Do província para o capital

Quando eu usava cabelos

Publicada originalmente no Jornal da Tarde. Hoje, 20 de setembro, se comemora a data “nacional” do Rio Grande do Sul. Não ria — é feriado e tudo. Em 1989, eu já morava há quatro anos aqui em São Paulo, quando de repente todos os meus amigos resolveram também emigrar de Porto Alegre para cá. A cidade já estava lotada de gaúchos e, mesmo assim, eles continuavam chegando.

Na mesma época, alemães-orientais da nossa idade começaram a pedir vistos de viagem para a Tchecoslováquia, e, aproveitando que a Hungria tinha resolvido abrir suas fronteiras, escapuliam com seus velhos carrinhos Trabant para a Alemanha Ocidental — num êxodo que culminou com a queda do Muro de Berlim.

Ocorre que, assim como Berlim, Porto Alegre também tinha (tem) um muro infame — o Muro da Mauá, erguido para proteger a cidade das enchentes do Guaíba. Os gaúchos que emigravam para São Paulo eram tão jovens e educados e saudáveis quanto os alemães-orientais que fugiam para o Ocidente. Não agüentei tanta coincidência, e tive que fazer um ensaio a respeito, que foi publicado na falecida revista (gaúcha, claro) Wonderful. Era mais ou menos assim:

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Nem mesmo o aparentemente intransponível Muro da Mauá (em alemão, die Mauer der Mauá) tem impedido que milhares de jovens abandonem tudo o que possuem em Porto Alegre Oriental e partam para recomeçar a vida em São Paulo Ocidental.

Muitos deles aproveitam pseudo-inocentes férias em Santa Catarina e de lá escapam, em velhos Chevette SL ou mesmo em velhos Boeing 727, rumo às delícias do capitalismo. O que leva tantos jovens a deixarem suas famílias, suas casas, seus amigos, para tentar tudo de novo numa terra estranha?

A verdade é que eles resolveram emigrar para poder ter acesso a bens e serviços que, em Porto Alegre Oriental, estão fora do alcance até mesmo da intelligentsia. E a principal causa disso é a fraqueza crônica da moeda local, o pila. Nos seus melhores momentos, 1 pila não costuma valer mais do que 50 centavos de cruzado novo.

Claro que, para comprar alimentos, pagar o aluguel e ter algum lazer, o pila basta. Mas para consumir tudo o que vem do Ocidente — carros, eletrodomésticos, passagens aéreas — um gaúcho-oriental desembolsa, proporcionalmente, o dobro de um paulista-ocidental.

No Ocidente, as histórias do dia-a-dia do socialismo gaúcho-oriental são recebidas com curiosidade e espanto. Coisas como carnês e mais carnês para pagar compras, mães que andam de lotação, crianças que voltam da escola de ônibus — tudo isso parece ficção para quem leva uma vida classe média em São Paulo Ocidental.

Quando chegam lá, os gaúchos-orientais se superam. Enquanto os ocidentais, acostumados desde crianças ao capitalismo, passam quase todo o seu tempo livre em shopping centers, os refugiados preferem os acontecimentos culturais. Em teatros, vernissages, pré-estréias, shows e performances, é cada vez mais comum ver grupos de pessoas com aquele típico sotaque de quem tenta disfarçar o sotaque gaúcho-oriental.

O que é, francamente, impossível. Depois de tantas décadas de isolamento, o português falado no Rio Grande Oriental tornou-se uma língua mutante, de difícil compreensão no Ocidente.

Mesmo a influência da TV ocidental — captada com facilidade em toda a região — não conseguiu modificar as estruturas e o sotaque do gaúcho-oriental, cujo idioma se baseia em múltiplas combinações dos monossílabos “tu”, “bah” e “né”. Na boca de um gaúcho-oriental, o pronome ocidental “você” parece ter quatro sílabas. E soa tão artificial, que a frase “eu gosto de você” parece vir com adoçante.

Mesmo com o êxodo consumado, e a perspectiva de novas levas de jovens fugirem para São Paulo Ocidental, as autoridades gaúchas-orientais parecem pouco se importar. No máximo, devem se perguntar se o Estado pode vir a lucrar com o progresso econômico dos que se foram. É difícil. Ao contrário dos imigrantes mediterrâneos (conhecidos pela denominação genérica, e errônea, de “baianos”), que regularmente mandam suas economias para os lugares de origem, os gaúchos-orientais tendem a trocar cruzados novos por outras moedas realmente fortes.

A maioria dos exilados sente saudade. Muitos voltam a passeio sempre que podem. Alguns imaginam até se não é possível, um dia, juntar o padrão de vida que conquistaram com a qualidade de vida que deixaram para trás. Mas voltar, voltar em definitivo, dizem eles, só quando resolverem fazer uma perestroika na economia do Rio Grande Oriental.

(Publicado também no Jornal da Tarde e na coletânea The Best of Xongas.

80 comentários

Rará. Não emigrei ainda, mas pretendo. Gaúcha em São Paulo, forever. E prometo não esconder o sotaque. E prometo não ceder ao capitalismo. Viva os eventos culturais. E Porto Alegre nas férias. E os grafites tormam o muro da Mauá bem agradável, pelo menos à minha apreciação.

Sylvia querida!
Sou paulista, mas o marido eh gaucho. E a gauchada esta tomando Dubai de assalto. Sao tantas empresas gauchas por aqui… Tramontina, Marcopolo, Calcados Democrata, alem do pessoal “do frango” da Sadia e Perdigao.
E na ausencia de um dia de Sao Paulo (como seria? Baianos, italianos, espanhois, paraibanos, judeus e todo mundo comemorando???).
Agradeco pela camisa, mas o divorcio nao eh um plano por esses lados!
Beijos

Ah, do lado superior esquerdo do portão da garagem aparece uma placa com o número da casa: 71! Está lá, na foto a confirmação de que é mesmo 71, não 72…

SYLVIA, eu agradeço sua gentileza e simpatia. Além do trabalhão, é claro. Olha, fui lá na minha “caixa-de-retratos-jurássicos” à busca de uma foto que tinha como certo encontrar. Era aos 13 anos, tocando violão sentado no muro de pedra da tal casa. Não encontrei aquela, lamentavelmente, mas outra de 1985, a última vez que estive em POA (!!) (isso mesmo, há 22 anos!) e fui rever minha querida casa. Vou escaneá-la e enviá-la a vc por e-mail. eu estou na frente da casa (como muito mais cabelos, menos 15 quilos e com cara não de 33, mas de 27/28 anos!) Vou enviar a você por e-mail, numa tentativa de retribuir sua gentileza….

A casa do Arnaldo está lá !
Exatamente igual como era quande ele tinha 13 anos 🙂
Casa de pedra , com garagem do lado direito bem como o Arnaldo falou.
A foto com o celular ficou assim.. pq estava chovendo .
Amanhã vou passar lá e tirar outras.
Arnaldo, o numero da casa é 71 ( e não 72 ) , mas é ela mesmo !!!!!

Riq, não responde à Juliana não, chefe chamado Schimidt deve ser barra. Imagina se ela descobre que cê é parente dele?
Juliana: 😉

Sylvia, enquanto eu lia o post fui imaginando a casa do Arnaldo bem naquela praça mesmo – não tinha certeza do nome, mas me soava familiar… Fiquei curiosa pra saber se era aquela casa mesmo!!!

Riq, como sempre o texto está um primor… 😉

Pois eu fui uma das que emigrou pra São Paulo Ocidental. Vivi lá por mais de 15 anos, constituindo família e fiz o caminho de volta aos pagos há quase 2 anos, trazendo além das malas e da cuia marido, filho, um Labrador e um gato viralatas nascido na Rua Atlântica, nos Jardins. Todos hoje estão perfeitamente adaptados aqui, mas sempre que podemos vamos gastar nossos pilas em São Paulo Ocidental. Mas confesso para vocês: se não fosse a bendita Internet e sites como esse eu JAMAIS teria coragem de fazer o que eu fiz.

Schmitt eh o sobrenome do meu chefe…. dono do escritório para o qual trabalho… será que vcs são parentes? 😉

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