Freakonomics entrevista Arthur Frommer

Não espalhem, mas estou cometendo um ato de alta pirataria. O blog Freakonomics — mantido por Stephen Dubner e Steven Levitt, autores do best-seller mundial, e hospedado no site do New York Times — chamou o decano dos autores de guias de viagem, Arthur Frommer, para uma sessão de perguntas e respostas com seus leitores. O certo seria eu selecionar uma ou duas perguntas e dar os links para quem quisesse ler a íntegra. Mas achei a entrevista tão boa que, aproveitando que (1) ainda não faturo com o blog e (2) nenhum dos jornalões brazucas que usam conteúdo do NYT se interessou pelo assunto, trago aqui a tradução completa da entrevista. Concordo com quase tudo o que ele diz (acho que podemos ter uma ótima discussão nos comentários), mas sobretudo admiro sua lucidez (aos 78 anos) e sua coragem de peitar o establishment. Se você gostar, não deixe de clicar no link da entrevista no Freakonomics e também no blog do Frommer (sim, o cara virou blogueiro aos 78).

P: Considerando que o dólar continua a cair frente ao euro, por que não há mais europeus viajando para os Estados Unidos?

Frommer: Por causa das barreiras psicológicas, burocráticas e políticas que nós erigimos para dificultar a vinda deles para cá. Em muitos dos países que não fazem parte do programa de isenção de vistos, leva-se de três a quatro meses simplesmente para marcar uma entrevista para pedir um visto. Assim que os viajantes em potencial adentram nossos consulados, são questionados a respeito de características que não têm nada a ver com segurança ou terrorismo, mas com a possibilidade de que eles permaneçam para além da vigência do visto e se tornem imigrantes ilegais. Um operador de viagens que trabalha com a Polônia recentemente disse que metade dos turistas que ele desejaria trazer para os Estados Unidos tem seus pedidos de visto recusados porque são jovens, solteiros, sem propriedades, e que por isso têm mais probabilidade de ficarem nos Estados Unidos ilegalmente. Quando as pessoas conseguem vir até aqui, são tratadas como crimonosos ao passar pela imigração, ou, na melhor das hipóteses, recebidas com fria descortesia. O resultado disso tudo é que as viagens para os Estados Unidos diminuíram quase 20% desde 2000, enquanto a maior parte dos outros países está experimentando um aumento de 20% no seu turismo receptivo! O declínio da nossa própria indústria do turismo cria uma perda de mais de 100 bilhões de dóalres por ano, dezenas de bilhões de dólares em impostos, e centenas de milhares de empregos. A atuação do governo nesse assunto é um escândalo. E, ao criar uma impressão entre os povos do mundo de que somos um povo arrogante, frio e pouco amistoso, nós tornamos tudo mais inseguro para nós.

P: Como o dólar em queda afetou o seu negócio? E o senhor tem alguma dica para lidar com a desvalorização do dólar ao viajar?

Frommer: Ainda é cedo para sentir o impacto do dólar em queda na publicação de guias para destinos que usam o euro. E quanto a lidar com o dólar desvalorizado ao viajar, nós temos que começar a viajar de maneira mais modesta, descendo uma categoria na nossa escolha de hospedagem (como ficar em hotéis classe turísticas em vez de em hotéis de primeira classe) e freqüentando restaurantes mais simples. 

P: Quando viaja hoje em dia, o senhor acha que é melhor mentir e dizer que é canadense?

Frommer: Não.

P: A que lugar o senhor não irá jamais, e por quê?

Frommer: A Mianmá (Birmânia). Sua presidente democraticamente eleita, Aung San Suu Kyi, que já ganhou um prêmio Nobel, pediu para que os viajantes não venham. Eu não vou apoiar os ditadores bárbaros desta nação com meus gastos de turista. De maneira semelhante eu me recusei a visitar a África do Sul (e mesmo a mencionar o país em meus escritos) durante o tempo em que o apartheid reinou e Nelson Mandela estava na prisão.

P: Qual é o grande erro que as pessoas cometem ao viajar?

Frommer: Elas falham ao não se preparar fazendo um mergulho profundo na história e na cultura do destino antes de chegar. Elas vagam como calouros, incapazes de entender os marcos e as instituições que lhes são apresentados. Nessa hora todos os comentários professorais de seus guias só fazem aumentar a confusão. Ler de antemão – algumas noites na biblioteca – é a chave para uma viagem bem-sucedida.

P: Teoricamente, os lugares (restaurantes, clubes, cenários) recomendados em guias de viagem oferecem o melhor que um país e seu povo têm a oferecer, dentro do orçamento do viajante. Como esses lugares podem manter a autenticidade com o aumento do número de turistas em decorrência da recomendação do guia? Com qual freqüência o senhor ou a sua equipe se negam a mencionar lugares ótimos só porque vocês não querem que eles sejam estragados por visitantes estrangeiros?

Frommer: Se fôssemos limitar nossas recomendações a um punhado, ou cometer o erro (como eu cometi numa das primeiras edições do meu primeiro guia) de dizer que um estabelecimento específico oferecia “a melhor relação custo x benefício de toda Veneza”, então as conseqüências que você imaginou ocorreriam, e uma enchente de turistas reduziria a autenticidade daquela escolha. Mas um bom livro recomenda trinta ou quarenta restaurantes bem espalhados, e outros tantos hotéis, e então pulveriza seus leitores em tantos lugares que a autencidade não é prejudicada. E quanto a “segurar” uma recomendação para nosso próprio uso, a gente faz piada sobre isso, mas isso não acontece.

P: O que motivou o senhor a escrever seu primeiro guia de viagem? O senhor sempre quis ser um escritor de viagem?

Frommer: Eu escrevi meu primeiro guia enquanto servia ao exército americano no exterior, e não tinha nenhum plano de me tornar um profissional. Eu escrevi o guia por causa da alegria que eu tinha experimentado fazendo uma viagem econômica, e da minha convicção de que esta era uma forma superior de tirar férias. Quando eu finalmente voltei para casa depois de servir ao exército, eu entrei para o escritório de advocacia Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison (eu me formei na escola de direito de Yale) e advoguei (litígios, batalhas no fórum) durante seis anos, até que os guias que eu escrevia nas horas vagas começaram a requerer atenção full-time.

P: Qual foi a sua grande descoberta ao viajar?

Frommer: A semelhança de todas as pessoas, em qualquer parte do mundo. Da mãe de uma família massai no Quênia a um jovem casal no Japão a um professor egípcio que mora num barco, todas as pessoas têm as mesmas preocupações e lidam com os mesmos problemas humanos que nós.

P: Qual seriam os maiores benefícios de viajar, além daquelas respostas prontas dos livros, como “crescer como pessoa”, “ver novos lugares”, etc.?

Frommer: Eu acho que as respostas dos livros – “crescer como pessoa”, especialmente – são bastante boas. Por que outra razão você viaja?

P: Qual é sua opinião a respeito de “Viagem ao redor do meu quarto”, de Xavier de Maistre, em que o autor sugere que antes de partir para ver o mundo, nós deveríamos aplicar a mesma curiosidade e atenção aos nossos arredores imediatos? O senhor acha que a nossa obsessão por viajar nos cega para os prazeres locais?

Frommer: Eu sempre achei que os melhores viajantes são exatamente as pessoas que têm um intenso interesse na história e na cultura de sua própria cidade.

P: Se o senhor pudesse voltar no tempo e ser um turista em qualquer país que o senhor tenha visitado desde o início de suas viagens, que país, e em que ano, o senhor escolheria?

Frommer: Eu gostaria de poder voltar àquela Veneza que eu vi pela primeira vez, em meados dos anos 50, quando a Piazza San Marco era em grande parte vazia, a não ser pelos pombos; onde a entrada pra qualquer museu era imediata e sem filas; onde os venezianos se sentavam na calçada e desejavam “buon giorno”; e onde restaurantes freqüentados sobretudo por venezianos eram muito fáceis de encontrar. Foi a cidade mais adorável que eu já vi.

P: Como o senhor seleciona seus autores? Quais são as coisas que fazem alguém ser bom em identificar e descrever boas experiências de viagem? No treinamento, como vocês fazem para que os autores equilibrem a necessidade de consistência com a criatividade e a inovação?

Frommer: Nós tomamos uma decisão em anos recentes (na maioria das instâncias) de usar jornalistas de viagem experientes que sejam também residentes na cidade, na ilha ou na nação que sejam o assunto de nossos guias. Nós sentimos que os seus juízos serão superiores aos de um escritor, mesmo que talentoso, que simplesmente “caia de pára-quedas” num lugar com o propósito de preparar um guia. Nós não fazemos nada para limitar sua criatividade ou inovação, e nos orgulhamos da personalidade individual que dá vida a cada guia.

P: Minha mulher e eu gostaríamos de viajar uma vez por ano a algum lugar fora dos Estados Unidos, mas não somos ricos. Que dicas de viagem o senhor daria para que pudéssemos diminuir custos e alcançar esse objetivo?

Frommer: Dê-se conta, em primeiro lugar, de que quando menos você gastar, mais você vai aproveitar. Mergulhe no esforço consciente de usar serviços de baixo custo – quartos em casas de família, apartamentos que vcoê troca com um casal estrangeiro, albergues que agora aceitam gente de todas as idades, programas de recepção por voluntários, restaurantes estritamente “locais”, transporte público – e você vai, na minha experiência, aprender que suas viagens terão uma profundidade e um significado muito maiores do que as viagens feitas de um modo mais caro pelos outros.

P: Alguma das companhias mencionadas no seu blog pagam ao senhor de alguma maneira?

Frommer: De jeito nenhum. Nenhuma empresa (ou pessoa) sabe com antecedência que vao aparecer no meu blog; eu tampouco me comunico com eles depois.

P: Quais são alguns dos países pouco conhecidos que caracterizariam “pechinchas” para visitar hoje em dia?

Frommer: Não há mais nenhum país realmente “pouco conhecido” hoje em dia, mas eu gosto e Báli, Croácia, Sicília, Argentina, México (ainda uma pechincha para visitantes que dispensam luxos), Nicarágua, Tailândia, China, Vietnã e Egito.

P: Como é que se acha um guia local que saiba o que diz, seja honesto e interessante?

Frommer: Principalmente por meio de recomendações de amigos, parentes ou conhecidos que viajaram ao lugar e usaram os serviços de um guia capaz. Quem devota tempo a incomodar amigos e parentes pedindo informações antes de partir freqüentemente consegue esses contatos. Numa viagem recente a Estocolmo, minha mulher e eu vasculhamos nossos amigos para ver se conheciam alguém na cidade, e muitos conheciam. Nós telefonamos para esses contatos suecos convidando para jantar, e passamos muitas noites animadas aprendendo com eles sobre o país e a cidade. Um casal sueco, antevendo as perguntas que eu faria, chegou no restaurante com um calhamaço de estatísticas econômicas que ele tinha imprimido da internet!

P: O senhor iria a grandes eventos como o Carnaval do Rio e a Festa de San Fermín em Pamplona, ou preferiria visitar esses lugares fora de temporada?

Frommer: A festa de San Fermín em Pamplona não me desperta nenhum interesse (é parte de um ritual bárbaro, para bêbados); a única razão que possa existir para visitar Pamplona é durante uma caminhada a Santiago de Compostela (é ali que começa o Caminho de Santiago). Mas o Carnaval do rio é outra história, e o Rio de Janeiro em si pode ser visitado com grande prazer em qualquer época do ano.

P: Uma mulher pode viajar a Samarra, no Iraque, e achar um lugar decente e seguro para ficar por um ou dois meses?

Frommer: Não.

P: O que seria uma boa viagem para um homem de 70 anos com artrite reumatóide que gostaria de ver algo diferente da Nova Inglaterra, onde ele viveu e tirou férias a vida inteira?

Frommer: Por que não visitar o exato oposto da Nova Inglaterra do outro lado do Atlântico, e fazer uma viagem no inverno a Paris? Há pacotes para o inverno por 599 dólares. Paris é uma experiência revigorante: a fronteira da arte e da gastronomia, da moda e da literatura, do teatro e da ópera – e um tributo fascinante e sem fim às realizações do homem.

P: O senhor pode recomendar um site onde eu possa achar boas dicas a respeito de viajar com crianças, assim como recomendações de hotéis e resorts para ir em família?

Frommer: Eu fiquei bem impressionado com WeJustGotBack.com.

P: Que dicas o senhor dá para dormir no avião, sobretudo naqueles vôos de manhã cedinho?

Frommer: Máscara para os olhos, tapa-ouvidos e aquelas almofadas para a nuca que evitam que o seu queixo caia para a frente quando você adormece.

P: O que a gente deveria fzer quando vai a um lugar que foi recomendado por um guia mas acaba ficando abaixo das expectativas? Existe alguma maneira de fazer o autor ficar sabendo disso?

Frommer: Nós recebemos muita correspondência de nossos leitores, e nós prezamos e levamos em consideração seus comentários. Nós também repassamos essas informações aos autores dos guias.

P: Neste verao eu estarei em Pequim durante a Olimpíada. O senhor teria alguma recomendação sobre como não sucumbir às multidões e ao influxo gigantesco de estrangeiros?

Frommer: Eu sinceramente não vejo como as multidões podem atrapalhar as suas atividades particulares.

P: Neste momento eu estou decidindo onde ir na próxima viagem. Eu diminuí a minha lista para quatro destinos (Nova Zelândia, Hong Kong, Espanha ou Argentina) e estava a ponto de começar a jogar dardos no mapa, até que esta oportunidade se apresentou. Alguma consideração a respeito?

Frommer: Apesar de cada um dos destinos que você enumera ser um ótimo lugar para visitar, nenhum deles estaria na minha própria lista de “indispensáveis”. O que é “indispensável”, exatamente? Todo americano em algum momento de sua vida deveria ir à China, participar de um safári na África, e visitar o antigo Egito.

P: A Frommer’s pagou pelo merchã descarado no filme Euro Trip (Passaporte para a Confusão)?

Frommer: Não mesmo. Eu recebi uma ligação dos produtores do filme perguntando se havia alguma objeção a que o nosso nome fosse usado, e me oferecendo a chance de interpretar a mim mesmo no filme. Mas quando eu fiquei sabendo que teria que ficar duas semanas parado em Roma para balbuciar minhas duas linhas de texto, eu recusei a oferta, e um conhecido ator britânico foi escolhido para me interpretar. Ele era muito mais bem-apessoado. 

37 comentários

Não é verdade, mesmo, Mari e Fabio? Nós estamos sempre pensando em uma maneira de dar um ‘apigreide’ nas nossas viagens básicas 😀
Fabio, também achei muito legal ele ter levantado esse ponto. Quer coisa melhor quando a gente consegue se sentir turista na própria cidade? Ir a um bairro diferente e ver que ali tem uma loja legal, um restaurante bonito ou umas casas antigas (que eu adoooro).
Muito pé no chão ele, gostei.

Jurema, tem aí uma contradição Pequim com multidões x Veneza pré-multidões que ele realmente não resolve. Mas acho que o que ele quer dizer é que se você sabe o que fazer, consegue abstrair as multidões, sei lá… 🙄

Emília, a corrente de viajar-barato-é-melhor-para-a-viagem é bem estabelecida. Ele é o seu principal profeta; depois dele, tem o Rick Steves, que vai pela mesma linha.

Eu, como sou hotelólatra, acho um pouco radical essa coisa de que você precisa se hospedar sempre supersimples. Acho ótimo poder me hospedar supersimples — principalmente se isso significar a diferença entre viajar ou ficar em casa. Mas se puder me hospedar com charme e conforto, tanto melhor. A segunda parte do conselho, porém — usar transporte público, comer em restaurantes “locais” — vale até para quem está no Four Seasons…

(OK, pode vir aí uma grande discussão sobre até que ponto isso é válido em países muito pobres ou caóticos; mas em linhas gerais, concordo.)

    comer em restaurantes locais “onde nao se encontram turistas” pode ser lindo na Franca ou na Italia, jah em paises como o Egito, Quenia ou Mocambique pode ser a diferenca entre aproveitar a viagem ou ficar 5 dias trancado no hotel com serios problemas….

Pois é, Emília, também achei interessantíssimo esse ponto. A entrevista como um todo é muito válida, de fazer pensar mesmo, com sinceridade, sem delongas; já tô mandando o link prum mooonte de viajantes.

Emília, também achei este um ponto alto! 🙂 E ainda quando fala que as pessoas que conhecem bem sua cidade são melhores turistas… (Na verdade, são “pessoas interessadas”.)

Esse começo é a própria franqueza: ele não tem papas na língua para dizer quais são os reais problemas com o turismo nos EU.
Fabio, também achei bacana ele ter enfatizado a preparação e a leitura, para entrar no clima do lugar e entender melhor o que se visita.
Mas a parte que mais gostei foi sobre a recomendação de viagens de baixo custo…nunca tinha pensado neste ponto de vista: estar mais em contato com os locais através de viagens low-cost. Acho que vai bem contra a corrente do que imaginamos como viagem ideal.

Parabéns, Riq, ficou ótimo.

Só gostaria de saber como que ele acha que multidões podem não atrapalhar programas prticulares…

(Adorei o Jawohl)

Muito boa a entrevista. Sua grande descoberta ao viajar foi “a semelhança de todas as pessoas, em qualquer parte do mundo. Da mãe de uma família massai no Quênia a um jovem casal no Japão a um professor egípcio que mora num barco, todas as pessoas têm as mesmas preocupações e lidam com os mesmos problemas humanos que nós.” É isso aí. Só essa frase já valeu o dia.

Riq, foi você que traduziu o texto?

Lembro de uma frase do Gombrich, na introdução de “História da Arte” ( http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=57013 ), em que dizia que um dos objetivos do livro era que as pessoas não atravessassem os museus somente para “ticar” os catálogos ao passar por um quadro.

De alguma forma, muitas pessoas acabam fazendo isso ao viajar: ao preocupar-se em “cumprir” os itens “obrigatórios” (também conhecido como “lerê”), acabam desperdiçando oportunidades de se aprofundar ou simplesmente curtir verdadeiramente algum local ou cidade.

Por isso, pra mim, um dos pontos altos da entrevista é “preparar-se” antes de viajar – e não somente deixar que a viagem te leve. (Aliás, tema recorrente neste blog!) 😉

Sensacional, Riq. Através do seu blog, viajo e stou aprendendo cada dia um pouco mais, não fosse aqui, talvez nunca fosse ouvir falar de Frommer e muitas outras coisas. Aqui tem um pouco de muita coisa, é um belo pedaço do universo. Obrigada.