, Karina! Quem responde é A Bóia. O problema de Santo Amaro em janeiro é que não haverá lagoas para mostrar ao figliolo.

    Em Barreirinhas você poderá fazer os passeios pelo rio Preguiças. Carros de linha (toyotas) levam a Tutóia, e de lá você chega de ônibus a Parnaíba.

eu acho que vc desdenhou de algumas coisas, para vc alguns aspectos da cultura local são bobagens, para nos é sagrado…mais o resto eu gostei, é a visão sua visão.

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